sexta-feira, 18 de abril de 2008

Debate Sobre a Natureza e Interpretação da Bíblia (Parte 2)

2 comentários

Parte: [1] [2]

Os e-mails abaixo foram trocados entre mim e meu amigo Vitor Hugo Queiroz, mentor espiritual (pastor) do Caminho da Graça em Campinas, movimento idealizado e organizado por Caio Fábio D’Araújo Filho.

De: André Aloísio Oliveira da Silva
Para: Vitor Hugo Queiroz
Data: 11/04/2008, 13:31

Olá Vitor, graça e paz!

Agora ficou mais clara sua visão da Bíblia. Eu creio que é possível agrupar os assuntos que estamos discutindo em duas áreas da Bibliologia (ixi, comecei a sistematizar e fazer teologia! rsrs): 1- A natureza da Bíblia (inspiração, infalibilidade e autoridade); 2- A interpretação da Bíblia (métodos de interpretação). Nas duas áreas nós temos semelhanças e diferenças. Vou expor aqui de forma resumida qual a minha visão do assunto, mostrando onde pensamos igual e onde há diferenças.

1- A Natureza da Bíblia

A Bíblia é a Palavra de Deus. Ela não apenas contém a Palavra de Deus, ou se torna a Palavra de Deus em determinadas situações. Ela é a Palavra de Deus porque é inspirada por Ele (II Tm.3.16-17), e porque os homens que a escreveram foram "movidos pelo Espírito Santo" (II Pe.1.20-21).

Quando digo que ela é inspirada por Deus, e que Deus se utilizou de seres humanos para tal trabalho, quero dizer que Deus fez a coisa de tal forma que cada palavra escrita nos manuscritos originais foi exatamente o que Ele pretendia escrever. Ele não apenas inspirou idéias no coração dos autores humanos, deixando a eles o trabalho de escolherem a melhor forma de expressarem essas idéias, mas inspirou e escreveu as próprias palavras utilizadas. Mas isso foi feito de tal forma que a personalidade e cultura dos autores humanos não foi afetada mas, pelo contrário, preservada na composição dos textos bíblicos. Nesse aspecto nós pensamos diferente, já que, pelo que me escreveu, você não crê que cada palavra das Escrituras foi literalmente escrita por Deus. A minha concepção é chamada de inspiração verbal-plenária e, na minha opinião, é a única que se enquadra no conceito bíblico de inspiração. Somente crendo que toda a Bíblia é inspirada por Deus, inclusive cada uma de suas palavras, podemos confiar que os autores humanos não falharam no que escreveram, nem expressaram mal o que Deus tencionava dizer.

Essa discussão sobre a inspiração leva-nos a algumas conclusões, nas quais nós dois concordamos, creio eu. Como a Bíblia é inspirada por Deus, ela é infalível e inerrante, não contendo nenhuma espécie de falha ou erro (Jo.10.35). Essa inerrância e infalibilidade são válidas inclusive para os dados históricos, científicos, arqueológicos, culturais, etc, pois se houvesse falha nessas áreas, obviamente seria possível ter falhas nos ensinos morais, espirituais, teológicos e por aí vai.

A infalibilidade e a inerrância estão relacionadas com a autoridade da Bíblia. Como a Bíblia é a Palavra de Deus e não pode falhar, ela tem autoridade em si mesma. Mas aqui cabe algumas observações. Apesar de toda a Bíblia ser a Palavra de Deus, nem tudo o que nela está escrito representa o pensamento de Deus sobre um assunto ou Sua vontade quanto à determinada coisa. Por exemplo, o livro de Jó registra o diálogo que ele teve com seus três "amigos". Não se pode chegar a conclusões sobre a vontade de Deus baseando-se nesses diálogos, pois eles representam o pensamento dos amigos de Jó, e não necessariamente o de Deus. Tanto que Deus mesmo, no final do livro, diz a um dos amigos de Jó que ele e os outros dois não tinham falado d'Ele "o que era reto" (Jó 42.7). O mesmo pode-se dizer das palavras ditas pelo diabo no mesmo livro (Jó 1.9-11), e das que ele disse a Jesus no deserto, ao tentá-lo (Mt.4.1-11). São palavras registradas na Bíblia, Palavra de Deus no sentido de ter sido escrito por Ele, mas palavras do diabo no sentido de terem sido ditas por ele. Essa distinção é importante principalmente quando entrarmos no assunto da interpretação da Bíblia.

Creio que até aqui, no que se refere à autoridade da Bíblia, você concorda comigo. No entanto, à partir daqui creio que haverá discordância. Eu acredito, obviamente, que há autoridade no que Jesus disse e está registrado na Bíblia, nos evangelhos. Ele era o próprio Verbo encarnado e, por isso, o que Ele disse representa o próprio pensamento e vontade de Deus. Como Ele mesmo disse, "Quem me vê a mim vê o Pai" (Jo.14.9). Portanto, todas as demais Escrituras devem ser interpretadas à luz da vida e ensino de Jesus. Mas eu não acredito que o ensino de Jesus está contido apenas no que está registrado nos evangelhos. Creio que o que os apóstolos escreveram nas epístolas também representa o ensino de Jesus e, exatamente por isso, não apenas os evangelhos, mas todo o Novo Testamento é o nosso padrão de interpretação para toda a Bíblia (especificamente o Velho Testamento). Vou desenvolver esse ponto pra você entender melhor.

O que está registrado nos evangelhos foi escrito por apóstolos ou discípulos dos apóstolos. Jesus mesmo não escreveu nada, como você sabe. O que está escrito nos evangelhos não é apenas o que Jesus ensinou, mas o que os próprios apóstolos ensinavam, de acordo com o que aprenderam de Jesus. Nós não sabemos se os discursos de Jesus registrados nos evangelhos (como o Sermão do Monte, os vários discursos do evangelho de João, etc) estão escritos exatamente com as mesmas palavras com que foram proferidos. Provavelmente não. Veja que o que nós temos registrado sobre Jesus vem totalmente dos apóstolos e seus discípulos.

Eu falei isso para mostrar a autoridade que os apóstolos tinham. Jesus disse em João 14.26 que o Espírito Santo ensinaria aos apóstolos todas as coisas, e faria com que eles se lembrassem de tudo o que Ele (Jesus) havia dito. Então eu não acredito que tudo o que se refere ao evangelho terminou quando Jesus subiu aos céus. Ele continuou Sua obra através do Espírito Santo nos apóstolos (Jo.15.26-27), tanto fazendo eles se lembrarem do que Ele já havia ensinado, quanto revelando novas coisas que não foram totalmente reveladas quando Ele estava neste mundo. É Paulo quem diz que o evangelho ensinado por ele não provém de homem algum, porque ele o aprendeu mediante revelação de Jesus Cristo (Gl.1.11-12).

Desta forma, eu acredito que os evangelhos e epístolas têm o mesmo valor e importância quando vamos interpretar a Bíblia, e todo o Novo Testamento funciona como "chave hermenêutica", por assim dizer, porque todo ele apresenta o ensino de Jesus, que é o evangelho da graça. Não acredito que as epístolas sejam "tentativas dos apóstolos de vivenciar essa Verdade", como você disse, mas a própria Verdade, a mesma ensinada por Jesus e com a mesma autoridade.

Talvez você argumente que nem tudo o que os apóstolos escreveram tem aplicação hoje, como as regras de Corinto e, por isso não tem a mesma autoridade do ensino direto de Jesus, nos evangelhos. No entanto, até Jesus, nos evangelhos, ensinou algumas coisas que não tem aplicação hoje, pois Jesus viveu numa época de transição, no final do Velho Testamento (o Novo Testamento começou de fato com Sua morte, ressurreição e o Pentecostes). Um exemplo disso é o que Jesus disse aos escribas e fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas." (Mt.23.23). Jesus diz que eles deveriam dar o dízimo, no entanto, o dízimo é um mandamento que não faz parte da lei moral de Deus, não sendo mais obrigatório no Novo Testamento. O motivo de Jesus dizer isso é que no tempo em que ele estava vivendo (o final do Velho Testamento), o dízimo ainda era um mandamento que deveria ser obedecido, até que Jesus inaugurasse a Nova Aliança. O próprio Jesus se submeteu à lei e a cumpriu em todos os aspectos (ele só não cumpriu os acréscimos e exageros dos fariseus). Logo, esse ensino de Jesus não pode ser usado para provar a validade do dízimo, e creio que você mesmo não o faz, porque deve, assim como eu, acreditar que o dízimo já não é mais obrigatório hoje. Veja que esse ensino, assim como alguns ensinos dos apóstolos nas epístolas, também estava ligado às circunstâncias da época e não tem aplicação para nós hoje.

Tendo mostrado que tanto nas epístolas quanto nos evangelhos há ensinos que não se aplicam mais, acho importante enfatizar que isso é uma exceção e não a regra. Quase tudo o que Jesus e os apóstolos ensinaram é válido para nós hoje.

Quanto à natureza da Bíblia há muito mais para falar, mas vou parar por aqui, pois o assunto já está entrando na questão da interpretação.

2- A Interpretação da Bíblia

Existem muitos métodos de interpretação da Bíblia, que podem ser datados desde os pais da igreja. Logo no início da era cristã apareceu a interpretação alegórica da Bíblia, numa tentativa de conciliar o cristianismo com a filosofia grega, como Filo já havia feito antes com o judaísmo. Esse tipo de interpretação foi bastante comum em Alexandria, com Clemente, Orígenes e seus sucessores. Por outro lado, Antioquia adotou um método de interpretação mais literal, dando valor ao contexto histórico-gramatical do texto bíblico e à intenção original dos autores humanos.

