quarta-feira, 9 de julho de 2008

Passagens Distorcidas em Favor da Perda da Salvação (Parte 1)

3 comentários

Parte: [1] [2]

Os e-mails abaixo foram trocados entre mim e o irmão Ricardo Andrei Ferran, que estava com dúvidas sobre algumas passagens utilizadas para defender que a salvação pode ser perdida. Após a leitura do meu e-mail, assim ele se expressou: "Querido irmão André Aloísio, suas respostas foram ótimas, bem diretas e de fácil assimilação. Pode publicar os e-mails no seu blog para, de uma vez por todas, acabar com as dúvidas que os arminianos* tentam gerar em nós, deixando-nos contra a palavra verdadeira de Cristo!". Para uma explicação detalhada do porquê um salvo não perde a salvação, leia o artigo Certeza da Salvação.

De: Ricardo Andrei Ferran
Para: André Aloísio Oliveira da Silva
Data: 30/06/2008

André, graca e paz!

Tenho algumas dúvidas em relação a alguns versículos que falam de forma condicional em relação à salvação. Por favor, gostaria que você me explicasse o contexto desses versículos que muito os pentecostais mencionam, pois não tenho uma total compreensão destes textos. Os versículos seguem abaixo:

"Quem não permanece em mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas, lançadas no fogo e queimadas" (Joao 15.6)

"Se é que permaneceis na fé, fundados e firmes, não vos deixando apartar da esperança do evangelho que ouvistes, e que foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro" (Col 1.23)

"Pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão" (1 Cor 15.2).

"Como escaparemos nós, se descuidarmos de tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram" (Hb 2.3).

"Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se é que guardamos firme até o fim a nossa confiança inicial" (Hb 3.14).

"Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo pecado" (1 Jo 1.7).

Um dos maiores argumentos apresentados em favor da perda da salvação é freqüentemente mencionado com esses versículos condicionais e outros. Como refutar essas indagações feita pelos pentecostais?

No aguardo em Cristo Jesus,

O principal dos pecadores (I Tm.1.15).

Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo Gloria!Somente a Graça, Somente a Fé, Somente a Escritura, Somente Cristo, Somente a Deus Seja a Glória!

Ricardo Andrei

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De: André Aloísio Oliveira da Silva
Para: Ricardo Andrei Ferran
Data: 06/07/2008

Olá meu irmão Ricardo Andrei Ferran!

Graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo!

Você apresentou algumas passagens usadas por pentecostais - mais especificamente arminianos - que supostamente ensinariam a possibilidade de um crente perder a salvação. Pretendo comentar cada uma dessas passagens e mostrar como elas não contradizem a doutrina da perseverança dos santos, segundo a qual todos os que foram salvos perseverarão como salvos até o fim. Há outras passagens utilizadas pelos arminianos com o mesmo propósito, mas me concentrarei apenas nas passagens colocadas pelo irmão.

Minha intenção original era escrever um único e-mail para comentar todas essas passagens. No entanto, eu estive bastante ocupado nos últimos dias e consegui comentar apenas algumas delas. Por isso, decidi te enviar o que escrevi até agora, para que o irmão não fique esperando muito tempo e já tenha alguma coisa em mãos. Estarei te enviando outro e-mail assim que terminar de comentar as demais passagens. Neste e-mail comentarei João 15.1-6, I Coríntios 15.1-2 e Colossenses 1.21-23.

Antes de mais nada, porém, é importante lembrarmos que a Bíblia, como Palavra de Deus, é uma unidade coerente e harmoniosa. Não é possível que uma passagem das Escrituras, inspirada por Deus, contradiga outra passagem, escrita pelo mesmo Deus. Se a Bíblia nos ensina que um verdadeiro salvo não pode perder sua salvação (Jo.6.47; 10.27-29; Rm. 5.6-11; 8.1,30-39; Fp.1.6; etc), então é impossível que alguma passagem bíblica afirme que a salvação pode ser perdida.

Com isso em mente, analisemos as passagens apresentadas pelo irmão:

João 15.1-6: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam."

Nessa passagem Jesus utiliza uma das ilustrações mais lindas da Bíblia para expressar o Seu relacionamento com o cristão. Ele é a videira verdadeira e o Pai é o agricultor. Existem dois tipos de ramos: aqueles que não produzem fruto e aqueles que o produzem (v.2). Cada tipo de ramo recebe uma espécie de destino: os infrutíferos são cortados (v.2), lançados fora, secam e finalmente são lançados no fogo, onde queimam (v.6); os frutíferos são limpos pelo Pai, a fim de que frutifiquem mais ainda (v.2). A razão pela qual alguns ramos não frutificam é que os tais não permanecem na videira (v.4). Já os ramos que frutificam o fazem porque permanecem (v.5).

