segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Minha Jornada ao Calvinismo

10 comentários


Assim como fez o irmão Clóvis, do Cinco Solas, no artigo Como "me reformei", decidi também contar como se deu minha jornada ao calvinismo.

Eu nasci em lar evangélico e frequentei desde pequeno a Igreja do Evangelho Quadrangular do Jardim dos Oliveiras, em Campinas-SP. No entanto, minha conversão só ocorreu em fevereiro/março de 2001, quando eu tinha quatorze anos de idade. Fui batizado alguns meses depois, dia 15 de novembro de 2001, e participei da Ceia do Senhor pela primeira vez no mesmo ano, dia 2 de dezembro.

Desde quando me converti passei a ler e estudar a Bíblia diariamente. Iniciei uma leitura completa da Bíblia em abril de 2001, terminando em janeiro de 2002. Passei a ler vários livros evangélicos do meu pai e comecei a ler estudos bíblicos na internet, em sua maioria neopentecostais e dispensacionalistas, sendo muito influenciado inicialmente por essas teologias.

Meu primeiro contato com a teologia reformada aconteceu pouco tempo após minha conversão, depois de um fato curioso. Certo dia, em 2001, um amigo católico me disse que o fundador do movimento protestante, chamado Martinho Lutero, ensinava que os cristãos poderiam viver da forma como quisessem, pois a salvação não dependia das boas obras. Achei isso bastante estranho e comecei a pesquisar a respeito, pois ainda não conhecia Lutero. Encontrei dois sites, Momentos com Jesus e Textos da Reforma, onde havia vários artigos que contavam a história da Reforma Protestante e dos reformadores. Passei a estudar o assunto e comecei a entender a salvação pela graça e a justificação pela fé. Apesar de meu entendimento sobre esses assuntos ser bem limitado na época, já era suficiente para perceber que a afirmação do meu amigo católico sobre Lutero era bastante distorcida e preconceituosa.

Ainda em 2001 conheci um fórum de discussão evangélico na internet, chamado Fórum Evangelho, do qual me tornei membro e que foi um dos grandes responsáveis pelo meu crescimento espiritual. Nesse fórum havia pessoas de todos os tipos: evangélicos das mais diversas linhas teológicas e denominações, membros de seitas e até ateus. Nesse ambiente eu pude conhecer muitas visões e opiniões a respeito de Deus e Sua Palavra, inclusive o arminianismo e o calvinismo.

Desde então reflexões sobre a predestinação e o livre-arbítrio se tornaram muito comuns em minha mente. Durante todo o ano de 2002 eu refleti sobre o assunto tentando resolver o conflito entre as duas correntes teológicas. Isso pode ser percebido através de um excerto do meu diário na época, dia 29/10/2002: "Em relação à Bíblia, me envolvi num grande problema teológico. Refiro-me à predestinação e ao livre-arbítrio, aos cinco pontos do calvinismo e aos cinco pontos do arminianismo. Achei na Bíblia fundamento para as duas linhas de pensamento contraditórias entre si. Isso não significa que a Bíblia seja contraditória, mas que eu não soube interpretar essa doutrina corretamente". Eu tentava resolver esse conflito apelando para a presciência divina, afirmando que Deus predestinava aqueles que Ele previa que O escolheriam. Mas eu não estava satisfeito com essa posição.

O ano de 2003 foi um ano de mudanças teológicas. Depois de muitos estudos abandonei o dispensacionalismo e o neopentecostalismo que exerciam forte influência sobre mim desde a minha conversão. Mas a principal mudança relacionava-se com a salvação e foi bem mais lenta e gradual. No início do ano eu havia lido alguns livros de uma seita chamada New Life Mission, cujo fundador ensinava que o cristão, após ser perdoado e justificado, não devia mais pedir perdão a Deus pelos seus pecados diários. Por causa disso, eu comecei a estudar mais sobre a salvação pela graça e a justificação pela fé, principalmente na visão dos reformadores, para entender melhor o assunto. Com esses estudos eu passei a crer na justificação da mesma forma que os reformadores, como a justiça de Cristo imputada aos pecadores, recebida mediante a fé n'Ele. Essa visão mais clara da justificação me levou a aceitar a perseverança dos santos, segundo a qual aqueles que foram salvos não podem mais perder a salvação. Foi nessa época, em junho, que eu escrevi um artigo chamado A Ira do Senhor, para o Jornal O Caminho, do qual eu era editor, onde eu deixei implícito que a salvação é eterna e não pode ser perdida. Com isso eu dava o primeiro passo em direção ao calvinismo.

Ainda em 2003 aconteceu um debate no Fórum Evangelho chamado Livre-arbítrio: quem defende, quem ataca, iniciado pelo irmão Clóvis. Nesse debate o Clóvis defendia que o homem é de tal modo depravado devido ao pecado original que não pode ser livre para escolher a Deus. Seus argumentos eram tão bíblicos que eu comecei a achar, pela primeira vez na vida, que os calvinistas poderiam estar certos e eu errado. Por esse motivo eu costumo dizer que esse irmão querido é meu pai na fé reformada, pois foi o primeiro que me apresentou o calvinismo de uma forma bastante bíblica e convincente.