Com Lutero temos o princípio de que a Bíblia é a sua própria intérprete, "a Escritura interpreta a Escritura", e nossa interpretação da Bíblia deve ser cristológica, pois tudo aponta para Cristo. Calvino retomou a hermenêutica de Antioquia, dando valor ao método histórico-gramatical de interpretação. Ele enfatizou também a importância do Espírito Santo na interpretação da Bíblia, sem o qual não é possível atingir uma compreensão exata das Escrituras. Ele entendia que, pelo fato de a Bíblia ser divina e humana, tanto a oração pelo auxílio do Espírito Santo, quanto o estudo aprofundado do texto eram necessários para uma correta interpretação.

Eu acredito que a Bíblia foi escrita para ser entendida. Creio que o significado de um texto bíblico deve ser o mais natural e óbvio possível, para que até o simples possa entender (Sl.119.130). Não gosto de alegorizações, que tentam buscar um significado mais profundo para um texto bíblico, além do óbvio. Por isso, eu não aceito o método alegórico de interpretação e creio que você também não. Creio que o método que faz justiça ao significado original das passagens bíblicas é o histórico-gramatical, adotado por Antioquia, Lutero, Calvino e todos os protestantes.

Além disso, eu aceito também o princípio de Lutero de que a Escritura é sua própria intérprete. Como eu creio que a Bíblia tem o mesmo autor divino, creio por dedução que ela não pode apresentar nenhuma contradição. Ela é uma unidade, um todo harmonioso, de tal forma que passagens obscuras podem ser entendidas através de passagens mais claras. Acho importante mencionar aqui o valor de concordâncias bíblicas, que você pareceu desconsiderar no seu último e-mail. O valor delas está justamente em ajudar a encontrar passagens paralelas ou que tratam do mesmo assunto, permitindo a utilização deste princípio de que a Bíblia se auto-interpreta.

Outro princípio que eu tenho para a interpretação é sobre a centralidade de Cristo. Mas aqui, como eu já disse, creio que pensamos diferente. Esse princípio eu baseio no que o autor da carta aos Hebreus escreveu: "Havendo Deus outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho" (Hb.1.1). Eu creio que Deus se revelou progressivamente ao homem no Velho Testamento, e tal revelação atingiu seu clímax e completude em Cristo Jesus, que é a plenitude da revelação de Deus. Logo, tudo o que aconteceu e está registrado no Velho Testamento é sombra da realidade da Nova Aliança, e tudo aquilo deve ser interpretado à luz dela.

Agora, a coisa não funciona bem assim quando vamos interpretar o Novo Testamento, porque ele todo já é a plenitude da revelação de Deus. Ele é o nosso padrão para interpretação da Bíblia e não existem "sombras" no Novo Testamento. O máximo que você irá encontrar são algumas coisas circunstanciais, ou porque o Velho Testamento ainda não tinha terminado (como nos evangelhos) ou para não escandalizar cristãos judeus que ainda guardavam a lei (como nas epístolas), ou ainda por questões culturais de determinado povo (como o uso do véu em Corinto). Em todos esses casos, o segredo da correta interpretação é comparar um ensino específico com o ensino geral do Novo Testamento (que é o ensino de Jesus, tanto por Sua boca quanto pela boca dos apóstolos) para discernir o que é fundamental e o que é circunstancial. Essa comparação funciona em dois sentidos, tanto comparando o ensino das epístolas com o ensino dos evangelhos, quanto comparando o ensino dos evangelhos com o das epístolas, lembrando que é uma única e mesma doutrina ensinada em ambos.

Perceba como eu coloco em pé de igualdade o ensino de Jesus e o dos apóstolos. Não estou colocando em pé de igualdade suas pessoas, mas seu ensino. O Caio disse certa vez que os apóstolos são relativizados quando comparados a Jesus, e eu concordo com isso. No entanto, suas pessoas é quem são relativizadas e não seu ensino, que é o mesmo ensino de Jesus. A doutrina dos apóstolos é a doutrina de Cristo. Por isso, eu posso e devo julgar certas atitudes dos apóstolos no livro de Atos à luz das atitudes e ensinos de Jesus. A briga de Paulo e Barnabé (At.15.39), por exemplo, não pode ser utilizada como pretexto para brigas ministeriais. Paulo e Barnabé eram humanos e sujeitos ao pecado, como todo ser humano, e se analisarmos essa atitude à luz da pessoa de Cristo veremos que eles estavam errados. No entanto, quando Paulo abria a boca para falar ou pegava sua pena para escrever, ele ensinava aquele evangelho que lhe foi confiado, o mesmo pregado por Jesus.

Com tudo isso em mente, algumas coisas que talvez você considere circunstanciais nas epístolas eu considero fundamentais, fundamentais no sentido de terem aplicação ainda hoje e serem válidas para todos os tempos. Ensinos referentes ao governo da igreja, à celebração dos sacramentos (ou ordenanças), aos ministérios e dons espirituais na igreja, ao casamento e divórcio, à liderança masculina na família e na igreja, e muitos outros são tão válidos hoje quanto as doutrinas da graça, pois todos esses ensinos se baseiam nas grandes realidades espirituais do evangelho de Cristo.

Apenas para concluir este longo e-mail, gostaria de comentar seus últimos parágrafos no último e-mail:

Não sou contra a Bíblia, e é óbvio que ela me indica sobre jesus, me mostra o caminho para o Caminho. No entanto a simples leitura da Bíblia, não te leva a compreensão do Verbo. Se assim fosse a maioria do mundo contemporâneo seria Cristão msm, já que a Bíblia é o livro mais vendido do mundo. Ler a Bíblia, ou as escrituras ou as cartas é um exercício de reflexão. A mensagem só é assimilada quando ganha significado dentro de nós ('a Lei escrita no coração').

Concordo com você, uma simples leitura da Bíblia não leva a uma compreensão do Verbo se ela não for acompanhada por uma obra sobrenatural do Espírito Santo no coração. Por outro lado, não há outro meio de eu compreender o Verbo, senão pela leitura (ou pregação) da Palavra de Deus, a Bíblia.

Concordo que depois da morte dos apóstolos a Biblia é a nossa fonte de informação sobre Jesus, mas no entanto Jesus nunca quis que fossemos a "religião do livro" com os Judeus foram. Se prender apenas na letra, procurando por concordancias e obediencia inscocientemente cega, nos faz viver apenas pela letra e não pelo espírito, e corremos o risco de virarmos Bibliolátras e não Cristãos. Os apóstolos não precisavam abrir um Bíblia para falar, pq tudo estava no coração. Se eu entender a mensagem do perdão e da minha insuficiencia eu poderia entender o sermão do monte sem nunca te-lo lido. Não estou dispensando aqui a leitura da Bíblia, estou apenas pedindo para que não se viva pela letra.

Eu acho que entendo sua preocupação em que o evangelho esteja no coração e não apenas nas páginas da Bíblia. No entanto, eu creio que a realidade evangélica hoje está longe de pessoas que idolatram a Bíblia ou são "Bibliólatras", como você disse. Na verdade, com o baixo conceito que a Bíblia tem no meio evangélico hoje, devido à ênfase exagerada em profetas e profetadas, eu creio que nosso mal é o exato oposto de uma idolatria da Bíblia: é um quase desprezo dela.

É importante mencionar o alto conceito que Jesus tinha pelas Escrituras do Velho Testamento. Ele as citava com frequência como Palavra de Deus, sendo seguido por todos os apóstolos em suas epístolas. Se fazer isso é ser uma "religião do livro", então eu não me importo, porque é a mesma atitude que os primeiros cristãos tinham para com as Escrituras. Eu acho difícil exagerar a importância da Bíblia para o Cristianismo, já que, como eu disse, ela é a nossa única fonte de informação sobre Jesus. Ela é o único lugar onde eu tenho acesso à revelação de Deus quanto aos assuntos pertinentes à salvação e à vida eterna. O único lugar onde eu posso encontrar o evangelho é na Bíblia. Ela é a Palavra de Deus para o mundo e como tal merece o devido respeito e atenção.

Se Jesus é maior que a bíblia então ele a interpreta. Se ela me leva a Ele e fica dificil entender essa relação, então...paciência. A essência da Graça é e sempre será paradoxal, Deus não precisa atender nossas necessidades lógicas de explicação. Viver pela fé também é crer quando tudo diz o contrário.

Creio que já expliquei suficientemente qual a minha compreensão sobre Jesus ser a chave interpretativa da Bíblia. E de acordo com esse entendimento, eu posso também dizer que a Bíblia interpreta Jesus, seguindo a lógica e o óbvio, já que a Bíblia é o único lugar onde eu leio a respeito de Jesus, como eu já disse anteriormente. O Jesus que eu conheço é o Jesus que a Bíblia me apresenta.

Sobre os paradoxos, já deu pra perceber que você gosta bastante deles, rsrs. Eu particularmente não. Não acredito que todos os ensinos bíblicos possam ser compreendidos de uma forma cabal e total, mas creio que nós não podemos parar e afirmar um paradoxo antes de examinar tudo o que as Escrituras ensinam sobre um determinado assunto. A Bíblia é muito mais coerente e a fé é muito mais racional do que algumas pessoas imaginam.