Tendo feito essa pequena análise textual, vejamos qual o argumento dos arminianos em favor da possibilidade de um cristão perder a salvação. Segundo eles, os ramos infrutíferos são cristãos verdadeiros, que foram verdadeiramente salvos, mas que, por não produzirem fruto em sua vida cristã, acabam perdendo a salvação. Eles entendem tais ramos como cristãos porque Jesus diz que esses ramos estão na videira (v.2). No entanto, se analisarmos outras passagens bíblicas veremos que essa interpretação é bastante precipitada.

Jesus usou uma ilustração bastante semelhante em Mateus 7:16-20: "Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis".

Na passagem acima Jesus ensina que nós conhecemos um falso profeta - e obviamente, qualquer pessoa - pelos seus frutos. Ele ensina que não é o fruto que faz a árvore. Muito pelo contrário, é a árvore que faz o fruto. A natureza da árvore determina o tipo de fruto. Árvores boas produzem bons frutos, árvores más, maus frutos. Não existe a mínima possibilidade de que uma árvore boa produza frutos maus, e vice-versa. Aplicando isso às realidades espirituais, um verdadeiro cristão, verdadeiramente salvo, que recebeu uma nova natureza e tem uma verdadeira fé, pratica boas obras automática e naturalmente (Tg.2.17,26). Pelo contrário, aquele que não foi verdadeiramente salvo não pode praticar boas obras, ainda que tenha uma fé e cristianismo de aparência.

Na ilustração de João 15, Jesus desenvolve o mesmo pensamento. Apenas os ramos que permanecem na videira dão fruto. Os demais, que não permanecem, não frutificam. Não é necessário um grande conhecimento de agricultura ou botânica para entender o porquê disso. Para que um ramo frutifique é necessário que ele esteja de tal modo ligado ao tronco que a seiva da árvore passe através dele. Se algum ramo não frutifica, isso significa que não há seiva percorrendo-o. Ainda que ele esteja aparentemente ligado à árvore, essa ligação é apenas externa. Ele parece estar vivo, mas está morto (Ap.3.1).

Assim, podemos interpretar os ramos frutíferos como cristãos verdadeiros, que tem um relacionamento real com Cristo, e os infrutíferos como cristãos nominais, que dizem "Senhor, Senhor" e muitas vezes fazem até sinais e prodígios em Seu nome, mas não praticam Sua vontade (Mt.7.21-23). O fato de Jesus dizer que esses ramos infrutíferos estão n'Ele (v.2) não deve nos incomodar, pois é uma ligação apenas externa e aparente, como foi dito acima. Além do mais, no original grego, o "em mim" desse versículo pode referir-se ao "dá frutos", ficando o versículo dessa forma: "todo o ramo que não der fruto em mim, ele o corta".

Mas ainda existe um aparente problema: Jesus afirma que quem não permanece n'Ele é lançado fora (v.6). Tendo em vista isso, não é possível que um ramo que já esteve verdadeiramente ligado à videira deixe de estar? Não é possível que um cristão verdadeiro torne-se um cristão nominal? Não, e devemos tomar cuidado com a sutileza da palavra "permanece" na versão Almeida Revista e Atualizada (ARA). Ela nos dá a leve impressão de que os ramos que não permanecem já estiveram ligados à videira verdadeira algum dia. Mas essa é uma interpretação incorreta. O sentido das palavras de Jesus talvez fique mais claro na versão Almeida Corrigida e Fiel (ACF): "Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem". O verbo grego "μεινη" (estiver, permanecer) usado por Jesus nessa passagem não insinua nem de leve que os que não estão n'Ele já estiveram algum dia.

Há outro ponto nessa ilustração que pode gerar dúvidas: Jesus exorta os discípulos a que permaneçam n'Ele (v.4). Alguém pode pensar que, por esse motivo, permanecer em Cristo depende do próprio discípulo, não de Deus e, portanto, se o discípulo não permanecer, será cortado. Mas devemos tomar cuidado para não confundir as coisas. A doutrina da perseverança dos santos não nega que o cristão tem a responsabilidade de permanecer em Cristo, buscar a santidade e viver uma vida cristã frutífera e abundante. No entanto, ela afirma que o discípulo só pode permanecer porque é Deus quem o sustenta durante toda sua jornada cristã.

