quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Agostinho e a Correção dos Pecados Alheios

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Este texto é um comentário de Agostinho sobre Gálatas 6.1, retirado do seu livro Explicação de Romanos e Gálatas.

Nada prova mais que um homem é espiritual quanto seu modo de tratar o pecado alheio; se procura mais libertar o outro que insultá-lo, se mais ajudá-lo que gritar com ele, e assim toda iniciativa que suas faculdades lhe concedem. Por isso diz o Apóstolo: “Irmãos, caso alguém seja apanhado em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi esse tal”. Em seguida, para que ninguém pense estar corrigindo um pecador ao irritar-se com esse e dele zombar insolentemente, ou maldizê-lo com soberba, considerando-o incurável, diz: “Com espírito de mansidão, cuidando de ti mesmo, para que também tu não sejas tentado”. Nada inclina mais à misericórdia que o pensamento do perigo do próprio pecado. Desse modo, quis que não omitissem a correção aos irmãos, mas tampouco que se entregassem a contendas. Com efeito, muitos homens, quando são despertados do sono querem litigar, ou querem voltar a dormir se forem impedidos de litigar. Portanto, conservem a paz e o amor no coração com o pensamento do perigo comum.

Quanto, porém, ao modo de falar, ou seja, se as palavras a serem proferidas devem ser mais ásperas ou mais brandas, é preciso ser regulados pelo que se mostra necessário para a salvação daquele que é corrigido. Com efeito, diz em outra passagem: “Ora, um servo do Senhor não deve brigar; deve ser manso para com todos, competente no ensino, paciente” (II Tm.2.24). E para que alguém não pense por isso que se deve abandonar a correção do erro do outro, atenção ao que acrescenta: “É com suavidade que deve corrigir os opositores” (II Tm.2.25). Como conciliar a suavidade com o dever de corrigir senão conservando no coração a suavidade e borrifando um quê do amargo do remédio nas palavras da correção? [...]

Por isso, jamais deveríamos assumir a tarefa de repreender o pecado alheio, a não ser que, examinando nossa consciência com interrogações internas, possamos responder-nos sinceramente diante de Deus que o faremos com amor. Porque se injúrias ou ameaças ou mesmo perseguições por parte daquele a quem estiveres por repreender tiverem afligido teu espírito, e mesmo assim imaginares que ele possa ser curado por meio de ti, não lhe digas coisa alguma enquanto tu não tiveres sido curado primeiro, para evitar que talvez consintas em movimentos carnais, inclinando-te a ofendê-lo e ofereças tua língua como arma da iniqüidade ao pecado (cf. Rm.6.13) e assim retribuas mal por mal ou maldição por maldição (I Pe.3.9). Tudo o que disseres com ânimo ferido é impulso de quem castiga, não caridade de quem corrige.

Ama, e dize o que queiras; de modo algum será uma maldição o que parecer maldição, se te lembrares e estiveres consciente de que, pela espada da palavra de Deus (cf. Ef.6.17; Hb.4.12), queres libertar o homem do assédio dos vícios. Isso é necessário, porque é possível que aconteça, e muitas vezes acontece, que tu assumas com amor uma tal tarefa e comeces a realizá-la ainda com amor no coração; mas, no meio da ação, enquanto ele resistir a ti, insinua-se algo que te faça passar do atingir o vício ao ser hostil ao próprio homem. Nesse caso, é necessário, em seguida, que te laves com lágrimas um tal pó, e que te lembres de que é muito mais salutar não ensoberbecer-nos pelos pecados alheios; visto que pecamos ao corrigi-los quando a ira daquele que peca mais facilmente nos faz enraivecer do que sua miséria nos faça misericordiosos.

Comentários

1 comentário em "Agostinho e a Correção dos Pecados Alheios"

Josemar Bessa disse...
10 de setembro de 2009 23:33

O Apóstolo Paulo diz em Efésios :"Falai a verdade em amor" - É muito fácil corrigir alguém pensando estar embuído de amor a verdade e na verdade está apenas demonstrando um espírito amargo. Mas as vezes é necessário ser duro - Paulo, por exemplo "resistiu Pedro na cara" por sua atitude não coerente com o Evangelho da graça e pela influência que a atitude dele tinha sobre os outros, atingindo até mesmo a Barnabé.
Já quando Paulo falou com um homem incrédulo que claramente estava sendo uma pedra de tropeço a Verdade na vida de outro homem, ele foi duríssimo: "Mas o mágico Elimas (este é o nome dele em grego) era contra os apóstolos. Ele não queria que o Governador aceitasse a fé cristã. Então Saulo, também conhecido como Paulo, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse:
— Filho do Diabo! Inimigo de tudo o que é bom! Homem mau e mentiroso! Por que é que você não pára de torcer o verdadeiro ensinamento do Senhor?" - Aí está - nossa dificuldade será sempre encontrar o equilíbrio entre uma coisa e outra.

 

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