Eu acredito que só existe uma lógica, tanto para Deus quanto para o homem, e a nossa razão é um dos aspectos em que somos a imagem e semelhança de Deus. Se não fosse assim, seria impossível acreditar que existe uma Verdade, e o conhecimento seria impossível. Dizer que Jesus é o Verbo (Logos) não é apenas dizer que Ele é a Palavra de Deus, mas que também é a Lógica de Deus. Tudo o que Deus faz e tudo o que a Bíblia diz é lógico e verdadeiro por essência. Quando não compreendemos algo totalmente isso não significa que Deus usa uma lógica diferente da nossa, e sim que nós fomos de tal forma afetados pelo pecado, inclusive em nossa razão, que muitas vezes somos ilógicos em nossos raciocínios e não entendemos tudo o que a Bíblia ensina de forma lógica.

Bom, esse é o meu pensamento sobre a natureza e interpretação da Bíblia. Espero que tenha sido claro. Fique à vontade para perguntar e comentar.

Que Deus te abençoe grandemente!

Abraços,

André Aloísio

De: Vitor Hugo Queiroz
Para: André Aloísio Oliveira da Silva
Data: 14/04/2008, 17:49

André, vou comentando seu texto na medida que ele foi escrito ok?

Olá Vitor, graça e paz!

Agora ficou mais clara sua visão da Bíblia. Eu creio que é possível agrupar os assuntos que estamos discutindo em duas áreas da Bibliologia (ixi, comecei a sistematizar e fazer teologia! rsrs): 1- A natureza da Bíblia (inspiração, infalibilidade e autoridade); 2- A interpretação da Bíblia (métodos de interpretação). Nas duas áreas nós temos semelhanças e diferenças. Vou expor aqui de forma resumida qual a minha visão do assunto, mostrando onde pensamos igual e onde há diferenças.

1- A Natureza da Bíblia

A Bíblia é a Palavra de Deus. Ela não apenas contém a Palavra de Deus, ou se torna a Palavra de Deus em determinadas situações. Ela é a Palavra de Deus porque é inspirada por Ele (II Tm.3.16-17)(Aqui está um ponto interessante que eu gostaria de comentar mais como uma curiosidade, que qualquer tipo de contextação, esse texto que você citou é usado para se referir a toda bíblia, no entanto esse é um ponto que citei no meu e-mail anterior, o de usar concordâncias biblicas de certa forma "inconsequentes", não quero dizer que se usa de má intenção, apenas é fruto de um precipitação. Se você ler o capítulo todo vai ver que nesse ponto Paulo falava do Antigo testamento e não do novo("desde criança você conhece as Sagradas Escrituras, diz ele a Timóteo"), até porque ele não saberia que leríamos essa carta dele para Timóteo como lemos as "Sagradas Escrituras", ou as "Escrituras", acho que o texto que contém o sentido que você busca provavelmente seria em 2 Pedro 15,16, onde Pedro compara a distorção das "Escrituras", com a distorção das cartas de Paulo, e mesmo aqui ele faz distinção entre uma e outra, não estou dizendo que as cartas não sejam inspiradas e não sejam "Escrituras Divinas", só que devemos tomar cuidado, nem sempre o que os apóstolos chamavam de escrituras é o que nós chamamos ), e porque os homens que a escreveram foram "movidos pelo Espírito Santo" (II Pe.1.20-21)(Mais uma vez, a exemplo do meu comentário anterior, aqui o autor se refere aos Profetas, e isso se dava porque ele enfrentava um movimento gnóstico que desprezava o testemunho dos profetas e dos apóstolos, para falar da mensagem de Jesus. A defesa dos apóstolos ele faz no verso 16 e em seguida faz uma defesa em mesmo tom, mas nesses versos que você citou. Portanto o contexto que Pedro faz referências nesse texto não é aos apóstolos, mas aos Profetas. Reinterando que não estou duvidando da inspiração divina dele, apenas mostrando que essa passagem não tem o sentido que você quer expressar).

Quando digo que ela é inspirada por Deus, e que Deus se utilizou de seres humanos para tal trabalho, quero dizer que Deus fez a coisa de tal forma que cada palavra escrita nos manuscritos originais foi exatamente o que Ele pretendia escrever. Ele não apenas inspirou idéias no coração dos autores humanos, deixando a eles o trabalho de escolherem a melhor forma de expressarem essas idéias, mas inspirou e escreveu as próprias palavras utilizadas. Mas isso foi feito de tal forma que a personalidade e cultura dos autores humanos não foi afetada mas, pelo contrário, preservada na composição dos textos bíblicos.(Você diz mais para frente que eu gosto de paradoxos, mas aqui você acaba de ser paradoxal também, rsrsrs) Nesse aspecto nós pensamos diferente, já que, pelo que me escreveu, você não crê que cada palavra das Escrituras foi literalmente escrita por Deus(tirando algumas exceções que citei no e-mail anterior, Deus não escreveu de próprio punho, ou ditou as palavras, Ele as inspirou). A minha concepção é chamada de inspiração verbal-plenária e, na minha opinião, é a única que se enquadra no conceito bíblico de inspiração. Somente crendo que toda a Bíblia é inspirada por Deus, inclusive cada uma de suas palavras, podemos confiar que os autores humanos não falharam no que escreveram, nem expressaram mal o que Deus tencionava dizer. (Eu conheço a concepção verbal plenária, e quando digo que Deus não escreveu literalmente, não digo que as palavras estão incorretas ou expressam mal a vontade de Deus, isso eu jamais disse. Apenas disse que as palavras estão sujeitas ao seu contexto histórico, que deve ser analisado, para não ficarmos com a interpretação literal, sem no entanto captar o que o autor estava tentando dizer. Isso se resume a frase "Está escrito, mas não está dito", sendo que embora as palavras digam algo para nós hoje, talvez não seja esse significado, que o autor quis inputar no contexto em que ele escreveu as palavras. Como eu disse acredito que toda a Bíblia seja inspirada, e que também exista características culturais de cada autor. Isso é um paradoxo, como citei que você havia mencionado, mas acredito que de certa forma nem percebeu isso. Esse é mais um daqueles casos em que tentamos dizer a mesma coisa mas de formas diferentes).

Essa discussão sobre a inspiração leva-nos a algumas conclusões, nas quais nós dois concordamos, creio eu. Como a Bíblia é inspirada por Deus, ela é infalível e inerrante, não contendo nenhuma espécie de falha ou erro (Jo.10.35)(Mais uma vez Jesus faz referência ao antigo testamento, mais precisamente ao Salmo 58, devido ao fato dos Judeus quererem apedrejá-lo, pois se dizia Filho de Deus, citando o fato que Deus chamou os próprios legisladores de Israel de deuses. Mais uma vez, não discordo da sua opnião mas sua referência não expressa o sentido que você quer me passar.). Essa inerrância e infalibilidade são válidas inclusive para os dados históricos, científicos, arqueológicos, culturais, etc, pois se houvesse falha nessas áreas, obviamente seria possível ter falhas nos ensinos morais, espirituais, teológicos e por aí vai.(Hmmm... então você está atribuindo valores divinos a coisas circunstâncias. Se você analisar os livros de Cronica se de Reis, verá que existem números citados de forma diferente. Isso não quer dizer que usou de ma fé para escrever, mas que talvez a exatidão nos números não fosse tão importante. E olha que não estamos falando de um estudo secular sobre a Bíblia, estamos comparando livros que narram as mesmas situações. Quer um exemplo? "I Reis 4:26 vs II Crônicas 9:25 ", e então qual dos dois Deus mandou escrever? 4 ou 40? Para mim, não faz diferença, porque em sendo 4 ou sendo 40 eu acredito que Deus estava agindo, nos dois livros. Talvez o autor tivesse se confundido com os números, mas nesse caso um número incorreto ou mal escrito não invalida minha fé. Se minha fé fosse invalidada por isso, então ela não era tão grande assim. Outro exemplo? Mateus 1:16 vs Lucas 3:23 , onde nos perguntamos, quem é o avó terreno de Jesus, Jacó ou Eli? Percebe como existem pequenas discordâncias que nos levam a discussões inúteis? Não vou deixar de crer que Jesus é realmente Deus encarnado, porque Lucas atribui outro nome diferente de Mateus para o avô dele. Não vou entrar numa crise duvidando da legitimidade da bíblia porque talvez salomão tivesse 4 mil e não 40 mil cavalos. Se preocupar com a veracidade desses fatos tira meu foco da mensagem entende? )

A infalibilidade e a inerrância estão relacionadas com a autoridade da Bíblia. Como a Bíblia é a Palavra de Deus e não pode falhar, ela tem autoridade em si mesma. Mas aqui cabe algumas observações. Apesar de toda a Bíblia ser a Palavra de Deus, nem tudo o que nela está escrito representa o pensamento de Deus sobre um assunto ou Sua vontade quanto à determinada coisa. Por exemplo, o livro de Jó registra o diálogo que ele teve com seus três "amigos". Não se pode chegar a conclusões sobre a vontade de Deus baseando-se nesses diálogos, pois eles representam o pensamento dos amigos de Jó, e não necessariamente o de Deus. Tanto que Deus mesmo, no final do livro, diz a um dos amigos de Jó que ele e os outros dois não tinham falado d'Ele "o que era reto" (Jó 42.7). O mesmo pode-se dizer das palavras ditas pelo diabo no mesmo livro (Jó 1.9-11), e das que ele disse a Jesus no deserto, ao tentá-lo (Mt.4.1-11). São palavras registradas na Bíblia, Palavra de Deus no sentido de ter sido escrito por Ele, mas palavras do diabo no sentido de terem sido ditas por ele. Essa distinção é importante principalmente quando entrarmos no assunto da interpretação da Bíblia. (Correto, quanto a isso eu nem mencionei em outro e-mail, por acreditar que discutir isso é "chover no molhado")

Creio que até aqui, no que se refere à autoridade da Bíblia, você concorda comigo. No entanto, à partir daqui creio que haverá discordância. Eu acredito, obviamente, que há autoridade no que Jesus disse e está registrado na Bíblia, nos evangelhos. Ele era o próprio Verbo encarnado e, por isso, o que Ele disse representa o próprio pensamento e vontade de Deus. Como Ele mesmo disse, "Quem me vê a mim vê o Pai" (Jo.14.9). Portanto, todas as demais Escrituras devem ser interpretadas à luz da vida e ensino de Jesus. Mas eu não acredito que o ensino de Jesus está contido apenas no que está registrado nos evangelhos. Creio que o que os apóstolos escreveram nas epístolas também representa o ensino de Jesus e, exatamente por isso, não apenas os evangelhos, mas todo o Novo Testamento é o nosso padrão de interpretação para toda a Bíblia (especificamente o Velho Testamento). Vou desenvolver esse ponto pra você entender melhor.

