quinta-feira, 7 de julho de 2011

Resenha: Livro Deus em ação (Gene Edward Veith Jr)

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VEITH JUNIOR, Gene Edward. Deus em ação: a vocação cristã em todos os setores da vida. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
Gene Edward Veith, Jr nasceu em Oklahoma em 1951. Formou-se na Universidade de Oklahoma em 1973 e recebeu um Ph.D. em Inglês pela Universidade de Kansas em 1979. Lecionou no Northeastern Oklahoma A&M College, no Wheaton College, em Illinois, no Estonian Institute of Humanities, em Tallinn, Estônia, e na Concordia University Wisconsin, onde também serviu como deão. Atualmente ele é editor de cultura da revista Word, é conferencista e contribui para um grande número de periódicos. Ele também é autor de vários livros sobre Cristianismo e cultura, como The Spirituality of the Cross (A Espiritualidade da Cruz) e Tempos pós-modernos.
“Deus em ação” tem como assunto principal a doutrina da vocação, particularmente na forma como ela foi apresentada por Martinho Lutero e pelos demais reformadores. Veith apresenta o assunto de modo bastante acessível, começando com a natureza e objetivo da vocação, passando por vocações específicas e tratando de problemas específicos comuns a todas as vocações.

No capítulo 1, o autor introduz o assunto, apresentando uma série de exemplos de vocações por meio das quais Deus age no mundo. Deus nos dá o pão diário através do fazendeiro que plantou e colheu o trigo, do padeiro que fez o pão e da pessoa que nos serviu a refeição. E Deus nos abençoa de diversas outras formas pela instrumentalidade dos médicos, professores, pastores, policiais, pais e de muitos outros. Porém, quem exerce a vocação nem sempre tem essa perspectiva, porque, devido ao pecado, o trabalho que foi dado antes da queda para ser uma benção (Gn 2.15), hoje é fonte de fadiga e frustração (Gn 3.17-19). Assim, apesar de Deus atuar no mundo através das vocações, também é verdade que o diabo tem atuado e que as pessoas muitas vezes pecam contra suas vocações, sendo maus pais, maus esposos, maus professores, maus políticos e maus pastores. Por tal razão, há uma necessidade de se recuperar a doutrina da vocação, que está totalmente relacionada com a fé, com a santificação e com a vida cristã de maneira geral.

Veith continua o capítulo 1 apresentando a doutrina da vocação na história. Na Idade Média os católicos entendiam que só eram vocacionados aqueles que trabalhavam integralmente na Igreja. Lutero e os demais reformadores, ao contrário, defenderam o sacerdócio universal dos crentes, entendendo que todo cristão tinha uma vocação e que ela incluía todos os trabalhos legítimos presentes em uma sociedade, e não apenas aqueles considerados espirituais pelos católicos. Toda vocação era vista como um culto a Deus e um serviço ao próximo. Finalmente, Veith apresenta o que se constitui no tema principal do livro: a vocação não é, primeiramente, algo que fazemos para Deus, mas sim algo que Deus faz em nós e por intermédio de nós. Ele também afirma que Deus se oculta nas nossas vocações e espera ser encontrado nelas, antes do que em experiências místicas e em milagres extraordinários.

No capítulo 2, Veith explica como Deus opera por intermédio dos seres humanos. Ele o faz retomando a doutrina da providência de Deus, segundo a qual Deus opera no mundo através de meios. Deus não é apenas transcendente, intervindo no mundo ocasionalmente, quando um milagre é realizado, mas Deus também é imanente, governando e sustentando toda a sua criação (At 17.25,27,28). O autor continua apresentando a vocação a partir do texto de Romanos 13.1-6, onde os governantes são apresentados como tendo sido instituídos por Deus e sendo instrumentos de Deus para um determinado fim: punir o mal. A passagem também ensina um outro princípio: o que é permitido em uma vocação pode não ser permitido em outra. Nem todo cidadão pode punir o mal, pois Deus reservou essa vocação para as autoridades. O autor encerra o capítulo mostrando que Deus opera até mesmo por intermédio de ímpios, como Ciro da Pérsia (Is 45.1,4-7). Assim, ainda que apenas os cristãos sejam vocacionados à salvação, Deus tem uma vocação no mundo para todos os seres humanos.

Veith prossegue no capítulo 3 mostrando o propósito da vocação. Ele relembra que para os protestantes a salvação é totalmente pela graça, mediante a fé, e independente de obras (Ef 2.8,9). Isso pareceria um motivo para um desprezo para com as boas obras, porém os protestantes, particularmente os puritanos, foram responsáveis por uma “ética do trabalho” e por um ativismo moral rígido. Como explicar isso? Na continuação do texto de Efésios, no verso 10, Paulo diz que fomos “criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. Veith explica a relação da fé e das obras conforme a visão de Lutero, segundo o qual “nossa fé serve a Deus, enquanto nossas obras servem às pessoas”. Assim, segundo o teólogo Gustaf Wingren, “Deus não precisa de nossas boas obras, mas o nosso próximo sim”. Diante disso, Veith afirma que o propósito da vocação é amar e servir ao próximo. Ele prossegue mostrando como no exercício da nossa vocação para com nosso próximo há uma relação de troca, de dar e de receber. E utilizando o texto de Mt 25.40, o autor defende que assim como Deus está oculto em nossa vocação, Deus, particularmente Cristo, também está oculto em nosso próximo, o que é uma motivação para os cristãos amarem o seu próximo.

