quinta-feira, 11 de junho de 2009

"Calvinismo" de Quatro Pontos

11 comentários

Este texto é um pequeno e-mail dirigido a alguns amigos num pequeno diálogo sobre "Calvinismo" de Quatro Pontos, uma posição teológica que afirma apenas quatro pontos dos Cânones de Dort (Depravação Total, Eleição Incondicional, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos), negando a Expiação Limitada.

O "Calvinismo" de Quatro Pontos é inconsistente e anti-bíblico. Se a pessoa admite a eleição incondicional e a graça irresistível, qual é o sentido de se afirmar a expiação ilimitada? Veja bem os passos:

Eleição: limitada aos eleitos
Expiação: ilimitada para toda a raça humana
Vocação eficaz: limitada aos eleitos

Qual o sentido disso? Por que o plano de salvação na eternidade, com a eleição, e a aplicação da redenção, com a chamada eficaz e a regeneração, são limitados aos eleitos, mas o fundamento de todo esse plano, que é a expiação de Cristo, é ilimitado a todos? Percebe a inconsistência desse sistema?

Além disso, existem as passagens bíblicas que deixam claro qual era o propósito da expiação: salvar o povo de Deus dos seus pecados (Is.53.10-13; Mt.1.21; Ef.5.25-27). Jesus veio para de fato salvar, não apenas para abrir uma possibilidade de salvação. Se Jesus veio para salvar e Ele morreu por todos, logo todos serão salvos. Mas a Bíblia não deixa clara apenas a eficácia de Sua expiação (a salvação definitiva dos seus objetos), mas também a limitação numérica dessa expiação (os objetos são os eleitos na eternidade). Ou seja, Jesus morreu para salvar apenas os eleitos.

Comentários

11 comentários em ""Calvinismo" de Quatro Pontos"

Vinícius Pimentel disse...
12 de junho de 2009 00:24

Graça e paz!

Amigo, gostaria de deixar uma pergunta. Por favor, não me entenda como alguém que quer debater ou entrar em embates teológicos sem fim. Quando comecei minha jornada na fé, não conseguia crer no calvinismo de maneira nenhuma. Hoje, tenho convicção nas Escrituras de que toda a raça humana é completamente depravada e completamente incapaz de buscar a Deus; enxergo claramente na Bíblia a eleição incondicional; tenho fundamento para crer na perseverança dos santos; e aceito a graça irresistível, embora não a tenha estudado muito na Palavra, pois ela é conseqüência da depravação total (se nunca iríamos buscar a Deus por nós mesmos, somente uma ação soberana e irresistível poderia nos salvar).

Quando chegamos na expiação limitada, eu consigo aceitá-la como uma decorrência lógica dos outros pontos. A expiação limitada é deduzida das outras premissas; ela é necessária para que o Calvinismo funcione como um sistema logicamente coerente.

Eu consigo aceitar a expiação limitada apenas se entender a palavra "expiação" em um sentido limitado, isto é, como o perdão EFETIVO dos pecados.

Minha pergunta, enfim, é: em que sentido, então, o apóstolo João diz que "Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro"?

Nunca encontrei um calvinista que pudesse interpretar essa passagem para mim de um modo que me convencesse. Um servo de Deus tentou me explicar que "mundo inteiro" é, na verdade, uma expressão equivalente a "os seus que estavam no mundo", expressão usada também por João em seu evangelho. Mas é difícil enxergar esse significado no texto, uma vez que João antes diz "e não somente pelos nossos próprios", e ainda enfatiza "mundo INTEIRO". Dizer que João estava se referindo apenas a "os seus que estavam no mundo" soa para mim como um "estupro hermenêutico": é forçar o texto a se encaixar em nosso sistema teológico para torná-lo (com o perdão do vício) "sistemático", isto é, logicamente coerente.

Enfim, gostaria de saber se você tem alguma explicação diferente para esse versículo, uma explicação que busque conciliá-lo com a expiação limitada, mas sem torcer o texto e voltá-lo contra si mesmo. Eu particularmente creio que o caminho seria investigar o significado da palavra "propiciação" no contexto e tentar entender por que João disse o que ele disse.

Peço novamente que não entenda isso como uma tentativa de embate teológico. É só a dúvida sincera de um cristão que quer crescer na graça e no conhecimento do Senhor.

Em Cristo,
Vinícius

André Aloísio disse...
12 de junho de 2009 16:27

E aí Vini, graça e paz!

Cara, sobre a passagem de I João 2.2, existe uma excelente interpretação no livro The Death of Death in the Death of Christ (John Owen), disponível em português na adaptação Por quem Cristo morreu?, da Editora PES. A interpretação dada por Owen nesse livro se tornou a interpretação reformada clássica dessa passagem. Vou tentar dar umas linhas gerais aqui.