Ainda que eu não tivesse reconhecido de pronto que o homem era desprovido de livre-arbítrio, aceitei a depravação total do homem, tentando conciliá-la, não sei de que modo, com o livre-arbítrio. Mas isso não continuou por muito tempo. Logo eu comecei a perceber que, se de fato o homem era tão depravado que não poderia livrar-se do pecado sozinho, não era possível que existisse um livre-arbítrio no homem. Fui tomado por um raciocínio que me perturbava constantemente, registrado no meu diário, dia 17/11/2003:

"O ser humano natural não pode livrar-se por si próprio do pecado. Só Deus pode livrá-lo. A incredulidade é um pecado. Logo, um ser humano natural não pode deixar de ser incrédulo por si próprio. Se não pode deixar de ser incrédulo, também não pode ter fé por si próprio, visto que a fé é o oposto da incredulidade, e para haver fé é necessário que não haja incredulidade. Sendo assim, para que alguém tenha fé, é necessário, antes, que Deus tire o pecado da incredulidade e Ele mesmo conceda fé a essa pessoa. Concluo, assim, que a fé não é uma característica inata do homem, mas um dom de Deus. O problema vem agora: se Deus é quem opera a fé no coração de uma pessoa, haverá, então, um livre-arbítrio para o bem? Pode alguém escolher ou desejar a Deus por si próprio? Eu acreditava que sim. Acreditava que a pessoa que deseja a salvação, escolhe a Deus e, então, Ele concede o dom da fé, para que a pessoa creia e seja salva. Mas esse pensamento é absurdo! Como alguém pode desejar algo em que não crê? Como pode escolher aquilo em que não acredita? Pois, se o livre-arbítrio para as coisas de Deus é exercido antes da fé, deve, então, ser exercido na incredulidade. Por outro lado, se admitirmos que só podemos escolher algo em que cremos (o que é bem mais racional) teremos que admitir que o livre-arbítrio só pode ser exercido se houver fé. Assim, a escolha por Deus só pode acontecer depois da fé ou simultânea a ela. Conclusão lógica: a salvação é fruto do livre-arbítrio de Deus e não do homem, pois o homem natural, incrédulo, não pode escolher a Deus, nem desejá-lo".

A verdade da depravação total estava me levando à doutrina da graça irresistível e, consequentemente, à eleição incondicional, como pode ser percebido no raciocínio acima. Eu tentei de várias formas refutar minha própria argumentação, mas não consegui, pois ela contava com o próprio testemunho bíblico a seu favor. Apresentei esses argumentos para alguns arminianos, mas eles não puderam me ajudar, com sua doutrina da graça preveniente.

Finalmente, em dezembro de 2003, eu entrei para uma lista de e-mails chamada Cristãos Reformados. Nessa lista apresentei meu raciocínio e fui definitivamente convencido da graça irresistível e da eleição incondicional por aqueles irmãos reformados. Logo depois recebi a expiação limitada sem muitas dificuldades, pois para mim ela era uma consequência lógica da eleição incondicional que eu já havia aceitado. Além do mais, assim como todos os demais pontos, ela era solidamente ensinada nas Escrituras. Assim, tornei-me um calvinista oficialmente em janeiro de 2004, aceitando integralmente os chamados Cinco Pontos do Calvinismo.

Após tornar-me um calvinista fiquei por um bom tempo guardando a fé reformada para mim, apenas lendo e estudando o assunto, principalmente no Monergismo, sem fazer nenhum tipo de divulgação. A primeira vez que falei publicamente sobre o assunto foi numa aula para jovens no final de 2004, intitulada "Quem é o Senhor do Destino?", onde falei superficialmente sobre predestinação e livre-arbítrio. Mas eu só passei a ser reconhecido como calvinista após um fato ocorrido no final de 2005. Fui convidado para dar uma aula aos professores e líderes da I.E.Q. Jardim dos Oliveiras, aproveitando a oportunidade para falar sobre depravação total e graça irresistível. Incrivelmente quase todos os irmãos concordaram com minha exposição! No final da aula um dos líderes presentes me questionou se eu era calvinista, o que confessei. Depois desse fato passei a falar abertamente sobre calvinismo e decidi criar um blog para divulgar a fé reformada, principalmente no meio pentecostal. Assim surgiu o blog Teologia e Vida, dia 16 de março de 2006.


Veja também:

Comentários

10 comentários em "Minha Jornada ao Calvinismo"

(-V-) disse...
16 de dezembro de 2008 01:02

Realmente me assusta tamanha precisão nas datas Oo

Célio R. disse...
16 de dezembro de 2008 08:42

RAPAZ TU FEZ UMA PEREGRINAÇÃO COMPLICADA PELO CAMINHO DAS PEDRAS..., MASSA..., ESPANTOSO SEU INTERESSE POR TEOLOGIA TÃO NOVO, DOU AULA A ADOLESCENTES E TENHO TENTADO DESPERTAR ESTE INTERESSE NELES... TE GARANTO QUE É UM POUCO DIFICIL,,, MAS QUANTO MAIS CONFLITO MAIS CONVICÇÃO SE TEM, POR ISSO SEUS TEXTOS SÃO TÃO SOBRIOS.