O que está registrado nos evangelhos foi escrito por apóstolos ou discípulos dos apóstolos. Jesus mesmo não escreveu nada, como você sabe. O que está escrito nos evangelhos não é apenas o que Jesus ensinou, mas o que os próprios apóstolos ensinavam, de acordo com o que aprenderam de Jesus. Nós não sabemos se os discursos de Jesus registrados nos evangelhos (como o Sermão do Monte, os vários discursos do evangelho de João, etc) estão escritos exatamente com as mesmas palavras com que foram proferidos. Provavelmente não. Veja que o que nós temos registrado sobre Jesus vem totalmente dos apóstolos e seus discípulos.

Eu falei isso para mostrar a autoridade que os apóstolos tinham. Jesus disse em João 14.26 que o Espírito Santo ensinaria aos apóstolos todas as coisas, e faria com que eles se lembrassem de tudo o que Ele (Jesus) havia dito. Então eu não acredito que tudo o que se refere ao evangelho terminou quando Jesus subiu aos céus. Ele continuou Sua obra através do Espírito Santo nos apóstolos (Jo.15.26-27), tanto fazendo eles se lembrarem do que Ele já havia ensinado, quanto revelando novas coisas que não foram totalmente reveladas quando Ele estava neste mundo. É Paulo quem diz que o evangelho ensinado por ele não provém de homem algum, porque ele o aprendeu mediante revelação de Jesus Cristo (Gl.1.11-12).

Desta forma, eu acredito que os evangelhos e epístolas têm o mesmo valor e importância quando vamos interpretar a Bíblia, e todo o Novo Testamento funciona como "chave hermenêutica", por assim dizer, porque todo ele apresenta o ensino de Jesus, que é o evangelho da graça. Não acredito que as epístolas sejam "tentativas dos apóstolos de vivenciar essa Verdade", como você disse, mas a própria Verdade, a mesma ensinada por Jesus e com a mesma autoridade.(Aqui cabe uma retratação minha, o termo "tentativas dos apóstolos de vivenciar essa Verdade", foi uma péssima escolha da minha parte, seria mais correto, dizer "A Verdade do evangelho em termos práticos, no contexto das comunidades cristãs", sendo assim concordo com o que você disse, só que onde você usa o termo "Novo Testamento", eu uso o termo "Evangelho", mas isso é só uma questão de nomenclatura. Pensamos igual nesse ponto)

Talvez você argumente que nem tudo o que os apóstolos escreveram tem aplicação hoje, como as regras de Corinto e, por isso não tem a mesma autoridade do ensino direto de Jesus, nos evangelhos.(Não eu não digo isso) No entanto, até Jesus, nos evangelhos, ensinou algumas coisas que não tem aplicação hoje, pois Jesus viveu numa época de transição, no final do Velho Testamento (o Novo Testamento começou de fato com Sua morte, ressurreição e o Pentecostes). Um exemplo disso é o que Jesus disse aos escribas e fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas." (Mt.23.23). Jesus diz que eles deveriam dar o dízimo, no entanto, o dízimo é um mandamento que não faz parte da lei moral de Deus, não sendo mais obrigatório no Novo Testamento. O motivo de Jesus dizer isso é que no tempo em que ele estava vivendo (o final do Velho Testamento), o dízimo ainda era um mandamento que deveria ser obedecido, até que Jesus inaugurasse a Nova Aliança. O próprio Jesus se submeteu à lei e a cumpriu em todos os aspectos (ele só não cumpriu os acréscimos e exageros dos fariseus). Logo, esse ensino de Jesus não pode ser usado para provar a validade do dízimo, e creio que você mesmo não o faz, porque deve, assim como eu, acreditar que o dízimo já não é mais obrigatório hoje. Veja que esse ensino, assim como alguns ensinos dos apóstolos nas epístolas, também estava ligado às circunstâncias da época e não tem aplicação para nós hoje.(Então, é esse tipo de analise contextual, que devemos fazer. Está escrito sobre o dízimo, mas na verdade Jesus estava falando de misericórdia, que não vale nada guardar a Lei sem entender seu significado, porque assim você a adultera, o que pode ser perfeitamente transposto para nossos dias, de nada vale guardar a literalidade das epístolas e dos evangelhos sem entender seu significado. O que disse não é que o texto de Corintios não tinha autoridade, é que ele estava sendo interpretado errado, e por isso adulterado nos dias atuais, que hoje a aplicação do texto tem outro contexto, assim como esse texto de mateus, sendo analisado a Luz de Jesus, ou seja, hoje em dia aplicar a literalidade de Corintios não seria válida a Luz de Jesus, mas se preocupar em manter a ordem e não permitir que alguém perturbe ela, como as antigas sacerdotisas de afrodite, agora convertidas a Cristo, estavam tentando fazer, é perfeitamente válido segundo Jesus)

Tendo mostrado que tanto nas epístolas quanto nos evangelhos há ensinos que não se aplicam mais, acho importante enfatizar que isso é uma exceção e não a regra. Quase tudo o que Jesus e os apóstolos ensinaram é válido para nós hoje.(Quase tudo não, eu diria tudo, só é necessário entender o sentido que foi aplicado naquele contexto)

Quanto à natureza da Bíblia há muito mais para falar, mas vou parar por aqui, pois o assunto já está entrando na questão da interpretação.

2- A Interpretação da Bíblia

Existem muitos métodos de interpretação da Bíblia, que podem ser datados desde os pais da igreja. Logo no início da era cristã apareceu a interpretação alegórica da Bíblia, numa tentativa de conciliar o cristianismo com a filosofia grega, como Filo já havia feito antes com o judaísmo. Esse tipo de interpretação foi bastante comum em Alexandria, com Clemente, Orígenes e seus sucessores. Por outro lado, Antioquia adotou um método de interpretação mais literal, dando valor ao contexto histórico-gramatical do texto bíblico e à intenção original dos autores humanos.(Sim, disso eu sei, eu li Orígenes...rsrsrsr. Mas e então, como ficam as pessoas antes da chegada do método de Antioquia??)

Com Lutero temos o princípio de que a Bíblia é a sua própria intérprete, "a Escritura interpreta a Escritura", e nossa interpretação da Bíblia deve ser cristológica, pois tudo aponta para Cristo. Calvino retomou a hermenêutica de Antioquia, dando valor ao método histórico-gramatical de interpretação. Ele enfatizou também a importância do Espírito Santo na interpretação da Bíblia, sem o qual não é possível atingir uma compreensão exata das Escrituras. (Com certeza)Ele entendia que, pelo fato de a Bíblia ser divina e humana, tanto a oração pelo auxílio do Espírito Santo, quanto o estudo aprofundado do texto eram necessários para uma correta interpretação.

Eu acredito que a Bíblia foi escrita para ser entendida. Creio que o significado de um texto bíblico deve ser o mais natural e óbvio possível, para que até o simples possa entender (Sl.119.130). Não gosto de alegorizações, que tentam buscar um significado mais profundo para um texto bíblico, além do óbvio. Por isso, eu não aceito o método alegórico de interpretação e creio que você também não. Creio que o método que faz justiça ao significado original das passagens bíblicas é o histórico-gramatical, adotado por Antioquia, Lutero, Calvino e todos os protestantes.(Todos os protestantes como você sabe é um termo abrangente demais, principalmente nos últimos 2 seculos)(Concordo com sua escolha de método, mas até aí é uma preferência pessoal, que não pode ser corroborada "biblicamente", rsrsrsrs)

Além disso, eu aceito também o princípio de Lutero de que a Escritura é sua própria intérprete. Como eu creio que a Bíblia tem o mesmo autor divino, creio por dedução que ela não pode apresentar nenhuma contradição(Nenhuma contradição de sentido, mas existem palavras contraditórias como aquelas que eu te citei, aí entra o caratér humano). Ela é uma unidade, um todo harmonioso, de tal forma que passagens obscuras podem ser entendidas através de passagens mais claras. Acho importante mencionar aqui o valor de concordâncias bíblicas, que você pareceu desconsiderar no seu último e-mail. O valor delas está justamente em ajudar a encontrar passagens paralelas ou que tratam do mesmo assunto, permitindo a utilização deste princípio de que a Bíblia se auto-interpreta.(Eu não desconsidero as concordãncias bíblicas, considero as concordâncias inconsequentes, sem que sejam levados em conta o significado do contexto, e que são utilizadas, muitas vezes de forma inconsciente, para justificar uma idéia, como comentei anteriormente. Isso se deve ao fato de lermos a bíblia em versículos e capítulos. Embora sejam uma ferramenta preciosa para buscar referências, tendem a nos isolar a leitura, pinçando textos fora de contexto e do raciocínio do autor. Muitas vezes mutilam uma sequência de pensamento, quebrando o mesmo em capítulos e roubando sua continuidade. Acho que você não entendeu meu ponto de vista)

