sábado, 28 de fevereiro de 2009

Ricardo Gondim e o Antigo Testamento

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Este texto é um e-mail enviado por mim à lista do Caminho da Graça em Campinas, dia 29/01/2009, em resposta à meditação Gaza e as lições que aprendi, de Ricardo Gondim.

Assim como o Gondim, eu me sinto horrorizado por essa guerra absurda de Israel contra os palestinos e por muitos evangélicos que a apóiam, usando a Bíblia. Isso é absurdo e ridículo e só o faz quem ainda não entendeu o espírito da Nova Aliança, onde não existe mais judeu e gentio. No entanto, o trecho abaixo do texto do Gondim é tão absurdo quanto afirmar que "Israel é o relógio de Deus":

"Mas mesmo horrorizado, tenho aprendido. Esses eventos tenebrosos me levaram a admitir que já não leio a Bíblia com as mesmas lentes. Abandonei a idéia de que os massacres do Antigo Testamento foram ordens divinas. Entendo que os genocídios relatados na Bíblia foram cometidos com as mesmas motivações políticas, com os mesmos interesses econômicos e com ambições nacionalistas iguais as atuais, mas atribuidos a um deus guerreiro."

Se Gondim realmente pensa isso sobre o Antigo Testamento ele está caindo no mesmo erro do herege gnóstico Marcião, do século II d.C., que ensinava que o Deus do A.T., vingativo, não era o mesmo do N.T., amoroso. Negar que as guerras do A.T. eram ordens divinas é negar o Deus YHWH que as deu, como relata o A.T.

O problema com o Gondim é que ele está criando um deus diferente, distorcendo a Bíblia. O deus dele não pode matar pessoas, porque é Amor. Mas o Deus da Bíblia o faz, porque também é Justiça. Esses dois atributos não se contradizem, mas andam de mãos dadas em Deus. O Deus do A.T. que condenava pessoas à morte por seus pecados é o mesmo Deus do N.T. que condenará os incrédulos ao inferno. Negar isso é ter uma visão muito pequena de Deus e uma visão muito otimista do homem.

Deus é infinitamente maior do que podemos imaginar e os Seus pensamentos não são os nossos. Quando tentamos limitá-lO ao que podemos entender caímos em heresia e perdemos toda a essência do evangelho: o amor. Em contrapartida, o homem é infinitamente pequeno e miserável, um pecador merecedor da morte e do inferno. Não deveria nos espantar que Deus condene pecadores que merecem, mas que salve pecadores que não merecem. E é justamente essa a essência do evangelho, que só pode ser entendida e devidamente apreciada quando temos diante dos nossos olhos esses dois pólos antagônicos: a santidade de Deus e o pecado do homem. Como pode esse Deus justo e santo salvar o homem? É aí que está a essência do evangelho e onde entra esse infinito amor divino, demonstrado em Cristo Jesus por nós, pecadores indignos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O problema do arminianismo

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Este texto é um pequeno e-mail meu enviado à Lista Cristãos Reformados, dia 27/02/2009.

O grande problema em negar a eleição incondicional e a graça irresistível, como acontece no arminianismo, é que a salvação acaba dependendo, em última instância, do próprio homem. Se existe uma graça preveniente que torna a fé possível para todos, deixando nas mãos do homem a escolha de crer em Cristo ou não, então o que diferencia um salvo de um perdido não é o que Deus fez em Cristo, mas o que o próprio salvo faz ao tomar uma decisão, havendo motivo para jactância. Falando de outro modo, se todos recebem a mesma graça, mas só alguns crêem, a causa da fé desses alguns não é a graça de Deus, mas alguma outra coisa que eles tenham, no caso, a boa vontade. Isso beira salvação pelas obras e abre caminho para o mérito humano na salvação.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Iluminados os olhos do vosso coração"

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"sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança do chamado que ele vos fez, quais são as riquezas da glória da sua herança nos santos e qual é a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos (...)" (Ef 1:18,19)

Este trecho das Escrituras está, em seu contexto imediato, inserido em uma oração de Paulo em favor dos cristãos de Éfeso, e, em um contexto mais amplo, ajuda a compôr o quadro maravilhoso que o apóstolo está pintando nos capítulos 1 e 2, demonstrando as riquezas da glória de Deus e como nós nos tornamos participantes delas.

