segunda-feira, 28 de julho de 2008

Meditação - Salmo 16:11

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Tu me farás ver os caminhos da vida;
na Tua presença há plenitude de alegria,
na Tua destra, delícias perpetuamente. (Salmo 16:11)

Este trecho das Escrituras, que Davi escreveu sob inspiração divina, está em um contexto profético onde o grande assunto é a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, o Santo prometido. Vemos tal fato claramente no versículo anterior, onde se diz que "não deixará a minha alma na morte, nem permitirás que o Teu Santo veja corrupção".

Por isso o versículo 11 nos mostra o próprio Jesus falando, por meio da boca do profeta Davi. E, graças a Deus, tudo o que é dito é perfeitamente aplicável a nós, porque Jesus Cristo é o nosso representante, estamos unidos a Ele por um laço indissolúvel de amor e tudo o que se aplica a Ele, o Cabeça, também se aplica a nós, o Seu corpo. (Jo 17:22-24, Ef 1:3,23)

Tendo estabelecido esta verdade, analisemos cada trecho desta declaração profética, à luz da Pessoa e obra do Senhor Jesus e aplicando tais verdades em nossas vidas. Primeiramente, o Messias prediz que "Tu me farás ver os caminhos da vida", e como tal profecia foi cumprida de modo grande e tremendo, na ressurreição gloriosa de Cristo! O Filho do Deus vivo, encarnado e vivendo entre nós suportou a cruz, provou a morte, desceu ao sepulcro, porém a morte não poderia jamais prevalecer sobre o Autor da Vida. Ele ressuscitou triunfante, "rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível que fosse retido por ela" (At 2:24). Ao ressuscitar, Jesus estava demonstrando para todo o universo que a obra do calvário foi aceita pelo Pai, o sacrifício perfeito foi oferecido, aplacando a ira de Deus e assegurando a salvação de milhões de pessoas, de todos os lugares do mundo, de todas as épocas.

E a grande boa nova dessa verdade é que estamos unidos a Ele em sua ressurreição! Assim como Ele ressuscitou dentre os mortos, Paulo nos mostra que "estando nós mortos em nossos delitos, [Deus] nos deu vida juntamente com Cristo - pela graça sois salvos - e, juntamente com Ele, nos ressuscitou (...)" (Ef. 2:5-6). Todos nós, quando estávamos sem Cristo estávamos completamente mortos espiritualmente por causa de nossos pecados, jazíamos nas trevas e não havia qualquer esperança de ajudarmos a nós mesmos, porém Deus fez este milagre: assim como Ele levantou Cristo de entre os mortos, Ele nos levantou de nossa morte para a vida espiritual, e nos fez participantes da vida de Seu Filho. Repare como Paulo frisa a expressão "juntamente com Ele"! Essa obra é maravilhosa e estupenda, porque é totalmente obra da soberana graça de Deus: estávamos mortos, já estávamos fedendo e o túmulo estava lacrado, nada poderíamos fazer, mas Ele fez tudo, o que é impossível aos homens é possível para Deus!

O segundo trecho desta profecia diz que "na Tua presença há plenitude de alegria". Há um texto de Hebreus que lança luz sobre essa afirmação, o qual diz que Jesus, "em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia" (Hb 12:2). Em compensação a todo o sofrimento e martírio que o Salvador experimentou, havia uma alegria indizível e gloriosa reservada para Ele. Esta alegria tem sido desfrutada por Jesus hoje e será por toda a eternidade: o gozo de estar ao lado do Pai, e glorificá-lo na completa restauração do Seu povo! O maior gozo de Jesus é glorificar a Deus mediante a nossa salvação! Sim, os céus entram em festa quando um pecador se arrepende, e como o coração do nosso Amado pula de alegria quando os pecadores são reconciliados com Deus! E naquela grande dia, em que "seremos conformados à imagem de Cristo, a fim de que Ele seja o primogênito dentre muitos irmãos" (Rm 8:30), se cumprirá a palavra que diz: "O Senhor, Teu Deus (...) se deleitará em ti com alegria, renovar-te-á no Seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo." (Sf 3:17).

E, à semelhança da ressurreição de Cristo, também estamos unidos a Ele em sua alegria. Observe a oração Dele em João 17:13: "Mas, agora, vou para junto de Ti, e isto falo no mundo para que eles tenham a minha alegria completa em si mesmos". A alegria de Jesus completa, plena, superabundante, em nós mesmos! Deus deseja a nossa alegria, meus irmãos, Ele está muito interessado em que participemos da alegria de Seu Filho! E como temos motivos para nos alegrar com alegria "inefável e gloriosa"! Cada dádiva do Evangelho desperta um brado de louvor de nosso coração: fomos escolhidos antes da fundação do mundo, chamados para vivermos com Ele, temos sido santificados e sustentados pela Sua mão poderosa todos os dias, temos grandes e preciosas promessas, e mais do que tudo isso, desfrutamos do amor eterno de Deus, amor que nasceu antes da fundação do mundo e permanecerá para sempre! As tribulações, angústias, sofrimentos e decepções da vida não devem abalar nossa alegria no Senhor, porque ainda que o universo desmorone ao redor de nós, "o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: o Senhor conhece os que são seus" (2 Tm 2:19). Que se levantem contra a Igreja todas as hostes espirituais da maldade, todo o inferno e seu poderio, jamais poderão nos derrotar e minar nossa alegria no Salvador, afinal "quem nos separará do amor de Cristo" (Rm 8:35)?