Outro princípio que eu tenho para a interpretação é sobre a centralidade de Cristo. Mas aqui, como eu já disse, creio que pensamos diferente. Esse princípio eu baseio no que o autor da carta aos Hebreus escreveu: "Havendo Deus outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho" (Hb.1.1). Eu creio que Deus se revelou progressivamente ao homem no Velho Testamento, e tal revelação atingiu seu clímax e completude em Cristo Jesus, que é a plenitude da revelação de Deus. Logo, tudo o que aconteceu e está registrado no Velho Testamento é sombra da realidade da Nova Aliança, e tudo aquilo deve ser interpretado à luz dela.(Não vejo nenhuma diferença de pensamento aqui, apenas divergencia de nomenclaturas)

Agora, a coisa não funciona bem assim quando vamos interpretar o Novo Testamento, porque ele todo já é a plenitude da revelação de Deus. Ele é o nosso padrão para interpretação da Bíblia e não existem "sombras" no Novo Testamento. O máximo que você irá encontrar são algumas coisas circunstanciais, ou porque o Velho Testamento ainda não tinha terminado (como nos evangelhos) ou para não escandalizar cristãos judeus que ainda guardavam a lei (como nas epístolas), ou ainda por questões culturais de determinado povo (como o uso do véu em Corinto). Em todos esses casos, o segredo da correta interpretação é comparar um ensino específico com o ensino geral do Novo Testamento (que é o ensino de Jesus, tanto por Sua boca quanto pela boca dos apóstolos) para discernir o que é fundamental e o que é circunstancial. Essa comparação funciona em dois sentidos, tanto comparando o ensino das epístolas com o ensino dos evangelhos, quanto comparando o ensino dos evangelhos com o das epístolas, lembrando que é uma única e mesma doutrina ensinada em ambos.(Mais uma vez, onde você diz "Novo Testamento eu digo Evangelho, mas os significados são os mesmos, eo Evangelho está presente tanto nas epístolas quanto nos textos do evangelhos")

Perceba como eu coloco em pé de igualdade o ensino de Jesus e o dos apóstolos(O Ensino dos apóstolos É O ensino de Jesus). Não estou colocando em pé de igualdade suas pessoas, mas seu ensino. O Caio disse certa vez que os apóstolos são relativizados quando comparados a Jesus, e eu concordo com isso. No entanto, suas pessoas é quem são relativizadas e não seu ensino(Concordo, o Caio sempre diz que a exceção de Cristo, o mensageiro é relativo, mas a mensagem é absoluta, coisa alias que não é usada hoje em dia), que é o mesmo ensino de Jesus. A doutrina dos apóstolos é a doutrina de Cristo. Por isso, eu posso e devo julgar certas atitudes dos apóstolos no livro de Atos à luz das atitudes e ensinos de Jesus. A briga de Paulo e Barnabé (At.15.39), por exemplo, não pode ser utilizada como pretexto para brigas ministeriais. Paulo e Barnabé eram humanos e sujeitos ao pecado, como todo ser humano, e se analisarmos essa atitude à luz da pessoa de Cristo veremos que eles estavam errados. No entanto, quando Paulo abria a boca para falar ou pegava sua pena para escrever, ele ensinava aquele evangelho que lhe foi confiado, o mesmo pregado por Jesus.(SIM)

Com tudo isso em mente, algumas coisas que talvez você considere circunstanciais nas epístolas eu considero fundamentais(Então, não tivemos essa conversa, se seu raciocínio seguir em cima de especulação , todas as conclusões serão especulações também), fundamentais no sentido de terem aplicação ainda hoje e serem válidas para todos os tempos. Ensinos referentes ao governo da igreja, à celebração dos sacramentos (ou ordenanças), aos ministérios e dons espirituais na igreja, ao casamento e divórcio, à liderança masculina na família e na igreja, e muitos outros são tão válidos hoje quanto as doutrinas da graça(Você trata as coisas como coisas diferentes, a Graça embarca todos esses ensinamentos), pois todos esses ensinos se baseiam nas grandes realidades espirituais do evangelho de Cristo.

Apenas para concluir este longo e-mail, gostaria de comentar seus últimos parágrafos no último e-mail:

Não sou contra a Bíblia, e é óbvio que ela me indica sobre jesus, me mostra o caminho para o Caminho. No entanto a simples leitura da Bíblia, não te leva a compreensão do Verbo. Se assim fosse a maioria do mundo contemporâneo seria Cristão msm, já que a Bíblia é o livro mais vendido do mundo. Ler a Bíblia, ou as escrituras ou as cartas é um exercício de reflexão. A mensagem só é assimilada quando ganha significado dentro de nós ("a Lei escrita no coração").

Concordo com você, uma simples leitura da Bíblia não leva a uma compreensão do Verbo se ela não for acompanhada por uma obra sobrenatural do Espírito Santo no coração. Por outro lado, não há outro meio de eu compreender o Verbo, senão pela leitura (ou pregação) da Palavra de Deus, a Bíblia.(A compreensão vêm pela revelação do Espírito, como disse Calvino, a a bíblia me trás a informação, mas o conhecimento é revelado. Você trata como se eu estivesse excluindo o uso da bíblia, no meu paragrafo disse que é um exercício de reflexão, não existe reflexão sem leitura)

Concordo que depois da morte dos apóstolos a Biblia é a nossa fonte de informação sobre Jesus, mas no entanto Jesus nunca quis que fossemos a "religião do livro" com os Judeus foram. Se prender apenas na letra, procurando por concordancias e obediencia inscocientemente cega, nos faz viver apenas pela letra e não pelo espírito, e corremos o risco de virarmos Bibliolátras e não Cristãos. Os apóstolos não precisavam abrir um Bíblia para falar, pq tudo estava no coração. Se eu entender a mensagem do perdão e da minha insuficiencia eu poderia entender o sermão do monte sem nunca te-lo lido. Não estou dispensando aqui a leitura da Bíblia, estou apenas pedindo para que não se viva pela letra.

Eu acho que entendo sua preocupação em que o evangelho esteja no coração e não apenas nas páginas da Bíblia. No entanto, eu creio que a realidade evangélica hoje está longe de pessoas que idolatram a Bíblia ou são "Bibliólatras", como você disse. Na verdade, com o baixo conceito que a Bíblia tem no meio evangélico hoje, devido à ênfase exagerada em profetas e profetadas, eu creio que nosso mal é o exato oposto de uma idolatria da Bíblia: é um quase desprezo dela.(Na verdade não existe um desprezo, porque tudo o que se faz hoje foi tirado dela, em contexto muuuuuito equivocados é claro. Não é o fato de dar importãncia ou não, que nos torna "Bibliólatras", mas a maneira como você a lê)

É importante mencionar o alto conceito que Jesus tinha pelas Escrituras do Velho Testamento. Ele as citava com frequência como Palavra de Deus, sendo seguido por todos os apóstolos em suas epístolas. Se fazer isso é ser uma "religião do livro", então eu não me importo, porque é a mesma atitude que os primeiros cristãos tinham para com as Escrituras.(Mais uma vez você não entendeu o que eu disse, não tenho nada contra citar a Bíblia, só tenho contra quem faz isso inconsequentemente, que obviamente não é o caso de Jesus e dos apóstolos) Eu acho difícil exagerar a importância da Bíblia para o Cristianismo, já que, como eu disse, ela é a nossa única fonte de informação sobre Jesus. Ela é o único lugar onde eu tenho acesso à revelação de Deus quanto aos assuntos pertinentes à salvação e à vida eterna. O único lugar onde eu posso encontrar o evangelho é na Bíblia. Ela é a Palavra de Deus para o mundo e como tal merece o devido respeito e atenção.(Não estou medindo a importância da Bíblia, mas minha preocupação é a mesma que Paulo teve com seus irmão judeus quando dizia que quando eles liam moisés tinham um véu sobre sua face, que os impedia de compreender o que moises realmente dizia. E quando ele cita móises como você deve saber, ele se refere ao pentateuco, que é o conceito de "Sagradas Escrituras que ele tinha". E ele não teve pudor de dizer que moisés é menor que a mensagem do evangelho. O que a gente não vê quando lê isso, é que essa mensagem serve para nós mesmos. Onde se ler judeus leia legalista, onde se lê moises, leia-se bíblia. Ou seja "até hoje quando lêem a Bíblia, um véu está sobre sua face". É disso que falo, de pessoas que ficam regorjitando versículos para si mesmas em debates de vaidade intelectual e acreditam que estão servido a Deus. É isso que eu chamo de "religião do livro", como os antigos fariseus e saduceus faziam.)

Se Jesus é maior que a bíblia então ele a interpreta. Se ela me leva a Ele e fica dificil entender essa relação, então...paciência. A essência da Graça é e sempre será paradoxal, Deus não precisa atender nossas necessidades lógicas de explicação. Viver pela fé também é crer quando tudo diz o contrário.