Dessa forma, convido você a meditar juntamente comigo nesse importante trecho da oração de Paulo que citei. Quero abordar estes versículos em uma série de quatro meditações, sendo a primeira sobre a "iluminação dos olhos do nosso coração". Creio que há preciosos pensamentos que jorram dessa passagem bíblica e que nos edificarão muito!

Primeiramente, gostaria de falar sobre a necessidade desta iluminação. Todas as pessoas do mundo necessitam desta iluminação, tanto os que estão sem Cristo quanto os que já são salvos.

Quanto aos que estão sem Cristo, a Bíblia diz sobre eles que "as trevas lhe cegaram os olhos" (1 Jo 2:11) e "que o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo" (2 Co 4:4). Em outras palavras, "o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente" (1 Co 2:14).

Veja como os que estão sem Cristo são completamente cegos. Eles não conseguem compreender as riquezas da glória de Deus; não podem ter a visão da majestade do Altíssimo; não são capazes de se deleitar em ver quem é Deus e como Ele é precioso. 

Os incrédulos olham para Jesus e enxergam um simples homem, um líder político, um fazedor de milagres, uma grande personalidade, ou qualquer outra coisa, mas não o enxergam como o Filho do Deus vivo! Eles observam este mundo de pecado e maldade e não conseguem ver que o juízo de Deus em breve virá! Pensam em seus caminhos de iniqüidade e não compreendem que irão para o inferno e que precisam se arrepender! Estão cegos, não conseguem ver! Acham que tudo está bem com eles e que não precisam de nenhuma ajuda. Uns vivem impiamente em seus prazeres da carne e pensam que Deus não vê e não os retribuirá com santa ira. Outros vivem confiando em si mesmos e não compreendem que suas justiças são trapos imundos e que necessitam da graça. Outros ainda, com toda sua ignorância e cegueira, insistem em afirmar que Deus não existe. Homens e mulheres cegos, este mundo está cheio deles, cheio de cegos que caminham alegremente, à passos largos, rumo ao inferno! Por mais que a luz brilhe ao seu redor, não conseguem ver, e o pior de tudo: eles amam as trevas, porque suas obras são más. (Jo 3:19)

Vejam então, meus amigos, quão grande é a necessidade de os incrédulos terem seus olhos abertos por Deus! Eles não podem fazer isso por si mesmos, pois como o cego pode recobrar sua própria visão? A cegueira espiritual é a situação de todo homem que vem ao mundo, e somente a gloriosa e soberana graça de Deus pode abrir seus olhos e fazê-los dizer como Paulo: "Deus (...) resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo." (2 Co 4:6)

Contudo, os que já são salvos precisam também serem iluminados. Alíás, Paulo está orando em favor de cristãos, e não de perdidos. Ele ora e espera que estes cristãos, mesmo já tendo sido iluminados inicialmente por Deus, continuem crescendo nesse processo de iluminação, recebendo mais e mais luz do Senhor, como disse o sábio: "a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito" (Pv 4:18).

Como é notório o fato de que, nos dias de hoje, os cristãos precisam ter seus corações iluminados! Há muitos cristãos que, por terem suas vistas espirituais embaçadas, veêm coisas que não existem e deixam de ver coisas que existem! Há vários e vários cristãos que correm atrás de doutrinas e experiências extra-bíblicas, se deixando levar por falsos profetas e ensinos mentirosos! São presas fáceis de qualquer lobo em pele de ovelha, pois não conseguem discernir as astutas ciladas do maligno, e nem entendem que o diabo pode se transfigurar em anjo de luz, para enganá-los! Eles amam a teologia da prosperidade, se deleitam no barulho e na empolgação, são fãs dos jargões evangélicos vazios de conteúdo bíblico, adoram as campanhas semanais para terem vidas vitoriosas, vivem com base no que "sentem no coração", estão sempre à procura de "novas unções"! Que absurdo! Como há filhos de Deus que conseguem enxergar hoje em dia coisas que não existem, amam fantasiar sobre a vida cristã, e ficam correndo atrás de coisas que não são bíblicas e não vem do Espírito!

