sábado, 12 de setembro de 2009

Meu Espinho na Carne

7 comentários

Este texto é um excerto do meu diário, do dia 11/09/2009. Publico aqui visando a edificação de alguns que, porventura, ainda lutam com seu espinho na carne.

"E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte" (II Co.12.7-10).

Hoje já faz mais de uma semana. Segunda-feira, dia 31/08, eu desmaiei no trabalho, depois de ter visto no chão do banheiro o que pensei ser gotas de sangue. Quando percebi que minha pressão estava caindo saí rapidamente do banheiro e me sentei no banco em frente à secretaria, onde perdi completamente os sentidos e caí no chão. Fiquei desacordado por alguns segundos e quando voltei a mim várias pessoas já estavam ao meu redor, tentando ajudar. Segundo me recordo, já fazia uns dois anos que isso não acontecia. Meu último desmaio havia acontecido na igreja, quando eu cortei minha mão no púlpito, antes da Escola Bíblica começar.

Essa hemofobia (medo de sangue) me persegue desde meus cinco anos. Com essa idade eu desmaiei pela primeira vez, depois de ter machucado seriamente meu polegar da mão direita na porta da casa da minha tia. Creio que essa experiência me traumatizou e foi a causa primária de todos os mais de dez desmaios que ocorreram durante toda a minha vida, até agora. Quando criança fui a psicólogos procurando uma solução para esse problema, mas eles não puderam me ajudar. Desde cedo também ficou bastante claro para mim que eu mesmo não poderia me ajudar, porque esse medo é algo que supera meu autocontrole.

Eu não sei exatamente qual era a natureza do "espinho na carne" de Paulo, mas de uma coisa eu tenho certeza: meu "espinho na carne" é minha hemofobia! Depois da minha conversão, aos 14 anos, passei a pedir incessantemente a Deus a cura dessa fobia, motivado por outra cura realizada por Ele na minha vida. Pedi não três, mas dezenas e dezenas de vezes para que Ele afastasse tal espinho de mim. No entanto, ainda hoje, mais de oito anos depois, essa fraqueza continua bem presente. Em nenhum momento eu ouvi Deus me dizer, como Ele disse a Paulo, "a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza", mas à medida que eu fui crescendo na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo, o silêncio de Deus passou a ter para mim o mesmo significado que Suas palavras a Paulo.

Hoje eu não tenho mais dúvidas de que é da vontade de Deus que eu continue com esse mensageiro de Satanás, talvez até o fim da vida. Esse espinho me foi posto na carne antes da minha conversão, mas certamente o desígnio divino era que sua utilidade se mostrasse quando eu fosse feito cristão. Ele não só me esbofeteia e abate meu orgulho quanto àquilo que tenho aprendido de Deus pela Sua Palavra ("a grandeza das revelações"), mas também é um instrumento da disciplina divina contra outros pecados que assediam minha alma (Hb.12.1-13), principalmente a lascívia em pensamento. Sempre que eu sofro um desmaio Deus faz com que eu me recorde da minha fraqueza e paradoxalmente me fortalece, levando-me a confiar e depender mais dEle e fazendo-me reconhecer que apenas Ele é meu refúgio e minha fortaleza (Sl.46.1), minha força e meu cântico (Sl.118.14). É nesses momentos que eu clamo com Paulo: "quando sou fraco, então, é que sou forte"!

Apesar disso, devo confessar que minha hemofobia me traz um receio. Temo que se algum dia eu tiver que sofrer torturas físicas por amor a Jesus, eu não resista e O negue diante dos homens, como Jerônimo de Praga*, que se retratou de seus ensinos inicialmente por medo da fogueira. Eu não tenho medo da morte, e Deus, que conhece meu coração, sabe que digo isso com sinceridade. É muito certo para mim que "o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp.1.21), porque para o cristão morrer é "partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor" (Fp 1.23). Mas o sofrimento físico é algo que me deixa absolutamente aterrorizado.

Tenho esse receio desde a minha conversão, quando, por acreditar que Deus me usaria como missionário em algum país da Janela 10/40**, o martírio era uma possibilidade muito real para mim. Eu ainda não sei por quais caminhos Deus me conduzirá, mas se me aguardam perseguições, torturas físicas e quem sabe o martírio, que Deus me dê forças para suportar tudo por amor a Cristo e glorificar a Deus com o nome de cristão (I Pe.4.16).