Por fim, o texto diz: "na Tua destra, delícias perpetuamente". Jesus sabe muito bem quais são as delícias da destra de Deus, afinal Ele está assentado à Sua direita, "acima de todo principado, potestade, poder, domínio, e de todo nome que se possa referir, não só neste século, mas também no vindouro" (Ef 1:21). Também é dito que "Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome" (Fl 2:9). As delícias da comunhão eterna com Deus são indescritíveis e jamais poderemos compreender completamente nessa vida, e é isto que Jesus experimenta.

Contudo, há mais uma boa nova para nós, Seu povo. Assim como Jesus está a destra do Pai e vive em constante e perfeita comunhão com Ele, nós também, naquele grandia dia, passaremos a gozar deste privilégio tremendo! Já temos um antegozo hoje: porém, a consumação desta alegria virá na eternidade, quando estaremos para sempre com o Senhor! "Veremos o Seu rosto, e em nossa testa estará escrito o Seu nome" (Ap 22:14). Passaremos toda a eternidade contemplando a beleza de nosso Deus, jamais nos cansaremos de dar-Lhe glória e louvor, e "Aquele que se assenta no trono nos cobrirá com Sua sombra" (Ap 7:15). Delícias, delícias celestiais, oh que venha logo este dia, queremos provar da plenitude das delícias da destra de Deus! O mundo não nos satisfaz, os prazeres do mundo perdem todo brilho quando comparados com o prazer de ver a face do nosso Amor Maior, Tesouro Supremo, o nosso Deus!

Concluindo, meus irmãos amados, todas essas bençãos maravilhosas dizem respeito a nós, por meio de Jesus Cristo. Assim sendo, vivamos de modo digno de nosso chamado, vivamos à luz dessas verdades gloriosas, de que recebemos vida com Cristo, podemos partilhar de Sua alegria, e de que viveremos para sempre com o Senhor!

E quanto a você, querido leitor, que não está em Cristo, que nunca provou dessas bençãos que mencionamos, entenda que todas elas estão disponíveis em Jesus! Abandone os prazeres do pecado, e venha provar das delícias de Deus, pois somente Ele pode satisfazer a sua alma cansada e sobrecarregada! Venha, despojado de toda justiça própria, de todo argumento, de toda restrição, venha e se lance nos braços do Salvador e Ele certamente receberá você e o guiará pelo caminho da vida!

Que a graça e a paz do Senhor seja sobre todos os leitores!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Passagens Distorcidas em Favor da Perda da Salvação (Parte 2)

4 comentários

Parte: [1] [2]

O e-mail abaixo é a continuação de um e-mail enviado por mim ao irmão Ricardo Andrei Ferran, sobre algumas passagens utilizadas para defender que a salvação pode ser perdida. Para ler o primeiro e-mail, clique aqui.


De: André Aloísio Oliveira da Silva
Para: Ricardo Andrei Ferran
Data: 25/07/2008

Olá irmão Ricardo, graça e paz!

Como prometido, estou escrevendo este e-mail para comentar as demais passagens enviadas por você em seu primeiro e-mail. Este e-mail é uma continuação do anterior e por esse motivo não desenvolverei novamente os pensamentos expostos anteriormente. Antes de ler este e-mail, portanto, seria interessante reler o primeiro, para ter todas as idéias bem frescas na mente, o que facilitará a compreensão dos próximos textos e comentários.

Neste e-mail, com a graça de Deus, comentarei as passagens de Hebreus 2.1-3, 3.12-14 e I João 1.5-7. Que Deus, pelo Seu Espírito, nos ilumine e nos guie nessa tarefa tão sublime que é a interpretação das Escrituras!

Hebreus 2.1-3: "Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos. Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;"

As passagens de Hebreus que são distorcidas em favor da perda da salvação são as mais complicadas de toda a Escritura. A linguagem utilizada pelo autor dessa carta pode confundir o leitor menos atento. Portanto, analisemos tais passagens com atenção.

Um conhecimento dos motivos que levaram o autor da carta aos Hebreus a escrevê-la pode nos ajudar na compreensão dessa e de outras passagens. Muitos cristãos hebreus estavam abandonando a fé cristã e voltando às antigas cerimônias do Antigo Testamento, trocando a salvação pela graça por uma salvação pelas obras da lei. O autor, então, escreve a esses cristãos, demonstrando a superioridade de Cristo e da Nova Aliança em relação às personagens e cerimônias da Antiga Aliança, e fazendo freqüentes exortações para que permaneçam firmes nas verdades cristãs e não as abandonem, como muitos estavam fazendo.

