quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A soberania de Deus sobre os ímpios, segundo Calvino

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Quando não entendemos como Deus quer que se faça aquilo que proíbe fazer, lembremo-nos de nossa fraqueza e, ao mesmo tempo, consideremos que não é em vão que a luz em que habita é chamada de inacessível, pois está oculta nas trevas [I Tm.6.16]. Portanto, com facilidade concordarão com a sentenção de Agostinho todos os homens devotos e moderados: algumas vezes o homem, com boa vontade, quer algo que Deus não quis, como quando o bom filho quer o pai vivo e Deus o quer morto. Ao contrário, pode acontecer que o homem queira com vontade má o mesmo que Deus quis com vontade boa, como quando o mau filho quer o pai morto e Deus também o quer. Seguramente o primeiro filho quis algo que Deus não quis, e o outro verdadeiramente quis aquilo que Deus quis. Entretanto, a piedade daquele está mais em harmonia com a vontade boa de Deus, mesmo ao querer outra coisa, do que a impiedade deste, ao querer o mesmo. O que importa, para haver aprovação ou desaprovação, é o que concorda com Deus e o que quer o homem, segundo o fim para o qual a vontade de cada qual é dirigida. Assim, o bem que Deus quis, executou-o pela vontade má do homem mau. Aliás, um pouco antes, Agostinho dissera que, com suas revoltas, os anjos apóstatas e todos os réprobos, no que diz respeito a eles, fizeram o que Deus não queria, mas quanto à onipotência de Deus, de modo algum poderiam fazê-lo, pois que obrando contra a vontade de Deus, não puderam impedir a vontade de Deus referente a eles. Por isso se exclama: "Grandes são as obras do Senhor; consideradas por todos os que nelas têm prazer" [Sl.111.2], e de modo admirável é inexplicável o mesmo que se faz contra a sua vontade, não se faz sem seu consentimento; porque não seria feito se Ele não o permitisse, nem Ele permite sem o querer, mas querendo. Nem Ele, bom, permitiria que fosse feito o mal, se o Onipotente também não pudesse fazer do mal um bem [...]

Se não me engano, expliquei claramente de que modo, na mesma obra, tanto manifeste o crime do homem como brilhe a justiça de Deus. Para as inteligências comedidas, sempre bastará a resposta de Agostinho: "Se o Pai tenha entregue o Filho, e Cristo seu corpo, e Judas seu Senhor, por que nessa entrega o coração de Deus é justo e o homem é réu, senão porque fizeram um mesmo ato, mas a causa pela qual fizeram não é a mesma?" [Epístola a Vicêncio]. Mas, se a alguns constrange o que agora dizemos, que nenhum consenso existente entre o homem e Deus, quando Este, com justo impulso, daquele faz aquilo que não é permitido para si, que se socorram do que o mesmo Agostinho adverte em outro lugar: "Quem não teme estes juízos com que Deus age, mesmo no coração dos maus, sempre que quer, concedendo-lhes contudo segundo seus méritos?" [Sobre a graça e o livre-arbítrio]. E certamente, na traição de Judas, atribuir a culpa pelo crime a Deus, porque Ele quis que fosse entregue o seu Filho e o entregou à morte, em nada será mais lícito do que transferir para Judas a glória da redenção. E assim, em outra passagem, o mesmo escritor adverte: "neste exame Deus não pergunta o que os homens tenham podido, ou o que tenham feito, mas o que tenham querido fazer", para que sejam julgadas a deliberação e a vontade.

Bibliografia: A Instituição da Religião Cristã, João Calvino, livro I, capítulo XVIII, Editora Unesp

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