segunda-feira, 5 de maio de 2014

Mudanças em minha Teologia e em minha Vida (Parte 4)

1 Comentário

Parte: [1] [2] [3] [4]

Mudanças em minha Vida

Ingresso no seminário
           
Depois que comecei a namorar Jacilene, tomei a decisão definitiva de me mudar para o Piauí e fazer o Seminário Teológico do Nordeste. No dia 13 de novembro de 2010, fiz o Vestibular Unificado dos Seminários da Igreja Presbiteriana do Brasil e, com a graça de Deus, fui aprovado.

Assim, conversei com meu pastor da Igreja Batista Central de Campinas, Pr. Leandro Borges Peixoto, e expliquei-lhe minhas mudanças teológicas, meu desejo de fazer o Seminário em Teresina e, assim que possível, mudar-me para a Igreja Presbiteriana do Brasil. Ele compreendeu e escreveu uma carta de recomendação ao Seminário Teológico do Nordeste, afirmando minha vocação ao ministério pastoral.

Em janeiro de 2011, passei as minhas férias em Parnaíba. Aproveitei esse tempo no Piauí para fazer a minha matrícula no Seminário e também para arrumar um emprego na área de desenvolvimento de softwares, na qual tinha trabalhado durante seis anos em Campinas. Minha intenção era fazer o Seminário de manhã e trabalhar à tarde, para prover o meu próprio sustento. Participei de um processo seletivo em uma empresa de Teresina chamada Infoway e fui aprovado. Assim, quando retornei a Campinas, pedi as contas na empresa onde trabalhava e preparei minhas malas para retornar ao Piauí em fevereiro de 2011.

Esses dias finais em Campinas foram muito difíceis para mim. Era muito difícil deixar a minha família, a minha igreja, os meus amigos, o meu trabalho e a minha cidade para ir a um lugar tão distante e tão diferente da minha realidade. Porém, um texto que constantemente estava em minha mente e me consolava era Hb 13.14: “Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir”. E uma música que eu ouvia frequentemente, e cuja mensagem era do mesmo teor, era Walk On, de U2: “We’re packing a suit case for a place that none of us has been. A place that has to be believed to be seen […] Walk on, walk on” (Nós estamos levando uma mala para um lugar onde nenhum de nós esteve. Um lugar que precisa ser crido para ser visto [...] Vá em frente, vá em frente). A ideia de que eu era um peregrino neste mundo tomou conta da minha mente e do meu coração, e assim eu recebi forças para deixar tudo para trás e começar uma nova vida no Piauí, sabendo que minha cidade não era nem Campinas e nem Teresina, mas aquela que há de vir.

Foi assim que iniciei o Bacharelado em Teologia no Seminário Teológico do Nordeste, no dia 14 de fevereiro de 2011, dez anos depois da minha conversão. Nesse dia, depois de lavar o alojamento dos seminaristas solteiros pela manhã e começar a trabalhar na Infoway à tarde, participei do culto de abertura das atividades do Seminário à noite. Quem pregou foi Pr. José Alex Barreto, capelão do Seminário na época, no texto de Rm 10.14-16, que diz: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!”. Foi um sermão impactante. No final do culto, cantamos o hino 303 do Hinário Novo Cântico, Pendão Real, que me marcou profundamente nessa nova fase da minha vida, especialmente nos momentos de sofrimento:

Um perdão real vos entregou o Rei,
A vós, soldados seus!
Corajosos, pois, em tudo o defendei,
Marchando para os céus.

Com valor! Sem temor!
Por Cristo prontos a sofrer!
Bem alto erguei o seu pendão,
Firmes, sempre, até morrer!

Eis formados já terríveis batalhões
Do grande usurpador!
Revelai-vos hoje bravos campeões!
Avante, sem temor!

Quem receio sente no seu coração
E fraco se mostrar,
Não receberá o eterno galardão
Que Cristo tem pra dar!

Pois sejamos todos a Jesus fiéis,
E a seu real pendão!
Os que da vitória colhem os lauréis
Com ele reinarão.

As aulas do Seminário se iniciaram no dia seguinte, o que foi o começo de um novo tempo em minha vida, marcado por grandes bênçãos. Tive o privilégio de ter como professores pastores como José Alex Barreto, Maely Vilela, Moisés Bezerril, Rodrigo Brotto e Augusto Gouveia, com os quais pude aprender muitas coisas. Comecei o meu primeiro contato com os idiomas nos quais a Bíblia foi escrita, grego e hebraico, o que era um antigo sonho meu. Passei a ter um contato diário com a teologia reformada em um ambiente onde teologia e vida andam de mãos dadas. Fiz grandes amizades, tanto com seminaristas quanto com professores. Além de tudo isso, o ambiente do Seminário proporcionou um isolamento do mundo e dos meios de comunicação que me foi muito benéfico. Meu uso da Internet e da TV se reduziu ao mínimo necessário, o que me fez perceber a quantidade de tempo que eu desperdicei antes com essas coisas.

