domingo, 4 de maio de 2008

A Eucaristia para Luteranos, Reformados e Católicos

12 comentários

O e-mail abaixo é uma resposta ao e-mail de uma pessoa desconhecida que me fez algumas questões teológicas e históricas, duas das quais referem-se à Ceia do Senhor e às diferentes visões a respeito.

Olá, boa tarde!

Neste e-mail responderei apenas a primeira e última pergunta, devido ao tempo e por estarem relacionadas. As outras perguntas responderei aos poucos, conforme minha possibilidade.

1) Se, tal como o Luteranismo, o Calvinismo assenta as suas bases na soberania de Deus através das Escrituras, por que razão então os calvinistas não crêem no fenômeno da consubstanciação?

A doutrina luterana da consubstanciação não está fundamentada na soberania de Deus, mas na ubiqüidade do corpo de Cristo. Lutero acreditava que os atributos da natureza divina de Cristo foram comunicados à Sua natureza humana, inclusive a onipresença, de tal forma que o corpo de Cristo pode estar presente em mais de um lugar ao mesmo tempo (ubiqüidade). Por isso, o corpo e o sangue de Cristo estão presentes juntamente com o pão e o vinho na Eucaristia* (consubstanciação).

Os calvinistas não aceitam a doutrina da ubiqüidade do corpo de Cristo e, por conseqüência, não aceitam a consubstanciação. Para Calvino, a natureza humana de Cristo é em tudo semelhante à nossa, com exceção do pecado, sendo impossível para ela a onipresença. Não ocorreu comunicação de atributos divinos à natureza humana. Como Cristo subiu aos céus, em Sua natureza humana Ele não está mais entre nós, e sim assentado à direita de Deus Pai, como nos diz o Credo Apostólico. Por isso, é impossível que o corpo e o sangue de Cristo estejam presentes literalmente na Eucaristia.

Essa é a diferença essencial entre luteranos e calvinistas no que se refere à Eucaristia. Lutero queria entender as palavras de Cristo "isto é o meu corpo" de forma literal e para isso teve que afirmar a ubiqüidade do corpo de Cristo. Zwínglio e Calvino, com algumas diferenças, entendiam essas palavras figuradamente, crendo que o pão e o vinho eram apenas símbolos ou sinais do corpo e do sangue de Cristo. Cristo está presente na Eucaristia, mas apenas espiritualmente, em Sua natureza divina, já que a natureza humana está nos céus. Aqueles que participam da Eucaristia se alimentam de Cristo num sentido espiritual, pela fé.

Eu particularmente entendo a Eucaristia como Zwínglio e Calvino. Afirmar a literalidade das palavras da instituição "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" ignora a simplicidade das palavras de Jesus, gera muita especulação e pode levar a heresias, como a doutrina católica da transubstanciação. Jesus usava uma linguagem bastante figurada e devemos ter isso em mente ao interpretar Suas palavras. Eu não acredito, por exemplo, que Jesus seja uma porta literalmente, apesar de Ele ter dito que era a "porta das ovelhas" (Jo.10.7,9). Nem que Ele seja um pão real, embora Ele tenha dito que é o "pão vivo que desceu dos céus" (Jo.6.51).

5) Por que os protestantes rechaçam a idéia de que o pão e o vinho tenham se transformado em corpo e sangue de Cristo durante a consagração da Eucaristia ao longo da missa?

A doutrina segundo a qual o pão e o vinho se transformam literalmente em corpo e sangue de Cristo é a transubstanciação, que eu mencionei acima. Os protestantes rejeitam essa doutrina como heresia por causa do absurdo de afirmar-se uma transformação dessa espécie e devido aos problemas que ela acarreta, como a idolatria e a negação da suficência do sacrifício de Cristo.

Essa transformação é absurda porque o pão e o vinho, após a consagração, continuam sendo pão e vinho. Se eles se transformassem no corpo e no sangue de Cristo deveriam mudar sua aparência, gosto e odor. Mas isso não ocorre. Os católicos, desde Tomás de Aquino, tentam explicar esse fato apelando a Aristóteles e sua teoria sobre as transformações e seus "acidentes". Mas como essa teoria é extremamente especulativa e sem sentido, de modo que não explica nada, acabam dizendo que a transubstanciação é um mistério que deve ser recebido pela fé. Seria mais fácil admitir que as palavras de Jesus, ao instituir a Eucaristia, eram figuradas, como a maioria dos protestantes faz.

A idolatria ocorre porque, segundo a doutrina da transubstanciação, quando o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo, eles passam a ser o próprio Cristo (corpo, sangue, alma e divindade), dignos de adoração, portanto. Mas a Bíblia proíbe a idolatria em diversos lugares (Ex.20-1-5; Dt.4.9-18).