O primeiro passo numa boa interpretação bíblica é saber a autoria e os destinatários do texto a ser interpretado. No caso da I Epístola de João, apesar do seu remetente não se identificar, há ampla evidência externa de que seu autor foi o apóstolo João, e sua autoria não é contestada por nenhum estudioso sério.

A epístola também não identifica os seus destinatários, mas amparados em algumas informações sobre o ministério do apóstolo João podemos ter uma boa dose de certeza a respeito disso. O apóstolo Paulo afirma que João, juntamente com Pedro e Tiago, o irmão do Senhor, era um apóstolo da circuncisão (Gl.2.9), em outras palavras, um apóstolo dos judeus. Logo, é mais do que provável que os seus destinatários originais foram os judeus, a quem João ministrava como apóstolo. É verdade que, segundo a tradição, João morou em Éfeso no final de sua vida, juntamente com Maria, mãe do Senhor, mas sua epístola parece ter sido escrita antes disso.

Com esses fatos em mente, analisemos o texto em questão: "Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro" (I Jo.2.2). João está escrevendo aos cristãos judeus que Cristo é a propiciação pelos pecados deles, e não apenas deles, mas também pelos pecados dos cristãos do mundo inteiro, ou seja, os gentios.

Essa é a única interpretação que concorda com todo o ensino bíblico. O significado da palavra "propiciação" aqui é o mesmo significado que a palavra tem em outros lugares do N.T.: a ira de Deus que estava sobre nós, por causa dos nossos pecados, foi lançado sobre Cristo na cruz. Se Cristo é a propiciação pelos pecados de toda a raça humana, então nenhum ser humano irá ao inferno, porque a ira que deveria cair sobre toda a raça humana já caiu sobre Cristo. No entanto, "mundo inteiro" nessa passagem se refere aos cristãos gentios, que assim como os judeus, desfrutam dos benefícios da propiciação de Cristo.

Espero que tenha ajudado. Que Deus te abençoe!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

Jorge Fernandes disse...
13 de junho de 2009 09:55

André,
Boa parte dos calvinistas de 4 pontos ou amyraldistas se consideram calvinistas legítimos pois creem que Calvino não defendeu a expiação limitada. Há algum tempo, escrevi em meu blog sobre o assunto e recebi vários emails contestando a minha opinião de que, calvinistas de 4 pontos não são calvinistas. Recentemente, num debate em outro blog, defendi que a expiação ilimitada e o arminianismo são heresias, no que fui contestado de que são erros, não heresias. Bem, de certa forma, concordei com a opinião. Mas refletindo posteriormente, retirar parte da soberania de Deus (no sentido de diminui-la ou mesmo questioná-la ou invalidá-la) não seria uma heresia? E a expiação ilimitada não está ligada ao humanismo que "teima" em dar algum crédito ao homem na salvação?
Especialmente porque, como você afirmou, os calvinistas de 4 pontos são, no mínimo, ilógicos. Para usar uma frase, se não me engano do McGregor Wright, calvinista de 4 pontos é arminiano inconsistente.
Muito bom texto, bem como a explicação de 1Jo 2.2 ao Vinícius.
Abraços.

Laguardia disse...
13 de junho de 2009 11:55

Irmãos
Romanos 1-2
1 ¶ Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
2 E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus
Não podemos sair do mundo, mas não podemos ser contaminados por ele.
Hoje no Brasil uma grande ameaça paira sobre nós evangélicos. Leis estão tramitando no Congresso que tentarão nos impedir de dizer que o homossexualismo é pecado, que o aborto é pecado, e este é só o começo.
Se não tomarmos uma posição firme e decidida agora em breve teremos de adorar ao nosso Deus escondidos como acontece na China, nas nações árabes, em Cuba etc.
É por isto que temos que levar a mensagem profética de Jesus Cristo a todos e nunca devemos nos calar diante das injustiças praticadas neste mundo.
Ao ver tanta corrupção, imoralidade, falta de ética e desonestidade por parte de nossos governantes, criei um blog http://brasillivreedemocrata.blogspot.com que é o meu clamor contra este estado de coisas.
Creio na Bíblia como meu guia de fé e prática, portanto, luto como me é possível por um mundo melhor.
Peço que me dê sua colaboração dando suas opiniões sobre as matérias lá tratadas, bem como em seus blogs dediquem parte dele para defender nossa liberdade de Culto e Adoração ao Deus único e verdadeiro.
Oremos para que Deus tenha misericórdia de nosso Brasil e que possamos ganhar mais almas para Cristo.
http://brasillivreedemocrata.blogspot.com

Felipe M.Nascimento disse...
13 de junho de 2009 16:51

Paz em Cristo jesus eu gostei muito do teu Blog é mo benção... ((Veja))www.blog-vidaprofetica.blogspot.com deixe um comentaria blz até logo valeuuuuu...