Por outro lado, estes mesmos cristãos que não tem tido seus corações iluminados deixam de ver e experimentar os tesouros de Jesus Cristo, e é precisamente nisso que o apóstolo Paulo está pensando: ele quer que os efésios sejam iluminados para que saibam de algumas coisas que são imprescindíveis para a sua alegria e crescimento na graça! Há, em Cristo e no Seu Evangelho, profundezas inesgotáveis para o homem explorar e montes tão altos que passaremos a eternidade a subi-los; o amor de Jesus é sem limites, é alto, profundo, largo e comprido, suas dimensões excedem o entendimento humano, e são essas coisas que Paulo está interessado que nós vejamos! Deixamos de apreciar a Deus e ver a Sua glória, porque não temos sido iluminados; não temos visto os traços sublimes do Grande Deus, deixamos de conhecer as delícias da destra de Deus. Muitos de nós olhamos para o Cristo crucificado e não entendemos praticamente nada, sendo que esta é a fonte de toda benção espiritual e a meditação da cruz de Cristo nos revela as verdades mais lindas e preciosas do universo! Não vemos quem nos tornamos em Cristo, não sabemos exatamente aquilo que o Pai nos deu em Cristo gratuitamente, que vergonha, irmãos! Que Deus nos ilumine!

Agora, em segundo lugar, quero falar sobre a natureza dessa iluminação. O ponto que precisamos compreender é que ela envolve a mente e o coração: essa iluminação tem efeitos sobre tudo o que somos!

Há muitos que caem em extremos e não entendem o equilíbrio perfeito da obra de iluminação do Espírito Santo. Alguns são apenas intelectuais: são eruditos, conhecem os textos bíblicos profundamente e são mestres em teologia sistemática. Cite um versículo, e eles lhe darão a localização exata. Perguntem sobre alguma doutrina, e terão todas as informações sobre seu desenvolvimento histórico e base bíblica. Conhecem os termos no grego e hebraico, são poderosos nos debates e discussões. Contudo, não há vida, não há calor, são frios como pedra e tudo o que sabem não afetam suas vidas! Sabem tudo sobre santificação, porém não a experimentam em toda a sua plenitude nas suas vidas; são peritos na justificação, mas suas almas nunca foram inundadas pela alegria e segurança gloriosa de saberem que são justos perante Deus; discorrem sobre a adoção, mas não brota de seus corações o clamor pelo Pai; entendem o destino dos ímpios, porém isso não os incomoda e não os motiva a pregar o Evangelho!

Também, deve-se dizer que há muitos cristãos que parecem ser totalmente constituídos por emocionalismos e sensações. Pensam que a iluminação do Espírito é algo místico; algo que deve vir de uma revelação extra-bíblica, ou de horas e horas de orações nos montes, vigílias, campanhas e canções de adoração "extravagante", como gostam de dizer. Porém, não, meus irmãos! Por favor, fujam deste misticismo evangélico que têm invadido as igrejas! Quantos irmãos sem entendimento vivem atrás de revelações, visões, profecias, e fazendo isso não compreendem que estão desprezando a Santa Palavra de Deus, que é suficiente para governar nossas vidas!

A iluminação do coração que Paulo pede a Deus em favor dos efésios afeta a mente e o coração. O mesmo Espírito que traz entendimento à mente também escreve a Sua verdade no coração, e incendeia o cristão para que ele ponha em prática as lições aprendidas.

Por fim, chegamos ao último ponto, que é a fonte e o meio da iluminação. Acredito que até o momento este último ponto ficou claro em nossa meditação, porém sua importância é grande e preciso enfatizá-lo. A fonte da iluminação do coração é o Espírito Santo. É Ele quem ilumina os filhos de Deus, conduzindo-os a verdade e os levando a Jesus. 

E o meio que o Espírito usa para iluminar seus filhos é a Bíblia, a Palavra de Deus! Entenda que este é o único meio 100% confiável e suficiente para receber iluminação espiritual verdadeira. Leia a Bíblia freqüentemente e com zelo, irmão! Não despreze as Escrituras, em nome de Jesus! Aquele que nasceu de novo ama a Bíblia e tem prazer em lê-la, pois se interessa por saber sobre quem é Deus e o que Deus quer que nós saibamos. 

É claro que há meios derivados de obtenção de iluminação, como ouvir a pregação da Palavra ou ler livros que a expliquem. Faça isso, contudo com cuidado, sempre analisando tudo com base na Bíblia: homens podem errar, mas Deus não erra!

