quarta-feira, 28 de abril de 2010

O que é a doutrina da Trindade? (Parte 1)

11 comentários

Parte: [1] [2]
Por John Piper


A doutrina da Trindade é fundamental para a fé cristã. Ela é crucial para um apropriado entendimento de como Deus é, como Ele se relaciona conosco e como devemos nos relacionar com Ele. Mas ela também levanta muitas questões difíceis. Como Deus pode ser um e três ao mesmo tempo? A Trindade é uma contradição? Se Jesus é Deus, por que os Evangelhos registraram ocasiões nas quais Ele orou a Deus?

Apesar de não podermos entender completamente tudo sobre a Trindade (ou sobre qualquer outra coisa), é possível responder questões como essas e chegar a uma sólida compreensão do que significa ser Deus três em um.

O que significa ser Deus uma Trindade?

A doutrina da Trindade significa que há um Deus que existe eternamente como três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Explicando de outra maneira, Deus é único em essência e triplo em personalidade. Essas definições expressam três verdades cruciais: (1) Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas, (2) cada pessoa é totalmente Deus, (3) há somente um Deus.

Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas. A Bíblia fala do Pai como Deus (Fp.1.2), de Jesus como Deus (Tt.2.13) e do Espírito Santo como Deus (At.5.3-4). Seriam essas, então, apenas três diferentes formas de olhar para Deus? Ou ainda, três papéis distintos que Deus desempenha?

A resposta deve ser não, porque a Bíblia também indica que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas. Por exemplo, já que o Pai enviou o Filho ao mundo (Jo.3.16), Ele não pode ser a mesma pessoa que o Filho. Do mesmo modo, depois que o Filho retornou ao Pai (Jo.16.10), o Pai e o Filho enviaram o Espírito Santo ao mundo (Jo.14.26; At.2.33). Portanto, o Espírito Santo deve ser distinto do Pai e do Filho.

No batismo de Jesus, vemos o Pai falando dos céus e o Espírito descendo dos céus na forma de uma pomba, enquanto Jesus saia das águas (Mc.1.10-11). João 1.1 afirma que Jesus é Deus e, ao mesmo tempo, que Ele estava “com Deus”, indicando, assim, que Jesus é uma pessoa distinta de Deus o Pai (cf. Jo.1.18). E em João 16.13-15 vemos que, apesar de haver uma íntima unidade entre todos eles, o Espírito Santo também é distinto do Pai e do Filho.

O fato de Pai, Filho e Espírito Santo serem pessoas distintas significa, em outras palavras, que o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo e o Espírito Santo não é o Pai. Jesus é Deus, mas Ele não é o Pai nem o Espírito Santo. O Espírito Santo é Deus, mas Ele não é o Filho nem o Pai. Eles são pessoas diferentes, não três diferentes formas de olhar para Deus.

A personalidade de cada membro da Trindade significa que cada pessoa tem um distinto centro de consciência. Assim, elas relacionam-se umas com as outras pessoalmente: o Pai trata a Si mesmo como “Eu”, enquanto Ele trata ao Filho e ao Espírito Santo como “Vós”. Do mesmo modo, o Filho trata a Si mesmo como “Eu”, mas ao Pai e ao Espírito Santo como “Vós”.

Freqüentemente é objetado que “Se Jesus é Deus, então Ele deve ter orado a Si mesmo enquanto esteve na terra”. Mas a resposta a essa objeção encontra-se em simplesmente aplicar o que nós já vimos. Embora Jesus e o Pai sejam Deus, eles são pessoas diferentes. Assim, Jesus orou a Deus o Pai sem orar a Si mesmo. Na verdade, é precisamente o contínuo diálogo entre o Pai e o Filho (Mt.3.17; 17.5; Jo.5.19; 11.41-42; 17.1ss) que fornece a melhor evidência de que eles são pessoas distintas com distintos centros de consciência.

Algumas vezes a personalidade do Pai e do Filho é estimada, mas a personalidade do Espírito Santo é negligenciada, de modo que Ele é tratado mais como uma “força” do que como uma pessoa. Mas o Espírito Santo não é algo, mas Alguém (veja Jo.14.26; 16.7-15; At.8.16). A verdade de que o Espírito Santo é uma pessoa, não uma força impessoal (como a gravidade), também é mostrada pelo fato de que Ele fala (Hb.3.7), raciocina (At.15.28), pensa e compreende (I Co.2.10-11), deseja (I Co.12.11), sente (Ef.4.30) e oferece comunhão pessoal (II Co.13.14). Todas essas são qualidades de uma pessoa. Além desses textos, os outros que mencionamos acima deixam claro que a personalidade do Espírito Santo é distinta da personalidade do Filho e do Pai. Eles são três pessoas reais, não três papéis que Deus desempenha.