Clóvis disse...
16 de dezembro de 2008 14:04

André,

Tocante este seu relato. Demonstra que sua peregrinação não foi, nem um deslumbramento momentâneo nem um modismo, mas uma caminhada lenta, mas firme rumo a aceitação da verdade bíblico.

Colocarei um link em meu blog para este seu relato, pois creio que ajudará a muitos que estão no meio do caminho.

Deus seja louvado pela sua vida.

Em Cristo,

Clóvis

Ednaldo disse...
20 de dezembro de 2008 11:23

Vini, "Realmente me assusta tamanha precisão nas datas Oo", o André tem o bom costume de manter um diário.

Roberto Vargas Jr. disse...
18 de agosto de 2009 18:59

Caro André,

Cheguei aqui por indicação do Clóvis. Gostei do seu blog. E achei seu relato interessantíssimo.

Eu vim de um meio e de uma família católicos, mas era um agnóstico ou talvez um deísta. Não sei. Sei é que não dava lá muita bola para o assunto. Mas Deus me chamou, sem que eu tivesse a mínima intenção de encontrá-lo.
Interessante é que, assim que me converti, já tive interesse por teologia. Por minha própria conta, além da Bíblia, claro, li também a Teologia Sistemática de Berkhoff.
Por tudo isso, pela soberana vontade do Senhor que me guiava à fé, já nasci calvinista!

É um tanto difícil para mim entender a mente arminiana e a crise entre predestinação e livre-arbítrio. Nunca houve tal crise para mim. Seu relato me ajuda a entender tudo isso um pouco melhor.

Grande abraço, no amor do Soberano Deus,
Roberto

André Aloísio disse...
18 de agosto de 2009 19:07

Olá irmão Roberto, graça e paz!

Que benção maravilhosa Deus te concedeu, de iniciar a vida cristã no caminho certo!

Como eu descrevo no meu artigo, eu não tive tal regalia, mas dou graças a Deus por ter recebido as doutrinas da graça relativamente cedo na vida cristã, com três anos de conversão.

No entanto, cedo ou tarde, o que importa é que pela graça de Deus nossos olhos foram iluminados para verem essas verdades!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

Internautas Cristãos disse...
14 de junho de 2010 12:04

Muito interessante seu relato. Em muitos pontos se parece com a minha história.

Gostaria da sua autorização para publicar este artigo em nosso site.

Em Cristo,

Tiago Vieira
internautascristaos.com.br

André Aloísio disse...
14 de junho de 2010 12:31

Olá Tiago, graça e paz!

Fique à vontade para publicar este artigo no blog Internautas Cristãos, sob as condições de uso.

Peço apenas que você mantenha os links existentes em todo o corpo do artigo.

Que Deus te abençoe!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (1Tm 1.15)

Roger Willians disse...
24 de maio de 2011 23:21

Fico feliz em ver que desde bem jovem você se interessou por teologia. Sei que a igreja do Senhor Jesus será abençoada ainda muito por tua vida.
Coincidentemente, também me converti aos 14 anos, e também me interessei muito cedo por teologia. Mas, apesar de crescer no meio predominantemente Arminiano, sempre percebi que tal teologia não se encaixava muito com o ensino do apóstolo Paulo. Hoje sou um pastor numa igreja com uma base teológica em Arminio, mas não me importo: Sou calvinista de carteirinha. Este é o ensino bíblico. Fico feliz por ter se afastado do neopentocostalismo e do dispensacionalismo. Sua peregrinação foi madura e consistente.
Gde abraço.

OPS! Studio disse...
23 de junho de 2014 21:13

Lendo o seu artigo e o artigo da mudança da sua Teologia, veja que é justamente o que eu estou passando.

Batizei em uma igreja Bastita (Calvinista), mas na época não me firmei, cai totalmente na lama, até depois de alguns anos se tornar membro de uma Comunidade Pentecostal bem legalista e fechada, cai de cabeça e cortei vários hábitos que eu tinha, cortei música secular, cortei álcool, cortei amizades etc...

Passado 6 anos na igreja notava falta de misericórdia e amor entre os irmãos e para os cristãos de outras denominações.

Devido a uma pregação na qual perguntava o quanto da bíblia você sabia na ponta da língua deparei que não sabia nada, que não conseguia sequer decorar alguns versículos. Ai veio a confusão toda, resolvi fazer teologia e fui fazer em uma faculdade interdenominacional com a teologia reformada e a pentecostal, resultado minha cabeça deu um nó e pendi mais para o lado da teologia reformada.

A quase um ano estou em uma nova denominação a IPB, e a cada dia vou ganhando mais convicção daquilo que acredito, foi muito bom ter lido seus artigos pois só quem passa por toda esses conflitos sabe como é difícil.

 

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