Mas nem tudo foi um paraíso quando eu ingressei no Seminário. Passeis por muitas dificuldades no início. A primeira dificuldade foi a adaptação ao clima e à cultura do Piauí, bastante diferentes dos de São Paulo. Na primeira semana de aulas peguei uma virose que me fez perder peso. Demorei muito para me acostumar com a alimentação, o que também contribuiu para a perda de peso. O calor excessivo de Teresina, em torno dos 40º, foi uma grande provação no início.

Outra dificuldade foi a distância da minha família. Eu nunca havia ficado muito tempo longe dos meus familiares e me acostumar com essa nova realidade foi um processo longo e doloroso. A dor da distância se agravou ainda mais quando descobri que meu pai estava doente. Essa situação me levou a chorar muitas vezes, sozinho, em meu quarto.

Além da distância da minha família, havia também a distância de Jacilene. Ainda que agora estivéssemos no mesmo estado, trezentos e vinte quilômetros nos separavam um do outro, eu em Teresina, ela, em Parnaíba. Víamos-nos uma vez por mês, quando eu viajava para Parnaíba para passar um final de semana com ela.

Mas a principal dificuldade com a qual eu me deparei foi conciliar o Seminário com meu trabalho. Das 6h às 6h30, eu fazia meu devocional particular. Às quartas-feiras, das 6h às 6h30, havia reunião de oração na capela. Das 6h30 às 7h, o café da manhã era servido. As aulas eram ministradas de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h30. Às quintas-feiras, das 10h às 11h30, havia momentos devocionais na capela, e na última quinta-feira do mês, um culto comunitário, com celebração da Ceia do Senhor. O almoço era servido das 12h às 12h30, e 13h eu pegava o ônibus para ir ao meu trabalho. Eu trabalhava de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h, e aos sábados, das 8h às 12h. Durante a semana, chegava do trabalho ao Seminário quase 19h, depois de o jantar ter sido servido. Às segundas-feiras, das 19h30 às 20h, havia devocionais para seminaristas solteiros. Além de tudo isso, havia também os trabalhos domésticos: em dois dias da semana, os seminaristas solteiros tinham que fazer a limpeza do alojamento, o que não levava menos de uma hora, sem mencionar o fato de que eu tinha que lavar as minhas roupas à mão, algo que também levava tempo. O resultado dessa rotina é que eu tinha pouquíssimo tempo para estudar, enquanto o Seminário exigia muitas leituras e trabalhos. Por causa disso, não foram poucas as vezes em que tive que ficar acordado até alta madrugada, para manter em dia meus compromissos com o Seminário.

Eu suportei essa rotina por dois meses, até que no dia 14 de abril de 2011 pedi as contas do meu emprego. Graças a Deus, porém, não fiquei desamparado financeiramente, pois alguns irmãos e meus pais se dispuseram a me ajudar, sendo meus mantenedores. Também consegui uma bolsa para trabalhar na tesouraria do Seminário de segunda a sexta-feira, das 14h30 às 16h30, recebendo um abatimento na mensalidade do Seminário.

Assim, pude continuar o Seminário por todo o ano de 2011 com uma dedicação maior, procurando estudar bastante em particular e também participar mais ativamente de outras atividades do Seminário, como reuniões do Diretório Acadêmico, eventos evangelísticos, vigílias de oração e treinamentos diversos.

Mudança de denominação

Depois das mudanças em minha teologia, que me tornaram teologicamente um presbiteriano, eu decidi me tornar membro da Igreja Presbiteriana do Brasil. Isso aconteceu, de fato, no dia 12 de junho de 2011, quando fui recebido como membro da Igreja Presbiteriana Filadélfia, em Parnaíba-PI, na qual Pr. Emerson Iglesias é pastor.

Esse evento foi muito significativo para mim, representando o fim de uma longa jornada do pentecostalismo ao calvinismo que eu iniciei no início da minha vida cristã. Curiosamente, pouco tempo depois da minha conversão, em maio de 2001, eu comecei a usar uma Bíblia com o Hinário Novo Cântico, da Igreja Presbiteriana do Brasil. Naquela época, eu nem imaginava que um dia seria um presbiteriano, mas essa Bíblia foi como uma antecipação do meu futuro.

