segunda-feira, 21 de setembro de 2009

João Calvino e a Predestinação

14 comentários

Estes são alguns trechos da Instituição da Religião Cristã, de João Calvino, retirados do livro III, capítulos XXI, XXII e XXIII, onde Calvino trata da doutrina da predestinação.

Ninguém que queira ser considerado homem temente a Deus ousará simplesmente negar a predestinação, pela qual Deus adota a uns para a esperança da vida e destina a outros à morte eterna; mas muitos a cercam de sutilezas, sobretudo os que intentam que a presciência seja causa da predestinação. Nós admitimos ambas as coisas em Deus, mas o que agora afirmamos é que é de todo infundado fazer uma depender da outra, como se a presciência fosse causa e a predestinação, o efeito. Quando atribuímos a Deus a presciência, queremos dizer que todas as coisas estiveram e estarão sempre diante de seus olhos, de maneira que, em seu conhecimento, não há passado nem futuro, mas todas as coisas estão presentes. E de tal forma presentes que não as imagina como uma espécie de idéias ou formas, à maneira que nós imaginamos as coisas cuja recordação nosso intelecto retém, mas que as vê e contempla como se verdadeiramente estivesse diante dele. E essa presciência se estende por todo o orbe da terra e sobre todas as criaturas. Chamamos predestinação ao decreto eterno de Deus pelo qual determinou o que quer fazer de cada um dos homens. Porque Ele não os cria com a mesma condição, mas antes ordena a uns para a vida eterna, e a outros, para a condenação perpétua. Portanto, segundo o fim para o qual o homem é criado, dizemos que está predestinado à vida ou à morte [...]

Paulo, quando ensina que fomos escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (Ef.1.4), certamente prescinde de toda consideração de nossa dignidade. Porque equivale a ter dito que, como o Pai celestial não achou em toda a descendência de Adão quem merecesse sua eleição, pôs seus olhos em Cristo, a fim de eleger como membros do corpo de Cristo aqueles a quem havia de dar vida. Estejam, pois, os fiéis convencidos de que Deus nos adotou em Cristo para sermos seus herdeiros, porque não éramos, por nós mesmos, capazes de tão grande dignidade e excelência. O qual o apóstolo mesmo nota também em outro lugar, quando exorta os colossenses a dar graças ao Pai que nos fez aptos para participar da herança dos santos (Cl.1.12). Se a eleição de Deus precede a graça pela que nos fez idôneos para alcançar a glória da vida futura, que poderá encontrar em nós que o mova a nos eleger? O que eu pretendo se verá de modo mais claro ainda por outro passo do mesmo apóstolo: "Escolheu-nos antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e sem mancha diante dele" (Ef.1.4); no que opõe o beneplácito de Deus a todos os nossos méritos [...]