O capítulo 4 fala sobre como descobrir a vocação. O autor inicia dizendo que vocação não é algo que escolhemos para nós mesmos, mas algo que somos chamados a fazer. Ele mostra como uma mesma pessoa pode ter múltiplas vocações, sendo ao mesmo tempo filho, pai, esposo, cidadão, supervisor, supervisionado, etc. Porém, em nenhuma dessas vocações temos escolha. Pelo contrário, somos vocacionados a elas por Deus. É Deus quem soberanamente determina quais serão nossas vocações, e Ele o faz pela instrumentalidade de seres humanos. Outro ponto importante é que uma pessoa pode ter várias vocações ao longo da vida: estudante, atendente de uma lanchonete, advogado, professor. Assim, a vocação não é algo apenas futuro (o que eu serei chamado para fazer), mas também presente (qual é a minha vocação agora).

Nos capítulos 5, 6, 7 e 8, Veith trata de vocações específicas, no trabalho, na família, na sociedade e na igreja. No trabalho, temos tanto a vocação do senhor, que tem autoridade sobre os funcionários e que deve tratá-los com dignidade, quanto a vocação do servo, que é o funcionário e que deve obedecer ao senhor como se estivesse trabalhando para Cristo (Ef 6.5-9). Na família, temos a vocação do casamento, que é uma figura da união de Cristo e da Igreja, onde o esposo deve amar e cuidar de sua esposa, e a esposa amar e respeitar o marido; a vocação de pai e mãe, que trazem um filho à existência e devem sustentá-lo e ensiná-lo no caminho em que deve andar (Pv 22.6); e a vocação de filho, que deve honrar os pais (Ex 20.12), por mais estranhos que eles sejam, e mesmo depois de atingir a idade adulta. Na sociedade, temos as vocações do governo, que tem como objetivo punir o mal (Rm 13) e que também são legítimas para os cristãos, e a vocação de cidadão, que deve se submeter às autoridades em tudo (1Pe 2.13), exceto naquilo que contraria a Palavra de Deus (At 5.29). E na igreja, temos a vocação para a salvação (Rm 8.28-30), que nos introduz na igreja (1Pe 2.9-10); a vocação de pastor, que deve se ocupar com aquelas tarefas próprias de seu ofício, como pregar o Evangelho, apascentar o rebanho, estudar e ensinar a Palavra de Deus; a vocação do diácono, que deve se ocupar com questões materiais da igreja; e diversas outras vocações, segundo o dom que Deus concedeu a cada um (Rm 12.3-8).

No capítulo 9, o autor fala sobre a ética da vocação. Ele inicia mostrando que a diferença entre um cristão e um não-cristão que trabalham na mesma área é a fé e a ausência dela, o que faz diferença no significado do trabalho que realizam e na maneira pela qual ele se torna aceitável para Deus. Ele continua mostrando o pecado contra a vocação, dando vários exemplos: um líder político que não ama seu povo, um policial que espanca um cidadão, um negociante que engana seus clientes, um jornalista que escreve mentiras, um artista que faz pornografia, uma mãe que aborta seu bebê, um médico que pratica a eutanásia, um esposo que adultera, etc. Ele também trata sobre agir fora da própria vocação, quando queremos fazer coisas que não fomos chamados para fazer. Por exemplo, tentar consertar uma tomada elétrica sem ter uma vocação para atuar como eletricista. Veith termina o capítulo dizendo que Deus age em nossas vocações, apesar de nós.

No capítulo 10, Veith trata da cruz da vocação. Desde que o pecado entrou no mundo, a vocação está debaixo de maldição e pode ser fonte de muito sofrimento. Assim, a vida cristã é o caminho da cruz (Lc 9.23), no qual iremos experimentar perseguições, rejeições, sofrimento físico e finalmente a morte. Podemos enfrentar provações na vocação, como o fracasso, o desgaste físico e mental, o tédio. Também podemos enfrentar tentações, como a tentação do divórcio no caso de um casal que vive um casamento tumultuado, e a tentação do orgulho quando obtemos sucesso na vocação, querendo ser servidos antes que servir. Mas o sofrimento da nossa vocação nos leva à oração, e nossas orações são mais intensas e genuínas quando estamos desesperados e já não temos mais o que fazer. E a dependência de Deus que temos em oração nos leva a uma manifestação de fé, fé essa que transforma o sofrimento numa cruz, de maneira que tiramos dele mais benefícios que prejuízos.

Finalmente, no capítulo 11, o autor conclui o livro falando sobre o descanso na vocação. Ele afirma que devemos viver de acordo com o nosso chamado (1Co 7.17), sentindo-nos seguros na nossa situação e reconhecendo-a como um dom de Deus. E quando formos chamados para o descanso da nossa vocação, na aposentadoria, devemos também reconhecer isso como vindo de Deus.

Este é um excelente livro sobre a doutrina da vocação e certamente provocará uma revolução na perspectiva que muitos cristãos têm da vocação. Compreender que a vocação não é uma opção que devemos fazer antes do vestibular, nem simplesmente algo que fazemos para Deus, mas antes de tudo algo para o que Deus nos chama, e que Ele mesmo faz em nós e através de nós, levará muitos cristãos a um engajamento maior em suas vocações, para a glória de Deus e para o serviço do próximo.

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