Creio que já expliquei suficientemente qual a minha compreensão sobre Jesus ser a chave interpretativa da Bíblia. E de acordo com esse entendimento, eu posso também dizer que a Bíblia interpreta Jesus, seguindo a lógica e o óbvio, já que a Bíblia é o único lugar onde eu leio a respeito de Jesus, como eu já disse anteriormente. O Jesus que eu conheço é o Jesus que a Bíblia me apresenta.(Como eu já citei a Biblia me trás a informação acerca do Verbo, o Verbo revelado me faz reler a informação que me trouxe até ele. Se você não concorda, então devemos dizer isso a Paulo, pois foi o que ele fez quando conheceu ao Senhor. As Escrituras apontavam para o Verbo, e quando ele percebeu isso, ele "reinterpretou a escritura que o havia levado até o Verbo")

Sobre os paradoxos, já deu pra perceber que você gosta bastante deles, rsrs. Eu particularmente não(Nossa única diferença é que eu identifico meu paradoxos, voce talvez os faça de forma inconsciente). Não acredito que todos os ensinos bíblicos possam ser compreendidos de uma forma cabal e total, mas creio que nós não podemos parar e afirmar um paradoxo antes de examinar tudo o que as Escrituras ensinam sobre um determinado assunto.(Concordo, mas até onde não usei isso na minha afirmação anterior?) A Bíblia é muito mais coerente e a fé é muito mais racional do que algumas pessoas imaginam (Concordo também, mas ser racional não significa não reconhecer os paradoxos, até porque o conceito de paradoxo foi criado pela lógica clássica).

Eu acredito que só existe uma lógica, tanto para Deus quanto para o homem(Ai você está entrando num erro lógico, se eu crio algo, significa que sou externo a esse algo e não estou sujeito ao comportamento desse algo, no caso a lógica. Deus não está sujeito a lógica, uma vez que Ele a criou, como não está sujeito ao tempo. Ele pode se sujeitar se assim quiser, mas isso não é garantia que Ele sempre esteja. Mas como você disse, isso é algo que você acredita, e se você crê assim, meu argumentos lógicos,rsrsrs, pouco importam), e a nossa razão é um dos aspectos em que somos a imagem e semelhança de Deus(Sim, mas isso não siginifica que nosso raciocínio seja igual ao dele, semelhante não é idêntico). Se não fosse assim, seria impossível acreditar que existe uma Verdade, e o conhecimento seria impossível. Dizer que Jesus é o Verbo (Logos) não é apenas dizer que Ele é a Palavra de Deus, mas que também é a Lógica de Deus. Tudo o que Deus faz e tudo o que a Bíblia diz é lógico e verdadeiro por essência. Quando não compreendemos algo totalmente isso não significa que Deus usa uma lógica diferente da nossa(Não disse que Deus usa uma lógica diferente, talvez Ele não use lógica nenhuma, para Paulo isso era perfeitamente plausível, mas ao invès disso ele usa a metáfora do espelho embaçado), e sim que nós fomos de tal forma afetados pelo pecado, inclusive em nossa razão, que muitas vezes somos ilógicos em nossos raciocínios e não entendemos tudo o que a Bíblia ensina de forma lógica(Hmmm... aí vc me confundiu, que tipo de lógica você se refere? A lógica clássica? Se sacrificar por amor a alguém é completamente ilógico, mas plausível para a natureza de Deus, uma vez que ele se entregou e imputou sobre si mesmo a justiça que era destinada a nós. Amor não é lógico andré. Existem sim raciocínios lógicos na bíblia, mas existe um certo ponto, como você disse, que é impossível entender os propósitos de Deus, dái para frente nossa lógica não funciona e a gente tem que crêr. A Graça é paradoxal, isso qualquer bom teológo desses que você citou sabe. Não tenha medo disso. Como você, mesmo viu, não pensamos diferente, nossas diferenças são meramente sobre nomenclaturas. Você acha importante as definições teológicas, eu não, e isso não me prejudicou).

Bom, esse é o meu pensamento sobre a natureza e interpretação da Bíblia. Espero que tenha sido claro. Fique à vontade para perguntar e comentar.

Que Deus te abençoe grandemente!

Deus te abençoe também

Abraços,

André Aloísio

Vitor

De: André Aloísio Oliveira da Silva
Para: Vitor Hugo Queiroz
Data: 17/04/2008, 13:17

Olá Vitor,

Vou comentar em baixo do que você escreveu e vai ficar uma doidera só, tudo misturado, rsrs. Mas vamos lá.

A Bíblia é a Palavra de Deus. Ela não apenas contém a Palavra de Deus, ou se torna a Palavra de Deus em determinadas situações. Ela é a Palavra de Deus porque é inspirada por Ele (II Tm.3.16-17)(Aqui está um ponto interessante que eu gostaria de comentar mais como uma curiosidade, que qualquer tipo de contextação, esse texto que você citou é usado para se referir a toda bíblia, no entanto esse é um ponto que citei no meu e-mail anterior, o de usar concordâncias biblicas de certa forma "inconsequentes", não quero dizer que se usa de má intenção, apenas é fruto de um precipitação. Se você ler o capítulo todo vai ver que nesse ponto Paulo falava do Antigo testamento e não do novo("desde criança você conhece as Sagradas Escrituras, diz ele a Timóteo"), até porque ele não saberia que leríamos essa carta dele para Timóteo como lemos as "Sagradas Escrituras", ou as "Escrituras", acho que o texto que contém o sentido que você busca provavelmente seria em 2 Pedro 15,16, onde Pedro compara a distorção das "Escrituras", com a distorção das cartas de Paulo, e mesmo aqui ele faz distinção entre uma e outra, não estou dizendo que as cartas não sejam inspiradas e não sejam "Escrituras Divinas", só que devemos tomar cuidado, nem sempre o que os apóstolos chamavam de escrituras é o que nós chamamos )


Concordo que II Tm.3.16-17 refere-se ao Antigo Testamento e não utilizei a passagem desconhecendo esse fato. No entanto, não vejo problemas em utilizá-la para falar da inspiração de toda a Bíblia por causa de algumas coisas que eu já mencionei no e-mail anterior. Eu acredito que a Escritura se auto-interpreta, que ela é uma unidade (por possuir o mesmo autor divino) e que eu posso deduzir verdades das Escrituras que estão implícitas no texto. São essas verdades que permitem a sistematização da doutrina bíblica e o surgimento da teologia sistemática. Fazer isso não é recortar textos e colar em lugares indevidos, porque uma vez que você interpreta um texto dentro do seu contexto e retira dele sua verdade geral, essa verdade pode ser utilizada para interpretar outros textos que tenham relação com essa mesma verdade.

Vejamos: a passagem de II Pe.3.15-16 que você mencionou trata as cartas de Paulo como "Escrituras". E a passagem de II Tm.3.16-17 diz que toda Escritura é inspirada por Deus. Isso permite deduzirmos uma verdade através de um silogismo aristotélico:

"Toda a Escritura é inspirada por Deus" (II Tm.3.16)

As cartas de Paulo são Escrituras (II Pe.3.15-16 )

Logo, as cartas de Paulo são inspiradas por Deus

Esse silogismo permite que eu utilize a passagem de II Tm.3.16 para as cartas de Paulo, mesmo que essa não tenha sido a intenção original dele. De forma semelhante, através de outras passagens, podemos provar a inspiração do Antigo Testamento de forma geral, de vários livros do Antigo Testamento especificamente e também de alguns livros do Novo Testamento, como as cartas de Paulo.

Apesar disso, devo reconhecer que nós não podemos provar com a própria Bíblia a inspiração de todos os livros que estão no cânon. Aqui entra a questão de nossos pressupostos, assunto que inclusive nós já conversamos anteriormente por MSN. Toda cosmovisão, seja uma religião ou filosofia, deve ter um pressuposto inicial, não provável, que serve como base para todas as demais verdades ensinadas por tal sistema. Se esse pressuposto inicial fosse provável, então ele não seria inicial, e haveria outro antes dele, e assim infinitamente. Nós cremos que todos os livros da Bíblia são inspirados por Deus, e cremos nisso totalmente pela fé. "Toda a Bíblia é a Palavra de Deus" é nosso pressuposto básico e à partir dele chegamos às verdades do Cristianismo. Como nós somos cristãos e não temos problemas com isso, vou parar por aqui. Apenas digo que é por esse motivo que os cristãos utilizam a verdade de II Tm.3.16 para toda a Bíblia, porque crêem que o Novo Testamento é tão inspirado por Deus quanto o Antigo, e crêem nisso baseados em passagens como a de II Pe.3.15-16 e, onde não pode ser provado, crêem por pura fé, como um pressuposto básico.

e porque os homens que a escreveram foram "movidos pelo Espírito Santo" (II Pe.1.20-21)(Mais uma vez, a exemplo do meu comentário anterior, aqui o autor se refere aos Profetas, e isso se dava porque ele enfrentava um movimento gnóstico que desprezava o testemunho dos profetas e dos apóstolos, para falar da mensagem de Jesus. A defesa dos apóstolos ele faz no verso 16 e em seguida faz uma defesa em mesmo tom, mas nesses versos que você citou. Portanto o contexto que Pedro faz referências nesse texto não é aos apóstolos, mas aos Profetas. Reinterando que não estou duvidando da inspiração divina dele, apenas mostrando que essa passagem não tem o sentido que você quer expressar).

Concordo com o que você disse e aqui vale o que eu já disse no comentário acima.