Nessa passagem o autor fala sobre a importância de se apegar com firmeza às verdades ouvidas, para jamais se desviar delas, e sobre o perigo de negligenciar tão grande salvação. O autor fala incluindo-se em ambas atitudes, tanto a de se desviar das verdades ouvidas ("para que delas jamais nos desviemos"), quanto a de se negligenciar essa grande salvação ("como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?").

Esse tipo de linguagem confunde muita gente. Estaria o autor de Hebreus reconhecendo a possibilidade dos cristãos hebreus e dele próprio perderem a salvação? Não. Analisemos o texto sem idéias pré-concebidas. Em nenhum momento no texto é falado sobre perder a salvação, apenas sobre se desviar das verdades ouvidas e negligenciar a salvação. O objetivo do autor é mostrar o perigo dessas atitudes tomadas por alguns hebreus que se chamavam cristãos, atitudes que nem ele e nem seus leitores deveriam tomar. Ele não se preocupa em discorrer sobre a situação espiritual anterior daqueles que se desviaram ou se desviarão, se foram salvos algum dia ou não. O importante no texto não é o passado dos desviados, mas o futuro: eles não escaparão por terem negligenciado tão grande salvação.

Alguém poderia perguntar: ao falar sobre desviar-se das verdades ouvidas, o autor da carta não reconhece que quem se desvia era salvo? A resposta é negativa, porque um incrédulo pode se encaixar perfeitamente nessa descrição. O autor é bastante cuidadoso ao falar sobre as "verdades ouvidas". Alguém pode ouvir o evangelho e simplesmente não receber a mensagem. Ouvir o evangelho não é suficiente para que alguém seja salvo, pois o evangelho precisa ser recebido pela fé. Portanto, se um dos leitores se desviasse das verdades ouvidas, isso não implicaria que ele foi um salvo e perdeu a salvação, porque quem ouviu não necessariamente creu.

Concluindo este pequeno comentário, essa passagem não fala nada sobre perda da salvação. Devemos sempre tomar muito cuidado para não nos dirigirmos ao texto com idéias prontas e assim atribuir-lhe coisas que ele não diz.

Hebreus 3.12-14: "Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos."

Nesse texto, nos versículos 12 e 13, o autor se dirige aos seus leitores como irmãos, falando sobre o perigo de que houvesse em algum deles perverso coração de incredulidade que os afastasse do Deus vivo, e sobre a importância das exortações mútuas para que ninguém fosse endurecido pelo engano do pecado. A linguagem utilizada pelo autor é forte e novamente pode trazer dúvidas numa leitura superficial.

Um primeiro problema é o fato do autor da carta chamar seus leitores de irmãos e reconhecer que eles poderiam se afastar do Deus vivo, significando aparentemente que um salvo pode perder a salvação. Mas devemos atentar para um detalhe: o autor não sabia quais dos seus leitores eram salvos e quais não. Assim como nós, ele considerava como irmãos todos aqueles que viviam exteriormente como cristãos, pois ele não conhecia o coração de nenhum deles, de modo a saber com absoluta certeza quais deles eram salvos verdadeiramente. Portanto, ele chama todos os seus leitores de irmãos. Tendo em mente tudo o que vimos no e-mail anterior, podemos concluir que o fato de existir em algum dos seus leitores um "perverso coração de incredulidade" não seria uma prova de que um salvo perdeu a salvação, apenas uma indicação de que entre aqueles "irmãos" existiam não-salvos.

Outro aparente problema é a idéia de ser "afastado do Deus vivo". Alguém poderia argumentar que só pode ser afastado quem está perto. Portanto, quem foi afastado do Deus vivo por um perverso coração de incredulidade estava salvo. Mas devemos nos lembrar dos ramos infrutíferos de João 15, que analisamos no e-mail anterior. Eles estavam aparentemente ligados à videira, no entanto, não produziam fruto, o que demonstrava que sua ligação era apenas aparente. Eles estavam muito próximos à videira, mas não havia uma ligação real. Por tal motivo, eles seriam cortados e lançados ao fogo. A situação é muito semelhante nessa passagem de Hebreus. Os leitores poderiam ser afastados do Deus vivo, o que indicaria que eles estavam próximos de certo modo, mas não necessariamente num sentido salvífico. Por isso, a idéia de ser "afastado do Deus vivo" se aplicaria apropriadamente a um cristão nominal.

Outro ponto a ser observado são as exortações mútuas que os leitores deveriam fazer, para não serem endurecidos pelo engano do pecado. Mais uma vez, isso não é uma prova a favor da perda da salvação, apenas uma indicação de que a doutrina da perseverança dos santos não anula nossa responsabilidade de perseverar, como também já vimos no primeiro e-mail: "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fp. 2.12-13).