Concluindo, espero que tenha ficado claro a necessidade, natureza, fonte e meio da iluminação de que o apóstolo fala. Nas próximas meditações falarei sobre as três coisas que Paulo cita e deseja que nós saibamos. Que Deus, por sua infinita graça, ilumine os olhos de nosso coração, para vermos a Sua glória!

Mas todos nós, com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, que vem do Espírito do Senhor (2 Co 3:18)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Desastre na Igreja Renascer: Permissão Divina?

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Este texto é um e-mail enviado por mim, dia 10/02/2009, a uma irmã que me perguntou se o desabamento do teto da Igreja Renascer foi uma permissão divina.

A Bíblia ensina que Deus não é apenas o Criador do mundo. Ele também é o Sustentador (Cl.1.17; Hb.1.3) e Governador de todo o Universo (Sl.29; 65; 104; Mt.5.45; 6.26-30). Deus não criou o mundo e se ausentou, deixando que ele existisse por si mesmo, com suas leis. Não! Por Sua providência Deus sustenta e governa todas as coisas, determinando e dirigindo todos os acontecimentos da história conforme Seus soberanos propósitos (Pv.16.33; 19.21; Is.46.10; Jr.10.23; Dn.4.35;). Ele não é um Deus distante e despreocupado com o mundo, mas é bem presente e se interessa por cada detalhe de nossa vida (Mt.10.29-30).

Tudo isso também é verdade com respeito às catástrofes, inclusive o desabamento do teto da Igreja Renascer, dia 18/01/2009, em São Paulo. Esse triste acidente, que provocou a morte de algumas pessoas e deixou muitas outras feridas, não foi apenas uma permissão de Deus, mas uma determinação soberana dEle, planejada na eternidade e realizada no tempo.

Isso parece estranho para muitas pessoas, pois elas não entendem como Deus pode estar envolvido nessas tragédias. Para resolver a aparente dificuldade, muitos retratam Deus como se Ele apenas estivesse assistindo o que acontece no mundo e se lamentando diante das catástrofes. Mas essa é uma visão falsa do relacionamento de Deus com o mundo. Deus tem um propósito em todas as coisas, mesmo naquelas que à princípio são más, e não podemos negar esse fato só porque muitas vezes não conseguimos enxergar esse propósito.

A história é como um quebra-cabeças. Quando olhamos apenas uma peça de um enorme quebra-cabeças não conseguimos discernir qual é a sua figura. No entanto, depois que todas as peças estão encaixadas em seus devidos lugares podemos contemplar a figura formada. Do mesmo modo, quando olhamos para um acontecimento individual na história não conseguimos entender qual é o seu propósito. Quando, porém, a história chegar ao seu fim veremos claramente como todos os acontecimentos se encaixaram para cumprir o propósito último de Deus: a Sua própria glória (Rm.11.36) e o bem dos Seus eleitos (Rm.8.28).

Agora nós podemos não entender o porquê desse desastre na Igreja Renascer, mas certamente esse acontecimento está incluso no soberano propósito de Deus. Temos uma ótima ilustração disso na vida de José, filho de Jacó. Mesmo sendo um servo de Deus, ele foi vendido como escravo pelos próprios irmãos, acabando numa prisão do Egito. Inicialmente José não entendeu porque aquilo estava acontecendo com ele, mas em um determinado momento as coisas começaram a se encaixar. Na prisão ele interpretou o sonho de dois servos de Faraó e, depois, os sonhos do próprio Faraó. Então, foi reconhecido por Faraó e todos os seus conselheiros como o homem mais competente para lidar com a fome que viria sobre a terra, sendo estabelecido como governador de todo o Egito. Graças a tudo isso José pôde salvar a vida de sua família e conservar a descendência de Israel, vendo o propósito de Deus ser cumprido através de uma coisa à princípio má. Ao fazer uma análise de tudo isso para seus irmãos, José reconheceu a soberania de Deus até mesmo sobre o pecado deles: "Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito" (Gn.45.7-8); "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida" (Gn.50.20).

Concluímos, portanto, que Deus não apenas permitiu o ocorrido na Igreja Renascer, Ele também o planejou e certamente tem um bom propósito em tudo isso.

