domingo, 5 de outubro de 2008

Agostinho (354-430 d.C.) e a Predestinação

3 comentários

"Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu quem vos escolhi' (Jo.15.16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim mereceram ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: 'Não fostes vós que me escolhestes'.

Não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi', não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo.

Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: 'Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?' (Ef.1.4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi'. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele.

Consequentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, os que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros, justificou os que assim chamou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm.8.30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim.

Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: 'Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?' (Tg.2.5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo.

Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi', terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi'."

Bibliografia: A Graça II (A Predestinação dos Santos), Agostinho de Hipona, Editora Paulus

Comentários

3 comentários em "Agostinho (354-430 d.C.) e a Predestinação"

cincosolas disse...
6 de outubro de 2008 12:02

Excelente post. Pena que a Igreja Católica nunca aceitou o agostianismo em sua inteireza.

E pena que os evangélicos de hoje não seguem o exemplo dos primeiros reformadores, que eram agostinianos em sua soteriologia.

xandy.rafa disse...
12 de novembro de 2014 12:37

eu tenho 10 versículos que corroboram com a predestinação fatalista - alguns até mal interpretado... e uns 100 ou mais para o livre arbítrio!!!!
Jesus escolheu sim!!! mas Ele disse: "quem perseverar até o fim será salvo"! Tu, Daniel vai até o fim!!! quem tá de pé cuida não caia!!! portanto não resistais... mostrando a possibilidade da resistência da "GRAÇA IRRESISTÍVEL"!
O homem caiu porque quis e aceitam a Cristo porque querem: "eis que eu estou à porta e bato... se... sabe o que é "se"????

André Aloísio disse...
19 de dezembro de 2014 10:21

Xandi, há mais do que 10 versículos que falam de predestinação na Bíblia, como pode ser visto aqui: http://teologia-vida.blogspot.com.br/2008/10/calvinismo-na-bblia-ii-eleio.html. Porém, não há nenhum versículo que fale de "predestinação fatalista", pois a Bíblia nada tem com a ideia pagã de destino. Também não há na Bíblia a ideia de livre-arbítrio defendida pelos arminianos. O único que teve um "livre-arbítrio" ou a capacidade de escolher o bem foi Adão, e ele jogou esse livre-arbítrio fora ao pecar. Desde então, o que o homem faz é escolher sempre o mal. Há textos na Bíblia que falam da responsabilidade humana, mas não sobre livre-arbítrio.

 

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