No versículo 14 o autor faz uma afirmação e depois coloca uma condição, de forma muito semelhante ao que Paulo fez em Colossenses 1.13, passagem já vista por nós no e-mail anterior. O autor afirma que ele e seus leitores tem se tornado participantes de Cristo, apenas se guardarem firme até o fim a confiança que tiveram desde o princípio. A perseverança até o fim é novamente apresentada como uma prova de que alguém é salvo. Ela é vista como conseqüência, e não causa, da salvação. Se o autor desejasse apresentar essa condição como causa da salvação, poderia ter colocado sua afirmação no futuro, da seguinte maneira: "porque nos tornaremos participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos". Mas não é isso o que ele faz. Ao afirmar que a participação que eles têm de Cristo é presente, a perseverança até o fim que ele coloca como condição torna-se uma consequência que evidencia a realidade dessa participação presente.

Há outro versículo muito semelhante ao 14 nesse mesmo capítulo, onde o autor faz outra afirmação condicional, mais uma vez apresentando a perseverança final como consequência da salvação: "Cristo, porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança" (Hb.3.6). Nós somos a casa de Cristo no presente apenas se guardarmos firme, até o fim, a ousadia e exultação da esperança. Do contrário, a conclusão é que nunca fomos a casa de Cristo.

Além dessas duas passagens de Hebreus comentadas por mim, há outras duas muito mais complicadas: Hebreus 6.4-6, que fala sobre a queda dos iluminados, e Hebreus 10.26-31, que trata do juízo divino contra aqueles que vivem deliberadamente em pecado. Eu fiquei bastante surpreso por você não ter pedido explicação dessas duas passagens. De qualquer modo, se tiver dúvidas quanto a elas, recomendo a leitura dos seguintes artigos: A Queda dos Iluminados de Hebreus 6:4-6 (Moisés Bezerril), Hebreus 6:4-6 e a Possibilidade de Apostasia (Sam Storms) e Hebreus 10:26-31 e a Possibilidade de Apostasia (Sam Storms). Recomendo também a leitura de toda a carta aos Hebreus, se possível mais de uma vez, para você compreender melhor todo o conteúdo dela e o contexto geral no qual estão inseridas essas complicadas passagens.

1 João 1.5-7: "Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado."

Aqui, nos versículos 5 e 6, o apóstolo João demonstra que, pelo fato de Deus ser luz, não havendo n'Ele treva nenhuma, é uma mentira afirmar que mantemos comunhão com Ele se andarmos nas trevas. João explica porque isso é mentira no capítulo 3 dessa mesma carta: "Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu [...] Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus." (vs .6 e 9).

É impossível que aquele que permanece em Cristo viva em pecado. Assim como os ramos de João 15 que permanecem na videira produzem fruto, aquele que permanece em Cristo vive em justiça e santidade, não em pecado. Aquele que nasceu de Deus não pode viver em pecado porque n'Ele há o que João chama de "a divina semente". Se alguém vive em pecado, isso é uma prova de que ele nunca viu a Cristo, nem o conheceu (I Jo.3.6) e, portanto, também não é conhecido por Cristo: "nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade" (Mt.7.23).

No versículo 7 João continua, mostrando que se andarmos na luz, e não nas trevas, mantemos comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado. O que mais chama atenção nesse versículo é essa purificação do pecado pelo sangue de Jesus, e isso por alguns motivos. Primeiro, porque João reconhece que aquele que anda na luz ainda tem pecados, mesmo tendo dito no capítulo 3 que quem permanece em Cristo não vive em pecado. Segundo, porque João condiciona essa purificação dos pecados ao andar na luz, o que leva certas pessoas a pensar que nossa salvação depende de algo que fazemos. Analisemos essas duas coisas separadamente.

Primeiro, mesmo aquele que anda na luz ainda tem pecados. Na continuação da passagem, nos versículos 8 e 10, João reconhece: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós [...] Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós". Por isso, devemos entender "praticar pecado" e "viver em pecado" como duas coisas diferentes. O cristão ainda pratica o pecado, mas não vive mais nele. O pecado na vida do cristão é a exceção, e não a regra, ao contrário do que acontece na vida do ímpio.

Segundo, somos purificados de todos esses pecados que ainda praticamos pelo sangue de Jesus quando andamos na luz. Para compreendermos perfeitamente isso, precisamos entender o que é essa purificação de pecados pelo sangue de Jesus.

Observemos que ela acontece no presente: "o sangue de Jesus nos purifica". Por isso, essa purificação não pode ser sinônimo de justificação ou regeneração, porque para o cristão essas duas coisas aconteceram no passado: "Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus" (I Co.6.11); "pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente" (I Pe.1.23).

Além disso, essa purificação, como o próprio nome diz, é uma transformação moral, e não apenas um ato legal, como a justificação ou o perdão de pecados. No versículo 9 do mesmo capítulo João menciona o perdão de pecados juntamente com essa purificação, indicando que são coisas diferentes, ainda que relacionadas: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça". Se essa purificação não é a justificação, o perdão ou a regeneração, a conclusão a que chegamos é que ela é a própria santificação, um processo que dura toda a vida cristã e é sempre presente. Mesmo que a santificação seja normalmente apresentada como uma obra do Espírito Santo, biblicamente nada nos impede de entendê-la como uma obra de Cristo também, no sentido de que Seu sacrifício, representado na passagem como Seu sangue, é suficiente não apenas para nos livrar da culpa do pecado (perdão), mas também do poder do pecado (santificação).

