terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Expiação Limitada e Eleição Incondicional: doutrinas fundamentais?

4 comentários

Este texto é um e-mail enviado por mim, dia 11/01/2010, à lista dos colaboradores do blog Voltemos ao Evangelho, num debate sobre se a Expiação Limitada e a Eleição Incondicional são doutrinas fundamentais.

Sobre a extensão da expiação, a gente deve ser um pouco cuidadoso. O nome Expiação Limitada confunde muita gente. O que está envolvido nessa doutrina não é apenas a extensão da expiação, mas a natureza da expiação. A extensão é apenas um aspecto da natureza dela. Creio que a ênfase na limitação da expiação nos Cânones de Dort foi uma reação aos remonstrantes (arminianos), mas o que está realmente em jogo é a natureza dela. Até por isso alguns sugerem, e eu concordo, que o melhor nome seria Expiação Eficaz ou algo do gênero.

Na Bíblia nós vemos que a expiação efetuada por Cristo foi eficaz, pois ela garante aquilo que ela se propõe a fazer. Ou seja, Jesus veio para de fato salvar um povo, não apenas abrir a possibilidade de salvação. Isso está em tantos lugares das Escrituras que fica difícil citar só algumas passagens. Vemos isso em Isaías 53, em todas as passagens em que é dito que Jesus veio salvar ("Ele salvará o seu povo dos seus pecados", "Eu vim salvar o que estava perdido", etc), na Epístola aos Hebreus, onde a redenção de Cristo é apresentada como absolutamente eficaz na salvação daqueles que ela propõe salvar, etc.

Então surge a pergunta: se Jesus veio salvar eficazmente, e não apenas abrir uma porta pela qual os próprios homens se salvam, todos serão salvos? E então nós vemos na Bíblia que muitos irão ao inferno e não serão salvos. A conclusão é a seguinte: se a expiação de Cristo salva de fato, mas nem todos os homens são salvos, Cristo não morreu por todos os homens. E isso é confirmado quando voltamos para as passagens citadas anteriormente e observamos que elas mesmas limitam o alcance da expiação, dizendo que Jesus morreu por Seu povo, que deu Sua vida por muitos, etc.

Novamente, o que está em jogo não é apenas a extensão da expiação, mas a natureza dela. E limitar a eficácia da expiação, como os arminianos fazem, é extremamente perigoso, porque assim ficamos com algo menor do que a expiação realmente é, e nem mais podemos dizer que Cristo morreu para salvar. Assim, como a expiação está entre as doutrinas primárias, o que se chama de Expiação Limitada é uma doutrina primária. O livro The Death of Death in the Death of Christ (John Owen), com uma versão reduzida em português Por quem Cristo morreu?, é sem igual no tratamento desse assunto. Recomendo.

Quanto à predestinação, ela está totalmente ligada com a salvação pela graça. Quando dizemos que alguém é salvo pela graça, dizemos que nenhum mérito pessoal dele contribuiu para sua salvação. No entanto, se negamos a eleição incondicional, segundo a qual Deus elege aqueles a quem quer, levando em conta apenas Seu próprio amor e graça em Cristo, a conclusão é que a salvação não é mais pela graça. Se existe algo no pecador anterior à salvação, como fé ou boa vontade, que impele Deus a salvá-lo, a salvação já não é mais pela graça, mas pelos méritos do pecador que mereceu sua salvação. Isso acaba indo até além do semipelagianismo, tornando-se pelagianismo puro mesmo. Contra essas heresias Paulo diz: "Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?" (I Co.4.7).

Como a salvação pela graça é o próprio cerne do Evangelho, a predestinação é inseparável do mesmo. Esse é o motivo pelo qual Spurgeon dizia, e com razão: "Calvinismo é apenas um apelido do Evangelho". Calvino não inventou nenhuma dessas doutrinas. Até Agostinho e Lutero falaram disso mais do que ele. E mais, Paulo e os apóstolos falavam disso o tempo todo. Portanto, a predestinação também está entre as doutrinas primárias, sem a qual não há Evangelho.

Agora, uma observação final: quando digo que essas doutrinas são primárias, não estou querendo dizer que um pecador precisa ter um conhecimento minucioso delas para ser justificado. Creio que a experiência de conversão da maioria dos cristãos (inclusive a minha), experiência essa confirmada com fatos bíblicos, é de uma conversão com um conteúdo verdadeiro do Evangelho, ainda que bem superficial. Por isso, quando se discute doutrina, normalmente pergunta-se: "essa doutrina é necessária para a salvação? Se não, por que estamos discutindo isso?". Esse tipo de pergunta reflete certa ignorância do que é a salvação e a vida cristã. O cristão verdadeiro não é um miserável espiritual. O verdadeiro salvo não é um mendigo vivendo de migalhas doutrinárias. A salvação engloba não apenas a conversão, mas também a santificação. Como diriam John Piper e Paul Washer, se você não vive em santidade, nunca foi um salvo. Como somos santificados pela verdade (Jo.17.17), se não estamos crescendo no conhecimento de Deus e aprofundando nosso conhecimento das palavras de Jesus, que são espírito e vida (Jo.6.63), nós não estamos salvos. Quem não está crendo e se arrependendo hoje, nunca creu e nem se arrependeu um dia. Por isso, essas doutrinas podem não ser necessárias na regeneração, mas são indispensáveis na santificação. E citando novamente Spurgeon, todo verdadeiro cristão é um calvinista, pois ainda que às vezes fale de seu maravilhoso livre-arbítrio, lá no fundo não duvida das doutrinas da graça.

Comentários

4 comentários em "Expiação Limitada e Eleição Incondicional: doutrinas fundamentais?"

Isaias Medeiros disse...
6 de março de 2010 21:56

Olá

Uma postagem muito interessante, assim como o restante do blog. Parabéns pelo seu trabalho, já estou sendo seu seguidor.

Se também desejar me visitar, conhecer minhas idéias, trocar links ou seguir meu blog, visite:

Um pouco além do óbvio.

Abraço.

N'Ele, a autoridade máxima em matéria de salvação.

Rodrigo Campos disse...
18 de março de 2010 14:24

Realmente André, grande amigo. Quem assim não crê também não crê no evangelho.

Serei sempre grato pela sua amizade.
Devido a Deus, por você, tenho hoje alegria em crer.

Adoniran Melo disse...
14 de abril de 2010 20:46

Muito inspirativo e provoca a reflexão, parabéns pela iniciativa.

pedropamplona disse...
10 de maio de 2010 18:02

Gosto de ver bons textos sobre a eleição como esse. Parabéns! Estou entrando no blog pela primeira vez e vou colocá-lo na minha blogosfera. Paz!

 

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