A negação da suficiência do sacrifício de Cristo ocorre porque, de acordo com esta doutrina, a Eucaristia é um outro sacrifício de Cristo, que é oferecido todos os domingos, na missa, pelo sacerdote. A Bíblia, no entanto, nos ensina que o sacrifício de Cristo foi único, oferecido uma vez por todas na cruz, e tal sacrifício é suficiente para salvar os pecadores de todos os seus pecados (Hb.7.26-27; 9.11-28; 10.1-18).

Espero que tenha ficado claro.

Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja contigo!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

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* Eucaristia: Ceia do Senhor

Comentários

12 comentários em "A Eucaristia para Luteranos, Reformados e Católicos"

Fabricio disse...
4 de maio de 2008 23:51

olá povo de Deus, sobre o assunto acima, tem mais um detalhe na eucaristia da missa não é servido a ceia, pois é dada a "hostia" que representa o pão, e somente o padre bebe o vinho (que para nós tem que ser não fermentado), porém Jesus nos ensina que a ceia é formada pelo pão e o vinho.

André Aloísio disse...
5 de maio de 2008 23:36

Olá Fabrício, a paz!

Obrigado pelo comentário. Realmente na eucaristia católica tradicional apenas a hóstia (representando o pão) é servida aos leigos. No entanto, após o Concílio Vaticano II (1962-1965) o vinho foi permitido aos leigos também. Atualmente é muito comum ver a hóstia sendo molhada no vinho e dada aos fiéis, graças à reforma eucarística deste concílio.

Quanto à composição do vinho utilizado na Ceia do Senhor, isso varia muito entre os protestantes. Alguns utilizam vinho fermentado, outros suco de uva. Não há unanimidade no assunto. Eu particularmente acho que isso não faz diferença e que tanto o vinho quanto o suco de uva representam perfeitamente o sangue de Cristo que foi derramado por nós.

Que Deus te abençoe! Abraços!

Karoline disse...
21 de maio de 2009 11:36

A Paz do Senhor,irmãos!
Sou uma jovem católica de 19 anos e fiquei um pouco confusa quando li as postagens sobre a Eucaristia confesso que,ao meu coração, algumas das questões ressaltadas são respondidas pela Sagrada Escritura,como por exemplo: 1Cor 26 a 27 e 1Cor 14 a 16.
Peço carinhosamente que eu possa tomar conhecimento do ponto de vista de você sobre estes versiculos,se não por postagens pelo meu email que deixo a sua disposição.
Fiquem com Deus!

André Aloísio disse...
22 de maio de 2009 09:10

Olá Karoline!

Obrigado pela visita e pelo comentário. Creio que a passagem a que você se refere seja a de I Coríntios 11.23-29. Nessa passagem Paulo fala sobre a instituição da Eucaristia por Cristo.

Dois versículos em especial podem gerar dúvidas. O primeiro é o 24, onde Jesus diz: "Isto é o meu corpo que é dado por vós". Os católicos pegam essas palavras literalmente e entendem que o pão se transforma no próprio corpo de Cristo. Mas nós devemos interpretar esse versículo dentro do seu contexto, para entendermos o que Jesus quis dizer com isso. Veja que em toda essa passagem o pão é chamado de pão, mesmo depois da ação de graças (vs.26-28). Se o pão se tornasse o corpo de Cristo, ele não seria mais pão, e não receberia mais essa designação. Outro ponto a ser considerado é que quando Jesus pronunciou essas palavras, Ele mesmo estava segurando o pão e partindo-o. Ora, seria no mínimo estranho que Jesus dissesse que o pão era Seu corpo literalmente, sendo que Ele mesmo, com Seu corpo, estava segurando o pão, já que não há nenhuma indicação na Escritura de que o corpo de Cristo era onipresente. Além do mais, como eu observei no meu e-mail, após a ação de graças o pão continua com a aparência de pão. Por todos esses motivos, devemos interpretar essas palavras de Cristo simbolicamente. O pão apenas simboliza o corpo de Cristo, e o vinho, o Seu sangue.

O segundo é o versículo 29, onde Paulo diz: "Pois quem come e bebe, sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe condenação para si". Alguém poderia entender que Paulo quer dizer que devemos reconhecer o pão como o corpo do Senhor, do contrário estaremos trazendo condenação sobre nós. Mas não é isso que ele está dizendo. O sentido é que devemos participar da Eucaristia discernindo perfeitamente o significado dela, que é um memorial da morte de Cristo, onde Seu corpo foi dado e o Seu sangue derramado, conforme é indicado nos versículos anteriores.