Assim, na Epístola aos Romanos, na qual repete este tema mais a propósito e lhe dá continuidade mais por extenso, o apóstolo nega que sejam israelitas todos os que descendem de Israel (Rm.9.6-8); porque, embora eles, por causa do direito da herança, fossem todos benditos, nem todos, no entanto, chegaram igualmente à sucessão [...] Paulo, ainda que conceda que a posteridade de Abraão seja santa por causa do pacto, mostra que muitos deles eram estranhos e nada tinham que ver com essa posteridade, e isso não somente por terem degenerado de maneira que de legítimos se transformaram em bastardos, mas porque a especial eleição de Deus está acima de tudo, e só ela ratifica a adoção divina. Se uns fossem confirmados por sua piedade na esperança da salvação e outros fossem excluídos só por sua defecção e afastamento, com certeza Paulo falaria muito tola e absurdamente, transportando os leitores à eleição secreta. Mas se é a vontade de Deus – cuja causa nem se mostra nem se deve buscar – a que diferencia uns dos outros, de tal maneira que nem todos os filhos de Israel são israelitas, é em vão querer imaginar que a condição e estado de cada um tem seu princípio no que têm em si. Paulo vai adiante quando aduz o exemplo de Jacó e Esaú (Rm.9.10-13). Pois, uma vez que ambos eram filhos de Abraão, e estando ambos encerrados simultaneamente no seio da mãe, o fato de a honra da primogenitura ter sido transferida a Jacó foi como uma mutação prodigiosa, pela qual, no entanto, Paulo mantém que a eleição de um foi testemunhada, assim como a reprovação do outro. Quando se pergunta pela origem e causa disso, os doutores da presciência a põem nas virtudes de um e nos vícios do outro. Parece-lhes que com duas palavras resolvem a questão, e afirmam que Deus mostrou, na pessoa de Jacó, que escolhe aqueles que previu que seriam dignos de sua graça; e, na de Esaú, que reprova aqueles que previu que seriam indignos dela. Isso é o que essa gente ousadamente se atreve a sustentar. Mas que diz Paulo? E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem haviam praticado o bem ou o mal, para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama; já fora dito a ela: o mais velho servirá ao mais moço; como está escrito: a Jacó amei, mas detestei a Esaú (Rm.9.11-13). Se a presciência valesse de alguma coisa para estabelecer a diferença entre esses dois irmãos, a menção do tempo certamente seria inoportuna. Suponhamos que Jacó tivesse merecido a dignidade da eleição pelas virtudes que haveria de ter no futuro; por que Paulo diria que Jacó ainda não havia nascido? Ademais, por que teria acrescentado, inconsideradamente, que Jacó ainda não fizera bem algum – porque seria fácil replicar que, não estando nada oculto a Deus, a piedade de Jacó estivera sempre presente na ciência do Senhor. Se as obras merecessem a graça, é de todo certo que seria igual para Deus valorizá-las antes de Jacó nascer ou quando já estivesse velho. Mas o apóstolo, prosseguindo com o tema, resolve a dúvida e ensina que a adoção de Jacó não se deveu às obras, mas à vocação de Deus. Para as obras, o apóstolo não estabelece tempo, passado ou vindouro, e, ao opor expressamente as obras à vocação de Deus, destrói a propósito um com o outro, como se dissesse: devemos considerar qual foi a boa vontade de Deus, e não os que os homens aportaram por si. Por fim, é evidente que, pelas palavras "eleição" e "propósito", o apóstolo quis remover desta causa todas as causas que os homens costumam imaginar à margem do secreto desígnio de Deus [...]

Tratemos agora dos réprobos, dos quais o apóstolo também fala ali, na mesma ocasião. Pois assim como Jacó, sem ter ainda merecido coisa alguma com suas boas obras, é recebido na graça, do mesmo modo Esaú, sem ter cometido ofensa alguma, é rejeitado por Deus (Rm.9.13). Se voltássemos nossos olhos apenas para as obras, faríamos grave injúria ao apóstolo, como se não tivesse visto o que é evidente para nós. Ora, prova-se que ele não o tenha visto, porque insiste particularmente nisto: em que, antes de fazer bem ou mal algum, um foi escolhido, e o outro, rejeitado; de onde se conclui facilmente que o fundamento da predestinação não consiste nas obras. Além disso, depois de ter suscitado a questão de se Deus é injusto, não alega que Deus pagou a Esaú segundo sua malícia – o que seria a mais clara e certa defesa da justiça de Deus -, mas resolve a questão com uma solução bem diversa: que Deus suscita os réprobos para exaltar neles sua glória. E finalmente põe como conclusão que Deus tem misericórdia de quem deseja, e que endurece a quem lhe apraz (Rm.9.18). Não vemos, então, como o apóstolo entrega um e outro somente à vontade de Deus? Se nós, pois, não podemos assinalar outra razão de Deus fazer misericórdia aos seus senão porque lhe agrada, tampouco disporemos de outra razão para rejeitar e afastar os outros senão pelo mesmo beneplácito. Pois quando se diz que Deus endurece ou que faz misericórdia a quem lhe agrada, é para advertir os homens de não buscarem causa nenhuma fora de sua vontade [...]