Depois que me tornei oficialmente um presbiteriano, comecei a servir mais intensamente na Igreja. Em Parnaíba, ensinei eventualmente os adultos na Escola Bíblica Dominical da Congregação Presbiteriana Nova Jerusalém, preguei em sete cultos dominicais dessa mesma Congregação, preguei em dois cultos dominicais da Igreja Presbiteriana Filadélfia e preguei em um culto dominical da Igreja Presbiteriana Central de Parnaíba. Em Teresina, a convite do Pr. Moisés Bezerril, comecei a trabalhar na Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém, da qual ele é pastor, no segundo semestre de 2011, onde dei aulas para os catecúmenos, preguei em três cultos dominicais e fiz algumas visitas a membros da Igreja. Esse foi o início da realização do meu sonho de pregar o Evangelho em um lugar distante do Brasil.
           
Noivado e casamento

O amor existente entre eu e Jacilene crescia cada vez mais e estávamos cada vez mais certos de que queríamos viver lado a lado por toda a vida. Assim, no dia 27 de julho de 2011, noivamos em uma churrascaria de Parnaíba, dando mais um passo em direção ao casamento.

A partir de então, começamos os preparativos para o nosso casamento. Marcamos para o dia 7 de janeiro de 2012, na Igreja Presbiteriana Filadélfia, em Parnaíba, sendo Pr. Emerson o celebrante do casamento religioso com efeito civil. Foi uma correria para preparar tudo! Convites, decoração, recepção, roupas, fotos, lembrancinhas... Mas graças a Deus tudo ficou pronto a tempo.

Meus pais Marcio e Florinda, meu irmão Daniel e sua noiva Merielle (os dois seriam meus padrinhos) chegaram à Parnaíba uma semana antes do casamento. Assim, durante essa semana conhecemos juntos algumas belezas do litoral piauiense, inclusive o Delta do Parnaíba. Foi um momento inesquecível.

Finalmente, no dia 7 de janeiro de 2012, um sábado, aconteceu o meu casamento. Foi uma cerimônia simples, mas de muita alegria para mim e Jacilene. Depois de Pr. Emerson ter pregado em Efésios 5.22-33 uma mensagem muito abençoadora, eu e Jacilene fizemos os votos, prometendo vivermos juntos até que a morte nos separe. Depois tivemos uma festa simples ao lado da igreja, com bolo, salgadinhos, doces e refrigerante. Eu e Jacilene passamos a primeira noite da Lua de Mel no Hotel Delta, no centro de Parnaíba, e os demais dias em uma pousada na praia de Atalaia, em Luís Correia-PI.

Finalmente, no dia 18 de janeiro, viajamos para Teresina e passamos a morar em uma das casas da vila do Seminário. Assim, meu antigo sonho de me casar com uma mulher reformada e piedosa se concretizou.

Congregação Presbiteriana de José de Freitas

No segundo semestre de 2011, depois do meu noivado e antes do meu casamento, Pr. Augusto Gouveia, na época professor de hebraico no Seminário e pastor da Congregação Presbiteriana de José de Freitas, convidou-me para assumir o seu lugar nessa Congregação a partir de 2012. Ele teria que se mudar para Teresina por questões familiares e a Congregação ficaria sem pastor. Eu fiquei bastante interessado em cuidar dessa Congregação, mas desde que eu pudesse continuar morando no Seminário e indo para José de Freitas apenas aos finais de semana, de modo que meus estudos não fossem prejudicados.

Dia 5 de janeiro de 2012, depois da Reunião Ordinária do Presbitério Norte do Piauí, tive uma conversa com Pr. Renato Sousa, pastor da Igreja Presbiteriana da Piçarra, em Teresina-PI, a qual é responsável pela Congregação Presbiteriana de José de Freitas. Combinamos que eu faria uma visita à Congregação, para conhecê-la e, assim, tomar uma decisão.

A visita ocorreu depois do meu casamento e da minha mudança para Teresina, no dia 22 de janeiro, um domingo. Participei do culto na Congregação pela manhã e preguei no texto de 1Pe 2.9,10. Pude conhecer os irmãos e ser conhecido por eles, e minha primeira impressão da Congregação foi a melhor possível. Era desejo da Congregação e do Pr. Renato que eu morasse em José de Freitas e fiquei de dar uma resposta quanto a isso no próximo domingo.

No próximo domingo, dia 29 de janeiro, preguei novamente no culto matutino da Congregação, no texto de 2Rs 6.24-7.20. Informei aos irmãos sobre minha decisão de continuar morando no Seminário e ficar em José de Freitas apenas nos finais de semana, de sexta-feira à tarde à segunda-feira de manhã. Os irmãos ficaram um pouco tristes, mas compreenderam a minha decisão.