Espero que tenha ficado claro. Qualquer dúvida pode perguntar.

Que Deus te abençoe!

Bjs,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)

Marcelo disse...
30 de abril de 2012 17:23

Na minha opinião, a Eucaristia é o próprio Corpo de Cristo. Se não fosse o Corpo, não haveria sentido do abandono de muitos discípulos:

"A partir daquele momento, muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele." (João 6, 66)

Se fosse algo simbólico, não teriam abandonado. A dureza das palavras - comer a Carne do Filho do Homem - foi o que afastou muitos discípulos.

Alan Willian Costa disse...
23 de janeiro de 2013 00:38

Você afirma que os luteranos acreditam na consubstanciação, o que não é totalmente correto.
Na verdade o termo "consubstanciação" não é utilizado pelos luteranos, mas sim "Presença Real" e "União Sacramental". Segundo o pensamento de Lutero, durante a consagração, a substância do corpo e sangue de Cristo se une a substância do pão e do vinho, permanecendo unidos unicamente após a consagração e durante o uso do sacramento. E isto de maneira "celestial" e incompreensível a razão e aos sentidos, contudo real e verdadeira, sendo considerada um milagre de Cristo.
A doutrina da consubstanciação ou "empanação" ensina que assim como Jesus Cristo é Deus que se fez carne através da união hipostática da natureza divina e humana , na Consubstânciação, Deus se faz Pão através da união (hipóstase) da substância de Cristo com a substância do Pão e do Vinho", sendo que o pão consagrado fica como portador permanente da substância de Cristo. Não é uam doutrina luterana!!!
Esta doutrina foi condenada por diversos Concílios.(Roma 1050, 1059, 1078, 1079; Vercelli 1050; Poitiers 1074).
Durante a pré-reforma inglesa no século XIV, a consubstânciação foi adotada como doutrina pelos Lollardos.

André Aloísio disse...
18 de dezembro de 2014 18:19

Marcelo, em João 6, Jesus não diz que o pão da eucaristia é o seu corpo, mas que Ele é o pão da vida e que crer nEle é comer do Seu corpo e beber do Seu sangue. São coisas diferentes. A eucaristia ou Ceia do Senhor é um sinal que aponta para a realidade espiritual apresentada em João 6, mas ela não se identifica com essa realidade espiritual.

André Aloísio disse...
19 de dezembro de 2014 19:54

Alan, a Confissão de Augsburgo (dos luteranos), no seu artigo 10, descreve a eucaristia exatamente do modo como eu descrevi a visão luterana: "Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho e são nela distribuídos e recebidos. Por isso também se rejeita a doutrina contrária". No seguinte link, você também pode ver luteranos usando o termo "consubstanciação" para descrever sua visão da eucaristia: http://www.luteranos.com.br/conteudo/oba-feriado.

AILTON P. SANTOS disse...
23 de abril de 2015 17:06

Boa tarde!

Luteranos não acreditam em "consubstanciação" e sim na doutrina da presença real de Cristo / União Sacramental, conforme ensina a Sagrada Escritura e expõem o Livro de Concórdia, de 1580, e a Dogmática Cristã, de Mueller.
Fraterno abraço e bênçãos do Ressuscitado.

Ailton P Santos
Pastor luterano

André Aloísio disse...
28 de abril de 2015 14:26

Olá Pr. Ailton, graça e paz!

O senhor pertence a qual denominação luterana?

Abraços,

Pr. André Aloísio

Rennan Paloschi disse...
8 de novembro de 2016 01:38

Isso seria negar os milagres Eucarísticos que aconteceram e acontecem até hoje e são confirmados por todos os pesquisadores que examinam a Eucaristia que se transforma em corpo e sangue real de Jesus Cristo. É só pesquisar no google, não acredita? Junta uma grana e vá presenciar você mesmo.

Alcidio Antonio Tsenane Tsenane disse...
9 de novembro de 2016 14:35

Irmãos,ou acreditamos da divindade de J. Cristo ou não. Se acreditas, não dúvidas e assim começares a supor e a confiar só em seus esforços humanos. Esta claro para quem crê que Jesus pode fazer milagres que Ele referia-se à Corpo e Sangue reais, nao faz de conta ou simbólica. E São Paulo reforça isso. Não sei se esse pastor tem fé de quê! Pastor, Jesus é Deus por isso é capaz de tudo.Aceite que é um mistério pois mesmo tua própria existência pastor é um mistério.

Seja louvado NSJC. Alcídio de Moçambique

 

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