Muitos, fingindo que querem manter a honra de Deus e evitar que se lhe faça alguma acusação falsamente, admitem a eleição, mas de tal maneira que negam que alguém seja reprovado. Mas nisto se enganam grandemente, porque não existiria eleição, se, por outro lado, não houvesse reprovação. Diz-se que Deus separa aqueles que adota para que se salvem. Seria, pois, um notável desvario afirmar que os outros alcançam por casualidade ou adquirem por sua indústria o que a eleição dá a poucos. Assim, aqueles por que Deus passa ao eleger, reprova-os; e isto só pela razão de que Ele os quer excluir da herança que predestinou para seus filhos. Não se pode tolerar a obstinação dos que não permitem que se lhes ponha freio com a Palavra de Deus, tratando-se de um juízo compreensível seu, que até os próprios anjos adoram.

Comentários

14 comentários em "João Calvino e a Predestinação"

Gomes disse...
16 de dezembro de 2009 10:06

Com o passar do tempo e do acumulo de conhecimento teologico chego a seguinte conclusaoh sobre este tema.

Toda a Doutrina Bíblica deve se harmonizar com as demais, o que passar disso se torna um desperdicio infantil.

Jobson
Teologia Pratica - Orkut

André Aloísio disse...
17 de dezembro de 2009 06:48

Olá Jobson, a paz!

Usando suas próprias palavras: Com o passar do tempo e do acúmulo de conhecimento teológico chego à seguinte conclusão sobre este tema: toda doutrina bíblica deve se harmonizar com as demais, o que passar disso se torna um desperdício infantil.

Exatamente por isso eu rejeitei a doutrina filosófica do livre-arbítrio, cujo nome e conceito não pode ser encontrado em nenhum lugar das Escrituras Sagradas.

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

Nelson Carvalho disse...
23 de setembro de 2013 19:30

Sou Católico e passei no site de vocês porque estava procurando material para debate sobre o tema da predestinação.

Quero agradecer ao autor da matéria, que se mostrou extremamente clara e concisa e serviu sobremaneira para subsídios ao debate, tanto por parte de protestantes quanto Católicos.

Nelson Carvalho disse...
23 de setembro de 2013 19:32

Este comentário foi removido pelo autor.
F. Pinheiro disse...
16 de fevereiro de 2014 08:18

Bom dia!

A doutrina da predestinação parece-me absurda. Se Deus é responsável pela criação de todos os homens, então deveria mostrar benevolência em relação a todos. Mas não é isso que acontece, pois uns são concebidos para irem para o paraíso e os outros estão condenados ao inferno. Que sentido de justiça podemos encontrar num Deus que procede desta forma?

Grato pela atenção.

F. Pinheiro

Heldon Menezes disse...
2 de março de 2014 18:37

Respondendo a F. Pinheiro:

A vontade de Deus é boa perfeita e agradável. Quando se medita no Deus da bíblia percebe-se que ele não erra, senão nem seria Deus. Rsrsrs, e isso é a maior prova que a Eleição que fez para aqueles que gozarão da terra prometida eternamente com Ele, são aqueles que Ele escolheu por conta da sua perfeição. Como vamos dizer para o feitor dos Vasos de Barro, sendo nós os vasos, que ele nos fez dessa ou daquela forma se as mãos e a inteligência para tanto é só do Criador???
Deus destina porque é perfeito e não erra e tudo que faz goza de perfeição acerto infinitos.
Grande abraço.

Turma 1201 - CPII disse...
3 de maio de 2014 08:43

Pesquisa

Jeanzinho Yeshua Vive disse...
22 de julho de 2014 20:52

Graça,Paz e misericórdia seja com todos,Deus com toda a sua sabedoria e conhecimento de todas as coisas pois nada fica oculta diante dos olhos dele, vemos que a Predestinação nada é mais doque todos aqueles que crerem em Cristo receberão a vida fato não no sentido de que alguns serão salvos por ja serem escolhidos e outro para a condenação..isso não tem base Bíblica firme para afirma pois fraguimentos não podem responder por um todo pq ate mesmo no livro de CL 1:20 fala de reconciliação de todas as Coisas não e meio termo, e o próprio Paulo Diz uma das Cartas aos Coríntios que o deus deste século segou o intendimento dos incrédulos para que não resplandeça a luz do Evangelho. uma Vez Salvo sempre Salvo cai Por terra,pois Deus é misericordioso e vemos que pecado e escolha não que devemos pecar pois já é PREDESTINADO Davi Segundo coração de Deus pecou mais jó Desviava-se do Mal.. Vamos Refletir no que Dizemos a Salvação pertence a Cristo não aos Homens. envés de nos Preocuparmos com predestinação Penso eu que a Palavra praticada vale mais que Discurso de Fariseu que busca na palavra de Deus justificativa para suas ideologias, a Vida vale mais que qualquer Palavra.. deus nao veio em Cristo para condenar o Mundo mais oara que o mundo fosse Salvo por ele,o livre-arbítrio e visto na vida de um dos discípulos que questionou ao próprio Deus em Relação a uma visão,visão esta não no sentido de falar de comida mais de pessoas. Busque de Deus oque Realmente cada palavra quer Dizer.. Letra mata mais quem traz a Vida e o Espirito..