Entendendo dessa forma, fica fácil interpretar as palavras de João no versículo 7: quando andamos na luz somos santificados pelo sangue de Jesus. Como é impossível que aquele que nasceu de Deus viva em pecado (ou ande nas trevas), obviamente todos que nasceram de Deus vivem em justiça (ou andam na luz). Portanto, todo verdadeiro cristão anda na luz e assim é santificado pelo sangue de Jesus.

Esse versículo lembra bastante a ilustração da videira verdadeira, em João 15, já vista por nós no e-mail anterior. Nessa passagem, Jesus diz: "Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda" (Jo.15.2). Tal passagem faz um paralelo incrível com I João 1.7: se o ramo produzir fruto ele é limpo pelo Pai; se alguém andar na luz ele é purificado pelo sangue de Jesus. Além desse paralelo, João 15.2 ainda mostra a constância desse processo santificador: o ramo produz fruto, é limpo e produz mais fruto ainda; produzindo mais fruto, conseqüentemente ele será limpo novamente, para produzir ainda mais fruto, e isso num processo constante, de força em força (Sl.84.7), de glória em glória (II Co.3.18), até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef.4.13), naquele grande Dia, quando seremos semelhantes a Ele, porque O veremos assim como Ele é (I Jo.3.2)!

Concluindo o comentário de I João 1.5-7, principalmente o versículo 7, percebemos que nada aqui é dito a respeito da perda da salvação. O fato da purificação pelo sangue de Jesus estar condicionada ao "andar na luz" não deve nos preocupar, porque isso apenas demonstra com absoluta certeza como os verdadeiros cristãos estão sendo santificados pelo sangue de Jesus. A santificação é apresentada como uma consequência natural na vida daqueles que um dia foram verdadeiramente justificados por Deus e regenerados pelo Espírito Santo.

Antes de terminar este e-mail, acho interessante fazer alguns comentários gerais sobre tudo o que escrevi até agora, inclusive no primeiro e-mail. Em primeiro lugar, vimos que muitas passagens apresentam a perseverança até o fim como evidência de uma verdadeira salvação. No entanto, isso não significa que é impossível ter certeza da salvação antes do término desta vida. Paulo diz em Romanos 8.16-17: "O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados". Esse testemunho interno do Espírito nos dá certeza, já no presente, de que somos filhos de Deus, estamos salvos e somos herdeiros de todas as coisas maravilhosas que Deus tem preparado para aqueles que O amam (I Co.2.9).

Em segundo lugar, as exortações sobre perseverança que se encontram em várias partes da Bíblia não devem ser vistas como provas de que é possível a um cristão perder a salvação, e sim como indicações de que temos a responsabilidade de perseverar. Mas ainda que isso seja uma responsabilidade nossa, podemos ter certeza que perseveraremos até o fim, porque é Deus quem nos preserva: "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus" (Fp.1.6; cf. Jo.10.27-29; Rm.8.30-39).

Em último lugar, a perseverança até o fim não deve ser considerada um mérito nosso, pelo fato de termos a responsabilidade de perseverar. Como já vimos, é Deus quem nos sustenta e preserva até o fim, sendo a perseverança um dom de Sua graça. Na verdade, nada de bom que temos ou fazemos vem de nós mesmos: "não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus" (II Co.3.5); "Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?" (I Co.4.7). Isso acontece "a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus" (I Co.1.29) e para que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (I Co.1.31), como também Paulo bem expressa em outro lugar: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo" (Gl.6.14). Portanto, proclamemos com Paulo: "Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!" (Rm.11.36).

Bom irmão Ricardo, espero que tudo o que foi dito tenha esclarecido essas passagens a você. Perdoe-me se não fui tão claro como poderia ser, pois confesso que comentei todas essas passagens fazendo minha própria exegese, sem consultar nenhum comentário bíblico. Por isso, talvez eu tenha deixado escapar algum detalhe que poderia ser esclarecido. Se ficou alguma dúvida, fique à vontade para perguntar.

Que Deus continue te abençoando!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

sábado, 19 de julho de 2008

Descansando à Sombra do Todo-Poderoso

5 comentários

Este artigo foi escrito por Lucas de Lima Gualda em setembro de 2003, para o Jornal O Caminho, um jornal evangelístico e discipulador, idealizado por André Aloísio e publicado de outubro de 2002 à novembro de 2003.

"Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel. Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios. Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra. Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente. Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação." (Salmo 91)

Vivemos numa época de medo e insegurança. O desemprego, a violência das grandes cidades, os problemas econômicos, a ameaça de futuros problemas ecológicos, o medo de futuras guerras e a situação moral da sociedade moderna têm contribuído para a angústia das pessoas. Temos medo daquilo que poderá acontecer nos próximos anos, nas próximas décadas.