Outro erro sério que as pessoas têm cometido é pensar que o Pai se tornou o Filho, que, então, se tornou o Espírito Santo. Contrariamente a isso, as passagens que vimos sugerem que Deus sempre foi e sempre será três pessoas. Nunca houve um tempo em que alguma das pessoas da Divindade não existia. Todas elas são eternas.

Embora os três membros da Trindade sejam distintos, isso não significa que um seja inferior ao outro. Pelo contrário, todos eles são idênticos em atributos, tais como poder, amor, misericórdia, justiça, santidade, conhecimento e em todas as demais qualidades divinas.

Cada pessoa é totalmente Deus. Se Deus é três pessoas, isso significa que cada pessoa é “um terço” de Deus? A Trindade significa que Deus é dividido em três partes?

Não, a Trindade não divide Deus em três partes. A Bíblia deixa claro que cada uma das três pessoas é cem por cento Deus. Pai, Filho e Espírito Santo são totalmente Deus. Por exemplo, é dito de Cristo que “nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl.2.9). Não devemos pensar em Deus como uma torta cortada em três pedaços, cada um deles representando uma pessoa. Isso faria cada pessoa ser menos do que totalmente Deus e, assim, não ser realmente Deus. Antes, “o ser de cada pessoa é igual ao ser integral de Deus”[1]. A essência divina não é algo dividido entre as três pessoas, mas está totalmente em todas as três pessoas sem estar dividida em “partes”.

Assim, o Filho não é um terço do ser de Deus, Ele é todo o ser de Deus. O Pai não é um terço do ser de Deus, Ele é todo o ser de Deus. E, da mesma forma, o Espírito Santo. Assim, como Wayne Grudem escreve: “Quando falamos conjuntamente do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não estamos falando de um ser maior do que quando falamos somente do Pai, ou somente do Filho, ou somente do Espírito Santo”[2].

Há somente um Deus. Se cada pessoa da Trindade é distinta e, ainda assim, totalmente Deus, então, devemos concluir que há mais do que um Deus? Obviamente não, pois a Escritura deixa claro que há apenas um Deus: "Pois não há outro Deus, senão eu, Deus justo e Salvador não há além de mim. Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro" (Is.45.21-22; veja também 44.6-8; Ex.15.11; Dt.4.35; 6.4-5; 32.39; I Sm.2.2; I Rs.8.60).

Tendo visto que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são pessoas distintas, que cada um deles é totalmente Deus e que não há senão um só Deus, devemos concluir que todas as três pessoas são o mesmo Deus. Em outras palavras, há um Deus que existe como três pessoas distintas.

Se há uma passagem que mais claramente traz tudo isso em conjunto, ela é Mateus 28.19: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Primeiro, note que Pai, Filho e Espírito Santo são distinguidos como pessoas distintas. Nós batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Segundo, note que cada pessoa deve ser divina porque todas elas são colocadas no mesmo nível. Na verdade, você acha que Jesus nos batizaria no nome de uma mera criatura? Certamente que não. Portanto, cada uma das pessoas em cujo nome devemos ser batizados é, necessariamente, divina. Terceiro, note que, apesar de que as três pessoas divinas são distintas, nós somos batizados em seu nome (singular), não em seus nomes (plural). As três pessoas são distintas, mas constituem um único nome. Só pode ser assim se elas compartilharem uma mesma essência.

Notas

1. Wayne Grudem, Teologia Sistemática (Edições Vida Nova, 1999), p.189.
2. Ibid, p.187

Por: John Piper. © Desiring God. Website: desiringGod.org
Tradução: André Aloísio
Revisão: Davi Luan

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Comentários

11 comentários em "O que é a doutrina da Trindade? (Parte 1)"

manuel alves disse...
19 de julho de 2013 11:39

Olá, meu menino, que andas a fazer
Nesse buraquinho tanta água meter?
...Estou, há bastante tempo, a colocar
Toda a imensa água deste largo mar

Mas tu não vês que tão impossível é
Meter esta água no buraco que se vê?
...Mais fácil é aqui bem colocar este mar
Do que tu esse lindo mistério esgotar.......

manuel alves disse...
19 de julho de 2013 11:40

Olá, meu menino, que andas a fazer
Nesse buraquinho tanta água meter?
...Estou, há bastante tempo, a colocar
Toda a imensa água deste largo mar

Mas tu não vês que tão impossível é
Meter esta água no buraco que se vê?
...Mais fácil é aqui bem colocar este mar
Do que tu esse lindo mistério esgotar.......