André Aloísio disse...
13 de junho de 2009 17:21

Irmão Jorge, graça e paz!

A distinção feita entre "erro" e "heresia" não é nada simples, mas eu creio que é bastante útil. "Erro" seria um ensino incorreto em relação ao ensino bíblico, mas que não contraria uma doutrina fundamental. "Heresia", ao contrário, é um ensino que contesta abertamente uma doutrina essencial das Escrituras.

Em relação ao arminianismo e à expiação ilimitada, creio que esses ensinos podem ou não ser heresias, dependendo do nível de coerência do sistema.

Se um arminiano tentar ser consistente ele terá que negar alguns atributos divinos, como a onisciência, e terá que atribuir ao homem depravado algo de bom, para que possa preservar imaculado o "maravilhoso" livre-arbítrio, caindo em heresia. Se um amyraldista tentar ser consistente terá que negar a natureza da expiação e cairá em heresia, igualmente. Graças a Deus, porém, tanto arminianos quanto amyraldistas geralmente não buscam essa consistência e se contentam em conviver com contradições, não caindo em heresia, até certo ponto.

Finalmente, sobre a frase "calvinista de 4 pontos é arminiano inconsistente", eu creio que é um pouco exagerada. Apesar da incosistência, o "calvinista" de 4 pontos está mais para calvinista do que para arminiano.

Obrigado pelo comentário e que Deus te abençoe grandemente!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

Danilo Fernandes disse...
14 de junho de 2009 10:39

Ola irmãos reformados!

Vi seu link no blog de um amigo e vim conhecer. Gostei muito. Vou segui-lo. Aproveito para apresentar o meu blog o Genizah e recomendar uma visita.

Tudo de bom!

Em Cristo,

Danilo

http://genizah-virtual.blogspot.com/

Vinícius Pimentel disse...
14 de junho de 2009 11:03

André,
Valeu pela ajuda! Foi uma explicação simples e consistente. Vou continuar examinando as Escrituras para ver se as coisas são, de fato, assim. Mas acho que essa interpretação concilia-se com o ensino geral das Escrituras, sem torcer o texto.
Valeu mesmo!

Em Cristo,
Vinícius

cincosolas disse...
15 de junho de 2009 10:24

André,

Acredito que todos que tiveram uma aceitação gradual das doutrinas da graça, conforme entendida pelos calvinistas, deixaram por último a redenção particular. Foi o meu caso.

A dúvida do Vinícius é a de muito calvinistas sinceros. Aceitam a expiação limitada como decorrência lógica, mas não como uma doutrina extraída da Bíblia a partir dela, apenas.

Por isso não devemos ser apressados (e você não é) em desmerecer o calvinismo daqueles que ainda tem dificuldades com esse ponto.

Agora, focando o seu post, é realmente ilógico aceitar os quatro pontos e não admitir a redenção particular. A explicação do Owen é a minha para a passagem mencionada pelo Vini.

Em Cristo,

Clóvis

Franciney disse...
15 de junho de 2009 14:36

André,

A minha interpretação de I João 2.2 é a mesma sua, que é igual à de Owen, porém tenho uma outra questão que ao meu ver é igual do Vinícius.

(São aqueles cristãos que dizem aceitar os 4 pontos e não conseguem aceitar o ponto redenção particular, e se auto intitulam Calminianos).

Mas como você disse:

“Finalmente, sobre a frase” calvinista de 4 pontos é arminiano inconsistente “, eu creio que é um pouco exagerada. Apesar da incosistência, o” calvinista “de 4 pontos está mais para calvinista do que para arminiano.”

Ainda sendo eles mais próximos do calvinismo, ainda acho inconsistente, pois deturpam a doutrina da expiação limitada que é uma doutrina bíblica.

Que Deus te abençoe, achei muito boa a sua exposição e explicação para o Vini.

Fraternalmente em Cristo,

Franciney.

Lucas da Silva Maria disse...
18 de junho de 2009 09:10

Eu já tinha ouvido muitos comentários sobre isso, mas quem me convenceu do erro da Expiação Ilimitada foi SHAI LINNE, o rapper teológico [ou teólogo lírico como ele gosta de chamar]. Na sua música "Missão Cumprida", ele estabelece argumentos a favor da Expiação Limitada de maneira criativa e séria:

http://docs.google.com/View?id=d5pdgv5_31dqvgm2dm

[me empolguei e traduzi :)]

 

Teologia e Vida © Revolution Two Church theme by Brian Gardner
Converted into Blogger Template by Bloganol and modified by Filipe Melo