Mas o Salmo 91 mostra a segurança e o descanso daquele que confia e que se refugia no SENHOR, o Deus Onipotente. Não podemos negar a nossa realidade, os problemas da humanidade e os nossos próprios problemas, mas aquele que confia no SENHOR tem a certeza de que ele o livrará de todos os perigos.

Este Salmo precisa ser vivido por nós. Muitos podem usá-lo como um amuleto, tendo na sala de sua casa uma bela Bíblia aberta na página em que se encontra este Salmo, mas não é isto o que nos livrará dos males. Precisamos viver o que fala o Salmo 91. O SENHOR diz neste Salmo que livrará aquele que se apegou a ele com amor, e salvará aquele que conhece o seu nome. Jesus, em sua oração sacerdotal, disse: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (João 17:3). Este conhecimento não é teórico, abstrato, mas é prático. Mas como sabermos se possuímos este conhecimento? O apóstolo João responde: "E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos" (I João 2:3).

Se quisermos, portanto, nos apropriar das bênçãos prometidas neste maravilhoso Salmo, é necessário que conheçamos a Deus. Você já conhece a Deus?

Nenhum mal acontecerá a nós. Ainda que a morte nos atinja, não será um mal que nos ocorreu. Para os salvos, a morte é a vitória, o fim das dificuldades deste século, o descanso e a esperança da ressurreição e da vida eterna.

Nada é mal para os que confiam no SENHOR, para os que descansam à sombra do Deus Todo-Poderoso. Você estará seguro onde quer que esteja. Não importa se estiver numa cidade violenta ou numa rodovia movimentada; o SENHOR o protegerá. É claro que não o tentaremos, nos expondo ao perigo e exigindo dele o livramento e a proteção (cf. Deuteronômio 6:16; Mateus 4:7), mas ele pode nos livrar de um mal em meio a uma situação inesperada, a um acidente.

Há, portanto, refúgio e descanso para aquele que conhece este Deus e confia nele. Nada poderá nos abalar ou amedrontar, pois o SENHOR é o nosso refúgio.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Passagens Distorcidas em Favor da Perda da Salvação (Parte 1)

3 comentários

Parte: [1] [2]

Os e-mails abaixo foram trocados entre mim e o irmão Ricardo Andrei Ferran, que estava com dúvidas sobre algumas passagens utilizadas para defender que a salvação pode ser perdida. Após a leitura do meu e-mail, assim ele se expressou: "Querido irmão André Aloísio, suas respostas foram ótimas, bem diretas e de fácil assimilação. Pode publicar os e-mails no seu blog para, de uma vez por todas, acabar com as dúvidas que os arminianos* tentam gerar em nós, deixando-nos contra a palavra verdadeira de Cristo!". Para uma explicação detalhada do porquê um salvo não perde a salvação, leia o artigo Certeza da Salvação.

De: Ricardo Andrei Ferran
Para: André Aloísio Oliveira da Silva
Data: 30/06/2008

André, graca e paz!

Tenho algumas dúvidas em relação a alguns versículos que falam de forma condicional em relação à salvação. Por favor, gostaria que você me explicasse o contexto desses versículos que muito os pentecostais mencionam, pois não tenho uma total compreensão destes textos. Os versículos seguem abaixo:

"Quem não permanece em mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas, lançadas no fogo e queimadas" (Joao 15.6)

"Se é que permaneceis na fé, fundados e firmes, não vos deixando apartar da esperança do evangelho que ouvistes, e que foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro" (Col 1.23)

"Pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão" (1 Cor 15.2).

"Como escaparemos nós, se descuidarmos de tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram" (Hb 2.3).

"Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se é que guardamos firme até o fim a nossa confiança inicial" (Hb 3.14).

"Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo pecado" (1 Jo 1.7).

Um dos maiores argumentos apresentados em favor da perda da salvação é freqüentemente mencionado com esses versículos condicionais e outros. Como refutar essas indagações feita pelos pentecostais?

No aguardo em Cristo Jesus,

O principal dos pecadores (I Tm.1.15).

Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo Gloria!Somente a Graça, Somente a Fé, Somente a Escritura, Somente Cristo, Somente a Deus Seja a Glória!

Ricardo Andrei

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De: André Aloísio Oliveira da Silva
Para: Ricardo Andrei Ferran
Data: 06/07/2008

Olá meu irmão Ricardo Andrei Ferran!

Graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo!

Você apresentou algumas passagens usadas por pentecostais - mais especificamente arminianos - que supostamente ensinariam a possibilidade de um crente perder a salvação. Pretendo comentar cada uma dessas passagens e mostrar como elas não contradizem a doutrina da perseverança dos santos, segundo a qual todos os que foram salvos perseverarão como salvos até o fim. Há outras passagens utilizadas pelos arminianos com o mesmo propósito, mas me concentrarei apenas nas passagens colocadas pelo irmão.