André Aloísio disse...
20 de dezembro de 2014 17:42

Heldon, obrigado pelo comentário. Faço das suas palavras as minhas.

Jeanzinho, seu comentário foi bastante confuso e não consegui entender direito o que você quis dizer. Apenas digo que a eleição é a base da fé e não o contrário. Se Deus escolhesse aqueles que Ele previu que creriam, Sua escolha não teria razão de ser. A Bíblia ensina que a fé é um dom de Deus àqueles que Ele escolheu e não um mérito humano que Deus usa como base para escolher: "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (Rm 8.29.30); "Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele" (Fp 1.29); "a fé não é de todos" (2Ts 3.2).

Paulo disse...
26 de junho de 2015 09:59

Tenho muitas dúvidas sobre a questão uma vez salvo sempre salvo.
O que está salvo se pecar o que acontece?

matuzanovaes disse...
29 de agosto de 2015 09:56

predestinação e contra o próprio cristo que manda pregar o evangelho a toda criatura.

André Aloísio disse...
13 de abril de 2016 22:21

Matuzanovaes, leia este artigo: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2010/08/evangelizacao-e-soberania-de-deus.html .

André Aloísio disse...
13 de abril de 2016 22:40

Paulo, leia este artigo: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2008/06/certeza-da-salvao.html .

Mario Maneta disse...
13 de junho de 2017 10:24

O VENENO OCULTO POR TRÁS DA DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO:
Partindo do princípio de que o homem é um ser pensante, dotado de inteligência e muitos outros atributos herdados do Criador - "criado à imagem e semelhança de Deus" - qualquer ser humano, por mais simples que seja, diante desse conhecimento, chegaria à uma das conclusões a seguir:
Primeiro, a conclusão fatalista: "Se de uma maneira ou de outra estou irremediavelmente perdido, nada posso fazer para me salvar. Logo, vou aproveitar tudo quanto este mundo tem para me oferecer, seja lícito ou ilícito, afinal, minha condenação é certa... Exercerei meu ódio pelo Criador, justamente por ter me criado para este fim, e que venha a condenação..."
Segundo, a conclusão comodista: "Ora, se sei que minha salvação está garantida, não há razão para me abdicar de tudo que esta vida tem para me oferecer, seja lícito ou ilícito, no final das contas, serei salvo mesmo... 'Aleluia, viva a libertinagem!'..."
Para os que contestam dizendo que quem foi predestinado para a salvação não peca, vai aqui umas verdades bíblicas para sua meditação: O mesmo apóstolo João que diz: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca" (I Jo 5.18a), também diz: "Filhinhos, não pequeis, mas se alguém pecar, temos um advogado para com o Pai, Jesus Cristo o justo" (I Jo 2.1).
E mais, "Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós" (I Jo 1.8)
Além do mais, o apóstolo Paulo diz: "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Sem querer ser polêmico ou contencioso, quero encerrar dizendo que muitos, no afã de deixar sua marca na história, não mede consequências e exterioriza suas conclusões, que em muitas vezes mais confunde do que edifica. Fica aqui este brado de alerta, afinal, estamos lidando com coisas que extrapolam os limites desta existência e entram eternidade adentro. Neste ponto, a pergunta que não quer calar é: "Quando ali chegar, de que lado estarei: com Deus ou separado de Deus?" Quero encerrar dizendo: Isto, quem define somos nós e não Ele. O que Ele tinha de fazer, já o fez... Pazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

 

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