Essas duas verdades aparecem juntas em Filipenses 2.12-13: "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade". Ainda que nós tenhamos a responsabilidade de desenvolver nossa salvação - ou seja, santificar-nos - isso só é possível porque é Deus quem opera em nós o querer (vontade) e o realizar (poder). Como o próprio Jesus afirma na ilustração de João 15: "sem mim nada podeis fazer" (v.5). Essa obra divina não irá parar em nós, pelo contrário, "aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus" (Fp.1.6). Por isso, a exortação de Jesus a que permaneçamos n'Ele (v.4) não implica possibilidade de perder a salvação. Temos a responsabilidade de permanecer em Cristo, sabendo que o próprio Deus é quem nos sustenta, e nos sustentará até o fim.

Terminando o comentário sobre essa passagem, observemos que a maior prova de que alguém é um verdadeiro salvo é sua perseverança até o fim. Falando sobre pessoas que não permaneceram no Caminho, o apóstolo João disse: "Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos" (I Jo.2.19). Os ramos infrutíferos que não permaneceram na videira verdadeira nunca estiveram ligados verdadeiramente a ela, pois se estivessem, teriam permanecido até o fim. Se algum suposto cristão abandona o Caminho para nunca mais voltar, essa é uma clara evidência de que ele nunca foi um verdadeiro salvo.

Se tudo isso foi entendido corretamente, as demais passagens mencionadas pelo irmão serão claramente compreendidas. Vejamos:

I Coríntios 15.1-2: "Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão."

Nessa passagem Paulo afirma que os coríntios estão salvos pelo evangelho apenas se eles conservarem a palavra anunciada por ele. Ele explica que palavra é essa nos versículos 3 e 4: "Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras". Essa é a palavra que deveria ser retida ou conservada pelos coríntios, do contrário, a fé deles seria vã (v.2). Obviamente alguém que não creia e retenha essa palavra, que é o próprio evangelho, não pode estar salvo. Tal pessoa só está verdadeiramente salva se perseverar nessa mensagem até o fim. Aqui vale o mesmo que já dissemos acima sobre perseverança. A perseverança é conseqüência, e não causa, da salvação. Quem é salvo persevera, e ele o faz porque é Deus quem o sustenta.

Colossenses 1.21-23: "E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis, se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro."

Nessa passagem, nos versículos 21 e 22, Paulo fala aos colossenses que eles foram reconciliados através da morte de Cristo. No entanto, no versículo 23 ele coloca uma condição. Isso só seria verdade a respeito deles se permanecessem na fé, sem se afastar da esperança do evangelho. Essa passagem é semelhante às anteriores. Paulo apresenta a perseverança até o fim como evidência de uma salvação verdadeira. Se alguém não permanecer na fé, o tal nunca foi verdadeiramente reconciliado com Deus por meio de Cristo.

A exortação de Paulo a que eles não se afastem da esperança do evangelho não nos deve assustar. Ela é semelhante à exortação de Jesus a que os discípulos permaneçam n'Ele, em João 15.4. Tais exortações, como vimos, não provam que é possível perder a salvação, apenas que os que foram salvos têm a responsabilidade de permanecerem firmes até o fim. Se alguém se afasta da esperança do evangelho, o tal nunca esteve verdadeiramente salvo, assim como os ramos que não permanecem na videira verdadeira e são cortados nunca estiveram verdadeiramente ligados a ela.

Espero ter sido claro em tudo o que comentei até agora. Se ficou alguma dúvida, por favor, pergunte. Assim que eu terminar o próximo e-mail, com as demais passagens comentadas, te envio.

Que Deus te abençoe grandemente!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

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Glossário:

* Arminiano: Seguidor do Arminianismo, um sistema teológico baseado nas idéias do teólogo Jacobus Arminius (1560-1609), em português, Jacó Armínio. Armínio defendia que a salvação do homem depende da cooperação entre o homem e Deus, sendo o livre-arbítrio humano o fator determinante na salvação.

Comentários

3 comentários em "Passagens Distorcidas em Favor da Perda da Salvação (Parte 1)"

(-V-) disse...
10 de julho de 2008 20:10

ótima explanação!

Faço das minhas palavras as de Spurgeon:
"Eu não sei como algumas pessoas que crêem que um cristão pode cair da graça, pretendem ser felizes. "

Aramisio disse...
18 de março de 2009 14:27

Perfeito, gostei imensamente destas explicações! É tudo que alguém, com dúvidas sobre esses textos, precisa ler para ser perfeitamente esclarecido.

Leonardo Ferreira disse...
19 de setembro de 2015 21:45

Eu estava com dúvidas sobre o texto de João 15 e, ao ler esse pequeno estudo, minhas dúvidas se foram. Deus abençoe o irmão André Aloísio.

 

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