Minha intenção original era escrever um único e-mail para comentar todas essas passagens. No entanto, eu estive bastante ocupado nos últimos dias e consegui comentar apenas algumas delas. Por isso, decidi te enviar o que escrevi até agora, para que o irmão não fique esperando muito tempo e já tenha alguma coisa em mãos. Estarei te enviando outro e-mail assim que terminar de comentar as demais passagens. Neste e-mail comentarei João 15.1-6, I Coríntios 15.1-2 e Colossenses 1.21-23.

Antes de mais nada, porém, é importante lembrarmos que a Bíblia, como Palavra de Deus, é uma unidade coerente e harmoniosa. Não é possível que uma passagem das Escrituras, inspirada por Deus, contradiga outra passagem, escrita pelo mesmo Deus. Se a Bíblia nos ensina que um verdadeiro salvo não pode perder sua salvação (Jo.6.47; 10.27-29; Rm. 5.6-11; 8.1,30-39; Fp.1.6; etc), então é impossível que alguma passagem bíblica afirme que a salvação pode ser perdida.

Com isso em mente, analisemos as passagens apresentadas pelo irmão:

João 15.1-6: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam."

Nessa passagem Jesus utiliza uma das ilustrações mais lindas da Bíblia para expressar o Seu relacionamento com o cristão. Ele é a videira verdadeira e o Pai é o agricultor. Existem dois tipos de ramos: aqueles que não produzem fruto e aqueles que o produzem (v.2). Cada tipo de ramo recebe uma espécie de destino: os infrutíferos são cortados (v.2), lançados fora, secam e finalmente são lançados no fogo, onde queimam (v.6); os frutíferos são limpos pelo Pai, a fim de que frutifiquem mais ainda (v.2). A razão pela qual alguns ramos não frutificam é que os tais não permanecem na videira (v.4). Já os ramos que frutificam o fazem porque permanecem (v.5).

Tendo feito essa pequena análise textual, vejamos qual o argumento dos arminianos em favor da possibilidade de um cristão perder a salvação. Segundo eles, os ramos infrutíferos são cristãos verdadeiros, que foram verdadeiramente salvos, mas que, por não produzirem fruto em sua vida cristã, acabam perdendo a salvação. Eles entendem tais ramos como cristãos porque Jesus diz que esses ramos estão na videira (v.2). No entanto, se analisarmos outras passagens bíblicas veremos que essa interpretação é bastante precipitada.

Jesus usou uma ilustração bastante semelhante em Mateus 7:16-20: "Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis".

Na passagem acima Jesus ensina que nós conhecemos um falso profeta - e obviamente, qualquer pessoa - pelos seus frutos. Ele ensina que não é o fruto que faz a árvore. Muito pelo contrário, é a árvore que faz o fruto. A natureza da árvore determina o tipo de fruto. Árvores boas produzem bons frutos, árvores más, maus frutos. Não existe a mínima possibilidade de que uma árvore boa produza frutos maus, e vice-versa. Aplicando isso às realidades espirituais, um verdadeiro cristão, verdadeiramente salvo, que recebeu uma nova natureza e tem uma verdadeira fé, pratica boas obras automática e naturalmente (Tg.2.17,26). Pelo contrário, aquele que não foi verdadeiramente salvo não pode praticar boas obras, ainda que tenha uma fé e cristianismo de aparência.

Na ilustração de João 15, Jesus desenvolve o mesmo pensamento. Apenas os ramos que permanecem na videira dão fruto. Os demais, que não permanecem, não frutificam. Não é necessário um grande conhecimento de agricultura ou botânica para entender o porquê disso. Para que um ramo frutifique é necessário que ele esteja de tal modo ligado ao tronco que a seiva da árvore passe através dele. Se algum ramo não frutifica, isso significa que não há seiva percorrendo-o. Ainda que ele esteja aparentemente ligado à árvore, essa ligação é apenas externa. Ele parece estar vivo, mas está morto (Ap.3.1).

Assim, podemos interpretar os ramos frutíferos como cristãos verdadeiros, que tem um relacionamento real com Cristo, e os infrutíferos como cristãos nominais, que dizem "Senhor, Senhor" e muitas vezes fazem até sinais e prodígios em Seu nome, mas não praticam Sua vontade (Mt.7.21-23). O fato de Jesus dizer que esses ramos infrutíferos estão n'Ele (v.2) não deve nos incomodar, pois é uma ligação apenas externa e aparente, como foi dito acima. Além do mais, no original grego, o "em mim" desse versículo pode referir-se ao "dá frutos", ficando o versículo dessa forma: "todo o ramo que não der fruto em mim, ele o corta".

Mas ainda existe um aparente problema: Jesus afirma que quem não permanece n'Ele é lançado fora (v.6). Tendo em vista isso, não é possível que um ramo que já esteve verdadeiramente ligado à videira deixe de estar? Não é possível que um cristão verdadeiro torne-se um cristão nominal? Não, e devemos tomar cuidado com a sutileza da palavra "permanece" na versão Almeida Revista e Atualizada (ARA). Ela nos dá a leve impressão de que os ramos que não permanecem já estiveram ligados à videira verdadeira algum dia. Mas essa é uma interpretação incorreta. O sentido das palavras de Jesus talvez fique mais claro na versão Almeida Corrigida e Fiel (ACF): "Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem". O verbo grego "μεινη" (estiver, permanecer) usado por Jesus nessa passagem não insinua nem de leve que os que não estão n'Ele já estiveram algum dia.