Quando digo que ela é inspirada por Deus, e que Deus se utilizou de seres humanos para tal trabalho, quero dizer que Deus fez a coisa de tal forma que cada palavra escrita nos manuscritos originais foi exatamente o que Ele pretendia escrever. Ele não apenas inspirou idéias no coração dos autores humanos, deixando a eles o trabalho de escolherem a melhor forma de expressarem essas idéias, mas inspirou e escreveu as próprias palavras utilizadas. Mas isso foi feito de tal forma que a personalidade e cultura dos autores humanos não foi afetada mas, pelo contrário, preservada na composição dos textos bíblicos.(Você diz mais para frente que eu gosto de paradoxos, mas aqui você acaba de ser paradoxal também, rsrsrs)

Aqui, dois comentários. Primeiro, eu não fui paradoxal nesta afirmação e vou demonstrar isso. Eu acredito na soberania de Deus, como você bem sabe. Para mim, Deus é a realidade que a tudo determina e nada foge ao seu controle, nem mesmo nossas ações e vontade. Portanto, o fato de Deus ter escrito cada palavra da Bíblia, utilizando para isso instrumentos humanos que conservaram suas características humanas, como personalidade, cultura, etc, não é um paradoxo. Seria um paradoxo para um arminiano que crê na inspiração verbal-plenária, mas não para um calvinista, rsrs. Para usar uma ilustração, Deus escreveu a Bíblia usando canetas de diversas cores. As palavras escritas são exatamente aquelas que Deus queria utilizar, já que foi Ele mesmo quem escreveu, mas cada palavra saiu com uma cor diferente, de acordo com a caneta utilizada para tal trabalho. Isso não é o mesmo que a teoria do ditado, porque Deus não apenas ditou as palavras, mas conduziu a vontade dos seres humanos e todas as situações de tal modo que o resultado final foi Sua Palavra, com todas as Suas palavras.

Isso não é contrário à liberdade humana, se soubermos definir bem o que é ser livre. Liberdade não é ter a possibilidade de agir diferente de como se agiu, mas agir de acordo com a própria vontade. Como Deus controla nossas vontades, nós podemos agir como queremos e ao mesmo tempo agir como Deus quer. Foi isso que aconteceu na inspiração, lembrando que a palavra "inspiração" no grego significa "expiração". Deus "expirou" Suas palavras através de instrumentos humanos. Por isso eu não acredito que a inspiração verbal-plenária seja um paradoxo. Eu não expliquei melhor no e-mail anterior a relação entre Deus e os seres humanos na inspiração para não fugir muito do assunto, como aconteceu agora.

Segundo, eu disse que não gosto de paradoxos, mas em nenhum momento disse que eles não existem ou que eu mesmo não seja paradoxal em algumas doutrinas. Existem doutrinas nas quais chegamos a paradoxos difíceis de solucionar, como por exemplo a Trindade. Mas isso acontece porque a Bíblia não explica totalmente a relação entre a unidade de Deus e sua tri-personalidade, não porque isso não seja lógico.

Nesse aspecto nós pensamos diferente, já que, pelo que me escreveu, você não crê que cada palavra das Escrituras foi literalmente escrita por Deus(tirando algumas exceções que citei no e-mail anterior, Deus não escreveu de próprio punho, ou ditou as palavras, Ele as inspirou). A minha concepção é chamada de inspiração verbal-plenária e, na minha opinião, é a única que se enquadra no conceito bíblico de inspiração. Somente crendo que toda a Bíblia é inspirada por Deus, inclusive cada uma de suas palavras, podemos confiar que os autores humanos não falharam no que escreveram, nem expressaram mal o que Deus tencionava dizer. (Eu conheço a concepção verbal plenária, e quando digo que Deus não escreveu literalmente, não digo que as palavras estão incorretas ou expressam mal a vontade de Deus, isso eu jamais disse. Apenas disse que as palavras estão sujeitas ao seu contexto histórico, que deve ser analisado, para não ficarmos com a interpretação literal, sem no entanto captar o que o autor estava tentando dizer. Isso se resume a frase "Está escrito, mas não está dito", sendo que embora as palavras digam algo para nós hoje, talvez não seja esse significado, que o autor quis inputar no contexto em que ele escreveu as palavras. Como eu disse acredito que toda a Bíblia seja inspirada, e que também exista características culturais de cada autor. Isso é um paradoxo, como citei que você havia mencionado, mas acredito que de certa forma nem percebeu isso. Esse é mais um daqueles casos em que tentamos dizer a mesma coisa mas de formas diferentes).

Bom, eu não estou tão certo assim que estamos dizendo a mesma coisa. Nossos conceitos de inspiração parecem diferentes mesmo.

Reafirmo que a inspiração é um paradoxo para você, não para mim, como já expliquei acima. Grande parte dos paradoxos surgem quando não levamos certas verdades da Bíblia até às últimas consequências, como por exemplo a soberania de Deus. Quando paramos no meio do caminho, talvez por medo de mergulhar mais profundamente, a única forma de "entender" certas relações é afirmando paradoxos. Mas eu não acho que esse seja o melhor caminho.

Essa discussão sobre a inspiração leva-nos a algumas conclusões, nas quais nós dois concordamos, creio eu. Como a Bíblia é inspirada por Deus, ela é infalível e inerrante, não contendo nenhuma espécie de falha ou erro (Jo.10.35) (Mais uma vez Jesus faz referência ao antigo testamento, mais precisamente ao Salmo 58, devido ao fato dos Judeus quererem apedrejá-lo, pois se dizia Filho de Deus, citando o fato que Deus chamou os próprios legisladores de Israel de deuses. Mais uma vez, não discordo da sua opnião mas sua referência não expressa o sentido que você quer me passar.).

Mais uma vez (rsrs) esta passagem pode ser utilizada para com outras Escrituras, e não apenas para com o Salmo 58. Uma vez que Jesus afirma uma verdade geral - a Escritura não pode falhar - qualquer livro que for provado (ou pressuposto) como Escritura entra nessa definição de Jesus.

Essa inerrância e infalibilidade são válidas inclusive para os dados históricos, científicos, arqueológicos, culturais, etc, pois se houvesse falha nessas áreas, obviamente seria possível ter falhas nos ensinos morais, espirituais, teológicos e por aí vai.

(Hmmm... então você está atribuindo valores divinos a coisas circunstâncias. Se você analisar os livros de Cronica se de Reis, verá que existem números citados de forma diferente. Isso não quer dizer que usou de ma fé para escrever, mas que talvez a exatidão nos números não fosse tão importante. E olha que não estamos falando de um estudo secular sobre a Bíblia, estamos comparando livros que narram as mesmas situações. Quer um exemplo? "I Reis 4:26 vs II Crônicas 9:25 ", e então qual dos dois Deus mandou escrever? 4 ou 40? Para mim, não faz diferença, porque em sendo 4 ou sendo 40 eu acredito que Deus estava agindo, nos dois livros. Talvez o autor tivesse se confundido com os números, mas nesse caso um número incorreto ou mal escrito não invalida minha fé. Se minha fé fosse invalidada por isso, então ela não era tão grande assim. Outro exemplo? Mateus 1:16 vs Lucas 3:23 , onde nos perguntamos, quem é o avó terreno de Jesus, Jacó ou Eli? Percebe como existem pequenas discordâncias que nos levam a discussões inúteis? Não vou deixar de crer que Jesus é realmente Deus encarnado, porque Lucas atribui outro nome diferente de Mateus para o avô dele. Não vou entrar numa crise duvidando da legitimidade da bíblia porque talvez salomão tivesse 4 mil e não 40 mil cavalos. Se preocupar com a veracidade desses fatos tira meu foco da mensagem entende? )

Aqui você dá dois exemplos do que seria uma falha no que está escrito, mas não no que está dito, como você gosta de dizer. A Bíblia teria falhas ou incoerências nas palavras, mas não no sentido. Foi isso que eu entendi. Eu não posso concordar pelo motivo que citei no e-mail anterior: qualquer tipo de falha na Bíblia, por mínima que fosse, abriria a possibilidade para falhas muito maiores, inclusive em doutrinas fundamentais. Por isso eu não acho que esse tipo de discussão é inútil.

Vou explicar como entendo os dois exemplos que você deu. Primeiro, os números são realmente diferentes, e isso não acontece somente nessas passagens, mas em muitas outras. Eu explico esse fato pelos erros de copistas e tradutores. Nós não temos os manuscritos originais, apenas cópias e traduções, e essas diferenças mínimas seriam naturais para homens falhos (os copistas e tradutores não foram inspirados). Se você comparar o texto massorético e a Septuaginta, por exemplo, irá observar muitas diferenças em Gênesis, na idade dos descendentes de Adão. Os casos que você citou se enquadram neste mesmo problema. Esses erros de cópia e tradução realmente não abalam minha fé, mas se fossem provenientes dos manuscritos originais a história seria outra. A inspiração, infalibilidade e autoridade das Escrituras seriam afetadas.

Segundo, as duas genealogias, de Mateus e Lucas, são bem diferentes. O avó de Jesus é apenas uma dessas diferenças. Por serem tão diferentes uma da outra, tudo leva a crer que são duas genealogias diferentes mesmo, e não a mesma com algumas pequenas "falhas". O único problema para essa conclusão é que ambas genealogias chegam a José, "pai" terreno de Jesus. Isso tem sido explicado de diversas formas durante a história da igreja e eu mesmo não tenho nenhuma opinião definida sobre o assunto. Uma explicação bastante conhecida e tradicional é que a genealogia de Mateus é a genealogia de José, através de quem Jesus herda o trono de Davi, e a genealogia de Lucas é a de Maria, que O concebeu por obra do Espírito Santo. O motivo de Lucas ter colocado o nome de José no lugar do de Maria seria por questões culturais. Já li também (se não me engano na História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia) que havia uma tradição segundo a qual José teve um padrasto, sendo uma a genealogia do padrasto e outra a do pai. Mesmo que não saibamos a melhor explicação dessas passagens, como sabemos que a Bíblia é infalível, devemos crer que isso não constitui uma falha. Do contrário, é melhor rejeitar a infalibilidade e inspiração das Escrituras, como os liberais fazem.