Aproveitemos a oportunidade para exercer o nosso amor pelas vítimas dessa tragédia. Oremos pelas famílias dos que morreram e pelas demais vítimas, para que possam se recuperar desse acontecimento traumático e para que não tenham seus corações endurecidos por essa tragédia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reprovação: um ato de injustiça divina?

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Este texto é uma resposta ao Jr. que comentou meu texto Soberania divina e responsabilidade cristã para com o ímpio.

Você disse que, por Deus ser amor e justiça, não concorda com o fato dEle ser soberano sobre o destino dos ímpios, dando-lhes o castigo eterno no inferno. Analisemos essa questão em detalhes.

Ao falar da justiça de Deus, você parece crer que ela é recuperante e não punitiva. Quanto a isso, sugiro que você leia meu artigo A Ira do Senhor e o início do livro de Naum, principalmente o versículo 3 do capítulo 1: "O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder e jamais inocenta o culpado". Deus não pode inocentar o culpado, do contrário Ele seria injusto. Quando dizemos que Deus é justo queremos dizer que Ele dá a cada um o que é devido: recompensa aos justos e punição aos injustos. Portanto, a justiça divina inclui também a punição.

Se Deus não inocenta o culpado e o homem é pecador e culpado de transgredir a lei divina, Deus necessariamente irá puni-lo. Se não o fizesse Deus não seria justo e não seria Deus. Deus não pode justificar o ímpio, porque isso é abominável para Ele: "O que justifica o perverso e o que condena o justo, abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro" (Pv.17.15). Por tal razão, não deveria nos espantar o fato de Deus enviar pecadores ao inferno, porque é isso o que eles merecem. Isso só é injusto para quem ainda não entendeu a santidade de Deus e o pecado do homem. Não deveria nos impressionar o fato de Deus punir pecadores, deveria nos impressionar se Ele não o fizesse!

O fato, porém, é que muitos pecadores não são punidos por Deus! Como explicar isso? É aqui que entra a graça e o amor de Deus. Dentre toda a raça humana Deus amou uma multidão de todos os povos, tribos, línguas e nações e decidiu não puni-los por seus pecados, fazendo justamente o oposto: dando a eles a recompensa da vida eterna, como se eles tivessem obedecido a lei de Deus. Isso não é espantoso? Como um Deus justo que não inocenta o culpado pode perdoar um pecador e, indo além, considerá-lo um justo?

Esse é o maior mistério do Universo e foi revelado em Cristo Jesus! Ele veio a este mundo como o representante dessa multidão de pecadores eleitos, obedecendo a lei de Deus no lugar deles e morrendo por seus pecados, de modo que toda a ira divina que os pecadores eleitos mereciam foi lançada sobre Ele. Deus condenou em Cristo os pecados de todos os eleitos, e agora nenhuma condenação há para eles (Rm.8.1). E não apenas isso, a justiça de Cristo alcançada por Sua perfeita obediência é imputada aos eleitos quando crêem, e assim Deus pode justificar o ímpio (Rm.4.5) sem tornar-se injusto. Você percebe a grandeza disso? Esse é o coração do evangelho! É disso que Paulo trata em Romanos 3.21-26, quando mostra que a expiação de Cristo na cruz é o modo pelo qual Deus manifesta Sua justiça, sendo ao mesmo tempo justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (v.26).

Portanto, o que me impressiona não é a reprovação divina. Inferno é o que todos nós merecíamos. O que realmente me impressiona é a eleição: Deus ter me escolhido e me dado a vida eterna através de Cristo Jesus quando eu merecia justamente o oposto! Isso sim me espanta e me prostra de joelhos, levando-me a adorar apaixonadamente a esse Deus que me amou de maneira tão sublime!

No final do seu comentário você diz que a Bíblia não deve ser usada para apoiar nossas teses e ideologias, e eu concordo. Mas se você estudar melhor esses assuntos perceberá que não são minhas teses e ideologias, mas doutrinas vindas do próprio Deus. Para entender melhor esses assuntos recomendo que você leia todos os textos da seção Calvinismo do blog, especialmente os seguintes:

Em que crê um cristão reformado

Calvinismo na Bíblia (II): Eleição Incondicional

Eleição Incondicional: um ato de injustiça divina?
 

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