Enfim, que eu aprenda cada dia mais a sentir prazer e me gloriar nessa minha fraqueza, para que sobre mim repouse o poder de Cristo! Amém.

Glossário

* Jerônimo de Praga (1379-1416): discípulo de Jan Huss (1369-1415), pré-reformador tcheco. Após a morte de Huss, Jerônimo foi preso e induzido a retratar-se, o que ele terminou por fazer, depois de muito sofrimento na prisão. No entanto, arrependeu-se e se retratou de sua retratação, sendo finalmente condenado à fogueira, como Huss havia sido um ano antes.

** Janela 10/40: uma faixa de terra que vai do oeste da África até a Ásia, entre os graus 10 e 40 acima da Linha do Equador, formando um retângulo. A maioria dos países dessa região é extremamente hostil ao Cristianismo, abrigando o maior número de povos não-evangelizados da Terra.

Comentários

7 comentários em "Meu Espinho na Carne"

Jorge Fernandes disse...
13 de setembro de 2009 12:23

André,
Assim como Paulo ouviu do Senhor: a minha graça te basta! Pedro diz: "Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós... depois de havermos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça" (1Pe 5.6,7;10).
A boa obra iniciada em nossas vidas será aperfeiçoada por Deus, segundo o Seu propósito, a seu tempo. Mas em qualquer situação, o importante é nos voltarmos sempre ao nosso Redentor, lembrando-nos de todas as nossas imperfeições, falhas e pecados, a fim de nos humilhar diante do Deus plenamente santo, perfeito e glorioso.
No fundo, creio que a única coisa realmente importante é sabermos essa diferença, e orarmos para que Ele nos aproxime cada vez mais da imagem perfeita do Seu Filho Amado.
Cristo o abençoe; santificando-nos para, naquele dia, podermos dizer assim como Paulo: Já não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim!
Abraços.

Norma disse...
13 de setembro de 2009 12:25

Obrigada por um relato tão sincero e cheio de vida, André!
Deus o abençoe! Ele sabe o propósito de nossos espinhos...
Abração!

Jorge Melhado disse...
14 de setembro de 2009 09:03

Caro André, sua declaração vai ao encontro de diversas situações que, creio eu, muitos entre nós também vivenciamos: o medo de, diante de uma situação ainda não vivida, chegarmos a situação de fazer algo que não nega nossas convicções em Cristo. Nossas fraquezas nos fazem cada vez mais dependentes de Deus e assim, mais próximos dEle. Que Ele continue a nos mostrar seu amor e sua graça da maneira que Ele quiser. Jorge

Clóvis disse...
14 de setembro de 2009 10:41

André,

Tocante seu relato. Eu também tenho uma fobia, bem menos complicada que a sua. Mas serve para compreender o quanto algo que parece tão controlável nos outros, e às vezes tão sem sentido, nos domina completamente.

Quanto a negar a Cristo, tenho certeza que se o Senhor te levar a uma situação em que tenha que confessar o nome dEle diante de sua fobia, Ele te fará capaz disso.

Em Cristo,

Clóvis

Roberto Vargas Jr. disse...
15 de setembro de 2009 13:42

Caríssimo André,

Obrigado por compartilhar algo tão íntimo. De fato, é edificante para quem lê.

Tomei seu temor quanto ao testemunho numa situação limite como base para uma reflexão (um tanto desconexa): Pensamentos esparsos sobre perseguições e o martírio. Como o citei, gostaria que soubesse.
A propósito, concordo com o Clóvis quanto a capacitação do Senhor para enfrentar tal situação limite. Mesmo assim, mantenho o mesmo temor que você tem!

Grande abraço, nEle,
No Senhor

André Aloísio disse...
15 de setembro de 2009 19:21

Olá irmãos, graça e paz!

Obrigado pelos comentários!

Clóvis, apesar dos meus receios, no fundo eu também creio que numa situação de tortura física por amor a Cristo, Deus me capacitaria sobrenaturalmente a suportá-la, como Ele agiu com todos os mártires na história.

Roberto, li sua reflexão e achei muito interessante. Quanto às citações referentes a mim, sem problemas.

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

Juliane Queiroz disse...
6 de agosto de 2012 13:28

Glória a Deus!

 

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