Assim, a partir de 3 de fevereiro, sexta-feira, passei a trabalhar na Congregação Presbiteriana de José de Freitas. As reuniões normais da Congregação ficaram assim definidas: Escola Bíblica Dominical (domingo, às 8h30), Culto solene (domingo, às 18h30) e Reunião de oração e doutrina (sexta-feira, às 19h). Minhas responsabilidades na Congregação envolveram pregação (no culto solene e eventualmente em cultos nos lares e na zona rural), ensino (na Escola Bíblica Dominical e na Reunião de oração e doutrina, e eventualmente para os catecúmenos e para os líderes), direção da liturgia, aconselhamento, visitas a crentes e descrentes, evangelismo pessoal (de casa em casa, tanto na zona urbana quanto na rural) e atividades como membro da Mesa Administrativa da Congregação. Com a graça de Deus, tenho trabalhado nessa Congregação até hoje.

Meu trabalho nessa Congregação é, de fato, a realização do meu desejo de pregar o Evangelho em algum lugar distante da pátria, acendido em meu coração pela OperaçãoJesus Transforma em Manaus. Ele também está relacionado, em alguma medida, com uma das oito coisas que eu gostaria de fazer antes de partir, que é a plantação de igrejas reformadas em pequenas cidades do Brasil.

Conclusão
           
As mudanças ocorridas em minha teologia não foram, de modo algum, aleatórias. Todas elas sempre me conduziram para uma só direção: a teologia reformada conforme expressa na Confissão de Fé de Westminster e nos Catecismos Maior e Breve. Além disso, eu não sou o tipo de pessoa que muda de convicção com a mesma rapidez com que o camaleão muda de cor. Todas as mudanças teológicas aqui descritas foram fruto de um processo longo e demorado de estudo e reflexão na Palavra de Deus.

Certamente, como ainda somos imperfeitos, devemos sempre estar abertos a uma reforma. Um conhecido ditado entre os protestantes afirma: “Igreja reformada, sempre se reformando”, o que sem dúvida também é verdadeiro sobre o cristão individual. Isso não significa que um dia eu deixarei a teologia reformada para abraçar novamente o pentecostalismo. Mas isso significa que novos entendimentos sobre a teologia reformada (que é uma expressão do ensino bíblico) surgirão inevitavelmente.

Dito isso, é importante deixar claro que ainda continuo amigo dos batistas. Eu não sou mais batista, mas tenho um grande carinho por eles, sejam os do passado (John Bunyan, Charles Spurgeon, etc.), sejam os do presente (John Piper, D.A. Carson, etc.), sem falar que alguns dos meus melhores amigos são batistas, entre os quais estão os outros dois colaboradores deste blog.

Finalmente, ao observar as mudanças ocorridas em minha vida, tão grandes ou maiores do que aquelas ocorridas em minha teologia, eu também posso enxergar nelas um destino definido: levar-me ao ministério da Palavra. Tudo o que aconteceu em toda a minha vida, principalmente depois da minha conversão em 2001 e especialmente depois de 2010, aconteceu para que eu fosse feito um pregador do Evangelho em terra estranha. Não posso expressar melhor o sentimento que esse pensamento me traz do que com as seguintes palavras, registradas no meu diário no dia 1º de maio de 2010 (antes que essas mudanças ocorressem), com as quais encerro esta série:

Hoje de manhã, eu li a Bíblia e as Meditações em Lucas (J.C. Ryle), e comecei a orar e a lembrar de tudo o que Deus já fez por mim em minha vida cristã. Tive uma sensação de propósito. De que eu estou neste mundo por alguma razão. De que Deus tem um propósito no qual quer me usar. Pensei isso ao ler sobre Simeão, que sabia que não morreria antes de ver o Messias. Ainda estou com essa sensação de que eu sou importante para Deus, de que Ele tem um propósito especial em minha vida. Isso é mais forte do que pode ser expresso por palavras. Minha gratidão a Deus por isso é muito grande!.

Comentários

1 comentário em "Mudanças em minha Teologia e em minha Vida (Parte 4)"

Rauni disse...
26 de maio de 2014 16:32

Toda glória seja dada a Deus pela obra do SENHOR em sua vida irmão!!!
Que sejas vaso de honra e bênção nas mãos de Deus juntamente com sua esposa. A graça e a paz do REI sempre.

 

Teologia e Vida © Revolution Two Church theme by Brian Gardner
Converted into Blogger Template by Bloganol and modified by Filipe Melo