Juciele Moreira disse...
2 de maio de 2016 01:29

Como faço para compartilhar este lindo conteúdo no Facebook?

André Aloísio disse...
11 de maio de 2016 10:18

Olá Juciele Moreira,

Basta copiar o link do artigo e colar no Facebook, que ele será compartilhado.

Abraços,

André Aloísio

claudinei conceiçao de almeida disse...
19 de maio de 2016 17:26

André Aloísio... Por que não falar da origem da Trindade, como tudo começou, seus principiais apoiadores, por que não falar de Constantino e sua importância para o concílio de Nicéia? Lendo o que escreveu fica rasteiro o entendimento sobre este dogma central das religiões cristãs. Por que a palavra Trindade ou trinitas foi utilizada por Tertuliano? Por que no concílio de Nicéia, ano 325, nada se falou sobre Pai, filho, Espirito S? Questionou-se a essência do pai e do filho. Só no ano 381, concílio de Constantinopla, que resolveram incluir o Espirito S? ou seja, 500 depois da morte de Cristo e depois dos apóstolos saírem de cena? Por que o imperador Constantino, logo ele que nada entendia de Teologia, nem sequer era cristão, resolveu ficar ao lado de Atanásio? Converse comigo, quero saber.

André Aloísio disse...
20 de maio de 2016 07:22

Olá Claudinei,

Antes de mais nada, o artigo não é de minha autoria, mas da autoria de John Piper.

O artigo não falou sobre a história da doutrina da Trindade porque não era o seu propósito. O propósito do artigo é apresentar o fundamento bíblico da doutrina da Trindade. Porém, em minha monografia, eu trabalho também o aspecto histórico dessa doutrina. Você pode ler minha monografia aqui: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2014/12/a-trindade-imanente-unidade-de-essencia.html .

Agora, é importante dizer o seguinte: a origem da doutrina da Trindade não está nos Concílios de Niceia e de Constantinopla, em 325 e 381 respectivamente, como você parece entender. A Trindade já era crida desde o Novo Testamento (e já está implícita no Antigo Testamento), como é mostrado neste artigo de John Piper e também no capítulo bíblico da minha monografia, e também foi defendida por cristãos desde o segundo século em diante, como Ireneu de Lião, Teófilo de Antioquia, etc. O que aconteceu no decorrer do tempo foi um melhor entendimento daquela doutrina que já era crida desde o tempo dos apóstolos.

Abraços,

André Aloísio

claudinei conceiçao de almeida disse...
20 de maio de 2016 16:58

Como discorrer sobre o dogma central da religião cristã dentro de um contexto bíblico sem mencionar a sua origem? Mas, tudo bem, vamos ao que interessa. Alguns defendem essa ideia de que a igreja primitiva cristã já acatava plenamente essa ideia, mas do ponto de vista histórico é diferente. Muitos se baseiam nos escritos de Inácio de Antioquia, porém é sabido que Tertuliano foi um dos primeiros, no início do século quatro, em sua obra Adversus Praxeas. Nenhum dos apologistas ensinaram a trindade de forma tal definida e aceita hoje. Nenhum deles como: Irineu, Hipólito, Orígenes, Cipriano, Novaciano, em algum momento, disseram que o pai, o filho, o espírito santo eram co-iguais em eternidade, em poder, posição ou sabedoria, no máximo, havia uma igualdade entre pai e filho. Sobre o espírito santo sequer mencionaram ou especularam a ideia de que pai, filho, espirito santo eram co-iguais. Agora essa de que os apologistas defendiam um Deus do ponto de vista de hoje, quanto a mim... É novidade. Conquanto, quero continuar te ouvindo.