Há outro ponto nessa ilustração que pode gerar dúvidas: Jesus exorta os discípulos a que permaneçam n'Ele (v.4). Alguém pode pensar que, por esse motivo, permanecer em Cristo depende do próprio discípulo, não de Deus e, portanto, se o discípulo não permanecer, será cortado. Mas devemos tomar cuidado para não confundir as coisas. A doutrina da perseverança dos santos não nega que o cristão tem a responsabilidade de permanecer em Cristo, buscar a santidade e viver uma vida cristã frutífera e abundante. No entanto, ela afirma que o discípulo só pode permanecer porque é Deus quem o sustenta durante toda sua jornada cristã.

Essas duas verdades aparecem juntas em Filipenses 2.12-13: "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade". Ainda que nós tenhamos a responsabilidade de desenvolver nossa salvação - ou seja, santificar-nos - isso só é possível porque é Deus quem opera em nós o querer (vontade) e o realizar (poder). Como o próprio Jesus afirma na ilustração de João 15: "sem mim nada podeis fazer" (v.5). Essa obra divina não irá parar em nós, pelo contrário, "aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus" (Fp.1.6). Por isso, a exortação de Jesus a que permaneçamos n'Ele (v.4) não implica possibilidade de perder a salvação. Temos a responsabilidade de permanecer em Cristo, sabendo que o próprio Deus é quem nos sustenta, e nos sustentará até o fim.

Terminando o comentário sobre essa passagem, observemos que a maior prova de que alguém é um verdadeiro salvo é sua perseverança até o fim. Falando sobre pessoas que não permaneceram no Caminho, o apóstolo João disse: "Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos" (I Jo.2.19). Os ramos infrutíferos que não permaneceram na videira verdadeira nunca estiveram ligados verdadeiramente a ela, pois se estivessem, teriam permanecido até o fim. Se algum suposto cristão abandona o Caminho para nunca mais voltar, essa é uma clara evidência de que ele nunca foi um verdadeiro salvo.

Se tudo isso foi entendido corretamente, as demais passagens mencionadas pelo irmão serão claramente compreendidas. Vejamos:

I Coríntios 15.1-2: "Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão."

Nessa passagem Paulo afirma que os coríntios estão salvos pelo evangelho apenas se eles conservarem a palavra anunciada por ele. Ele explica que palavra é essa nos versículos 3 e 4: "Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras". Essa é a palavra que deveria ser retida ou conservada pelos coríntios, do contrário, a fé deles seria vã (v.2). Obviamente alguém que não creia e retenha essa palavra, que é o próprio evangelho, não pode estar salvo. Tal pessoa só está verdadeiramente salva se perseverar nessa mensagem até o fim. Aqui vale o mesmo que já dissemos acima sobre perseverança. A perseverança é conseqüência, e não causa, da salvação. Quem é salvo persevera, e ele o faz porque é Deus quem o sustenta.

Colossenses 1.21-23: "E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis, se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro."

Nessa passagem, nos versículos 21 e 22, Paulo fala aos colossenses que eles foram reconciliados através da morte de Cristo. No entanto, no versículo 23 ele coloca uma condição. Isso só seria verdade a respeito deles se permanecessem na fé, sem se afastar da esperança do evangelho. Essa passagem é semelhante às anteriores. Paulo apresenta a perseverança até o fim como evidência de uma salvação verdadeira. Se alguém não permanecer na fé, o tal nunca foi verdadeiramente reconciliado com Deus por meio de Cristo.

A exortação de Paulo a que eles não se afastem da esperança do evangelho não nos deve assustar. Ela é semelhante à exortação de Jesus a que os discípulos permaneçam n'Ele, em João 15.4. Tais exortações, como vimos, não provam que é possível perder a salvação, apenas que os que foram salvos têm a responsabilidade de permanecerem firmes até o fim. Se alguém se afasta da esperança do evangelho, o tal nunca esteve verdadeiramente salvo, assim como os ramos que não permanecem na videira verdadeira e são cortados nunca estiveram verdadeiramente ligados a ela.

Espero ter sido claro em tudo o que comentei até agora. Se ficou alguma dúvida, por favor, pergunte. Assim que eu terminar o próximo e-mail, com as demais passagens comentadas, te envio.

Que Deus te abençoe grandemente!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

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Glossário:

* Arminiano: Seguidor do Arminianismo, um sistema teológico baseado nas idéias do teólogo Jacobus Arminius (1560-1609), em português, Jacó Armínio. Armínio defendia que a salvação do homem depende da cooperação entre o homem e Deus, sendo o livre-arbítrio humano o fator determinante na salvação.
 

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