André Aloísio disse...
21 de maio de 2016 16:12

A origem da doutrina da Trindade é a Bíblia, como demonstrado no artigo do Piper. Que a igreja primitiva já aceitava essa doutrina é um fato que pode ser comprovado historicamente através de uma análise do Novo Testamento, que é um documento histórico também. Estudiosos da doutrina da Trindade citam frequentemente a obra O Senhor Jesus Cristo (Larry W. Hurtado), na qual Hurtado, um acadêmico de mão cheia, prova que a igreja primitiva já aceitava que Jesus é Deus e, desse modo, o adorava.

Com isso eu não quero dizer que toda a linguagem e sistematização da doutrina da Trindade já estão prontas na Bíblia. A doutrina foi sistematizada no decorrer dos quatro ou cinco primeiros séculos. Mas todas as afirmações doutrinárias das quais consiste a doutrina da Trindade (Há um só Deus, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, os três são distintos e se relacionam uns com os outros) já estão presentes na Bíblia. E muitos dos primeiros pais da igreja manifestaram crer nessas afirmações doutrinárias, em maior ou menor grau.

Como eu já escrevi bastante sobre isso na minha monografia, recomendo novamente a você a leitura da sua seção histórica, para que eu não tenha que repetir novamente aqui o que já escrevi ali. A monografia pode ser acessada aqui: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2014/12/a-trindade-imanente-unidade-de-essencia.html

Abraços,

André Aloísio

claudinei conceiçao de almeida disse...
22 de maio de 2016 19:39

A origem da Trindade é a Bíblia e a mesma expressão nem sequer aparece em seus escritos, mas soa-lhe razoável isso? Pelo menos uma coisa melhorou: O senhor não me desmentiu quando eu disse que nenhum dos apologistas ensinaram que pai, filho, espírito santo eram co-iguais em eternidade, em poder e sabedoria, o que fica evidente que os nomes mencionados não foram forjados por mim. Se os defensores apontam o Novo Testamento como uma oxima indubitável, analisando os anais da história, damos de cara como outras possibilidades. Antes o senhor disse e citou alguns a apologistas como Irineu de Lião e Teófilo de Antioquia. Quando disse que nem Irineu, Hipólito, Novaciano, Cipriano, Novaciano ensinaram uma doutrina como tendo a mesma substância e essência tal é defendida no Credo Atanasiano, no máximo, criam que pai e filho eram co-iguais, quanto ao espírito santo nem havia tal especulação, sendo assim, invalidando o seu argumento que os apologistas defendiam uma trindade. O senhor cita Piper, depois Hurtado, o qual chama de acadêmico de mão cheia, porém vou citar outras fontes históricas de tamanha relevância que deixar claro que nem os apologista nem a igreja primitiva cristã defendiam uma possível Trindade. Revista Superinteressante, de março de 2004, "os primitivos cristãos não seguiam o conceito de uma Trindade, apenas no quarto século que a realidade trinitária passou a ser defendida dentro da igreja Católica". Revista Parousia, ano quarto, no. 2, p. 10, diz que estas afirmações estão corretas, pois foram os trabalhos dos apologistas que a Trindade passou a ser elaborada, estudada e defendida no seio da igreja primitiva cristã. Olhei algumas coisas suas, conquanto, não achei até o momento algo satisfatório ou que respondesse o que procuro compreender. Fica difícil tentar dialogar com quem diz que não gosta de se repetir, até parece que já dialogamos um dia para que fosse possível tão repetição. A questão aqui não é religião, mas é analisar e discutir o valor histórico não Bíblico do dogma, analisar o que dizem os seus defensores e também aos que se posicionam contra ela, mas é difícil e distante a realidade diante de quem não se permite, tornado assim inútil tal conversação e o andamento dela, o que para mim é pesaroso!

Diogenes Dionizio disse...
15 de julho de 2017 20:26

paz
Li atentamente os comentários acima, fico meio que perplexo ao ver tal embate, no bom sentido é claro, tentando principalmente ao meu ver, desvalorizar ou apontar falhas, ao invés de somar,contribuir com informações que colaborassem com tal assuntos, pois, vejo como principal propósito do companheiro Claudinei, levantar ainda mais dúvidas e trazer as interrogações que tanto intrigam as pessoas nos dias de hoje, pense nisso, ao invés de desvalorizar, pense em contribuir.
Não é porque Tertuliano ou o Credo Atanasiano disse ou deixou de dizer que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo vão deixar de ser Deus em Essência e pessoas em Personalidade.
Abraço
Diogenes Dionisio

Unknown disse...
14 de agosto de 2017 21:33

Concordo com voce Diogenes Dionizio

 

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