Sempre que a Bíblia apresenta alguma contradição, essa contradição é apenas aparente e tem uma explicação. Se não conseguimos encontrar uma explicação para ela, isso não prova que a Bíblia seja falha, e sim que nós somos falhos por não percebermos que tais contradições são apenas aparentes. Isso sim é que é fé!

Desta forma, eu acredito que os evangelhos e epístolas têm o mesmo valor e importância quando vamos interpretar a Bíblia, e todo o Novo Testamento funciona como "chave hermenêutica", por assim dizer, porque todo ele apresenta o ensino de Jesus, que é o evangelho da graça. Não acredito que as epístolas sejam "tentativas dos apóstolos de vivenciar essa Verdade", como você disse, mas a própria Verdade, a mesma ensinada por Jesus e com a mesma autoridade.(Aqui cabe uma retratação minha, o termo "tentativas dos apóstolos de vivenciar essa Verdade", foi uma péssima escolha da minha parte, seria mais correto, dizer "A Verdade do evangelho em termos práticos, no contexto das comunidades cristãs", sendo assim concordo com o que você disse, só que onde você usa o termo "Novo Testamento", eu uso o termo "Evangelho", mas isso é só uma questão de nomenclatura. Pensamos igual nesse ponto)

Então eu fico mais tranquilo! ;-)

Talvez você argumente que nem tudo o que os apóstolos escreveram tem aplicação hoje, como as regras de Corinto e, por isso não tem a mesma autoridade do ensino direto de Jesus, nos evangelhos.(Não eu não digo isso)

Peço desculpas então, foi justamente por isso que eu disse "talvez".

No entanto, até Jesus, nos evangelhos, ensinou algumas coisas que não tem aplicação hoje, pois Jesus viveu numa época de transição, no final do Velho Testamento (o Novo Testamento começou de fato com Sua morte, ressurreição e o Pentecostes). Um exemplo disso é o que Jesus disse aos escribas e fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas." (Mt.23.23). Jesus diz que eles deveriam dar o dízimo, no entanto, o dízimo é um mandamento que não faz parte da lei moral de Deus, não sendo mais obrigatório no Novo Testamento. O motivo de Jesus dizer isso é que no tempo em que ele estava vivendo (o final do Velho Testamento), o dízimo ainda era um mandamento que deveria ser obedecido, até que Jesus inaugurasse a Nova Aliança. O próprio Jesus se submeteu à lei e a cumpriu em todos os aspectos (ele só não cumpriu os acréscimos e exageros dos fariseus). Logo, esse ensino de Jesus não pode ser usado para provar a validade do dízimo, e creio que você mesmo não o faz, porque deve, assim como eu, acreditar que o dízimo já não é mais obrigatório hoje. Veja que esse ensino, assim como alguns ensinos dos apóstolos nas epístolas, também estava ligado às circunstâncias da época e não tem aplicação para nós hoje.(Então, é esse tipo de analise contextual, que devemos fazer. Está escrito sobre o dízimo, mas na verdade Jesus estava falando de misericórdia, que não vale nada guardar a Lei sem entender seu significado, porque assim você a adultera, o que pode ser perfeitamente transposto para nossos dias, de nada vale guardar a literalidade das epístolas e dos evangelhos sem entender seu significado. O que disse não é que o texto de Corintios não tinha autoridade, é que ele estava sendo interpretado errado, e por isso adulterado nos dias atuais, que hoje a aplicação do texto tem outro contexto, assim como esse texto de mateus, sendo analisado a Luz de Jesus, ou seja, hoje em dia aplicar a literalidade de Corintios não seria válida a Luz de Jesus, mas se preocupar em manter a ordem e não permitir que alguém perturbe ela, como as antigas sacerdotisas de afrodite, agora convertidas a Cristo, estavam tentando fazer, é perfeitamente válido segundo Jesus)

Acho que para as coisas ficarem mais claras daqui para a frente é importante fazermos distinção entre três coisas: o que está escrito, o que isso significa e qual(ais) a(s) sua(s) aplicação(ões).

O que está escrito em determinado texto fica mais claro quando fazemos uma paráfrase do mesmo. Fazendo uma paráfrase de Mt.23.23, por exemplo, Jesus diz aos fariseus que eles deveriam dar o dízimo da hortelã, do endro e do cominho sem omitir as coisas mais importantes da lei, que são a justiça, a misericórdia e a fé. Isso é o que o texto diz, o que está escrito. Até aqui não ocorreu nenhuma busca pelo significado do texto, apenas uma repetição do que está escrito.

O que o texto significa é sinônimo do que o texto diz, usando seu vocabulário. Para descobrirmos o que o texto significa devemos interpretá-lo, e para isso existem métodos, como eu falei no meu e-mail anterior. No texto de Mt.23.23 especificamente devemos ter em mente aqueles três princípios que eu já mencionei para interpretação das Escrituras: a Escritura se auto-interpreta, o significado original do texto é aquele pretendido pelo autor humano (método histórico-gramatical) e Cristo e Seu ensino é o padrão de interpretação para toda a Bíblia.

Não vou descrever aqui todo o processo de exegese desse texto, mas já vou direto ao ponto. O texto significa que, no tempo em que Jesus disse isso, o dízimo era um mandamento obrigatório, mas que não teria validade alguma se fosse praticado desprezando-se a essência da lei, que Jesus descreve como sendo a justiça, misericórdia e fé. No contexto dessa passagem Jesus profere vários "ais" contra os fariseus pela sua hipocrisia, e esse texto é mais um desses "ais". Eles "cumpriam" a lei exteriormente, sem preocupar-se com a intenção do coração (que é o que realmente será julgado no último dia). É contra isso que Jesus se opõe no texto em questão, usando como exemplo disso a prática do dízimo, que ele aprova, desde que seja feita sem desprezar-se a essência do mandamento.

Agora, analisando toda a Bíblia a respeito do dízimo (podemos usar uma concordância! rsrs), percebemos que ele já era praticado antes da lei de Moisés, mas não como um mandamento obrigatório regular, e sim como uma prática voluntária esporádica. Foi assim com Abraão (Gn.14.18-20) e Jacó (Gn.28.20-22). Ele só passou a ter força de lei após Moisés. No Novo Testamento, com os apóstolos, não vemos nenhuma menção de que o dízimo ainda era praticado, nem um mandamento da parte dos apóstolos referente a ele (Hb.7 não fala sobre a obrigatoriedade do dízimo na Nova Aliança). Além disso, a prática do dízimo conforme requerida na lei (Lv.27.30-33; Dt.12.5-18) é impraticável hoje em dia. Esses fatos nos levam à conclusão de que o dízimo não é mais um mandamento obrigatório no Novo Testamento. Se alguém quiser doar 10% do seu rendimento mensal para o sustento da obra de Deus, baseando-se na voluntariedade do dízimo de Abraão e Jacó, fica livre para assim proceder, no entanto, isso não é mais um mandamento.

Voltando à Mt.23.23, devemos interpretar que Jesus aprovou o dízimo como um mandamento válido dentro do tempo em que vivia (o final do Antigo Testamento). Sua aprovação não pode ser aplicada aos nossos dias e, portanto, o significado do texto em si não é válido para nós hoje.

Agora entra o terceiro ponto mencionado por mim no início desses comentários, a aplicação do texto. Todo texto pode ter diversas aplicações, e as aplicações de um texto podem ser válidas para todos os tempos. O que você aplicou aos nossos dias não é bem o significado do texto, mas sua aplicação, com a qual eu concordo, e creio que poderíamos retirar do texto muitas outras aplicações. O mesmo pode ser dito da carta aos Coríntios. Nesse sentido não há nada na Bíblia que não seja válido para nós hoje, pois podemos aplicar aos nossos tempos tudo o que ela ensina, mesmo no Antigo Testamento, desde que a aplicação esteja baseada numa interpretação correta.

Tendo mostrado que tanto nas epístolas quanto nos evangelhos há ensinos que não se aplicam mais, acho importante enfatizar que isso é uma exceção e não a regra. Quase tudo o que Jesus e os apóstolos ensinaram é válido para nós hoje.(Quase tudo não, eu diria tudo, só é necessário entender o sentido que foi aplicado naquele contexto)

Aqui vale o que eu disse acima sobre interpretação e aplicação. Nem toda interpretação é válida para nós hoje, mas as aplicações sim. Aqui creio que dizemos a mesma coisa de forma diferente.

Existem muitos métodos de interpretação da Bíblia, que podem ser datados desde os pais da igreja. Logo no início da era cristã apareceu a interpretação alegórica da Bíblia, numa tentativa de conciliar o cristianismo com a filosofia grega, como Filo já havia feito antes com o judaísmo. Esse tipo de interpretação foi bastante comum em Alexandria, com Clemente, Orígenes e seus sucessores. Por outro lado, Antioquia adotou um método de interpretação mais literal, dando valor ao contexto histórico-gramatical do texto bíblico e à intenção original dos autores humanos.(Sim, disso eu sei, eu li Orígenes...rsrsrsr. Mas e então, como ficam as pessoas antes da chegada do método de Antioquia??)

Eu acho mais correto falar da chegada do método de Alexandria do que da chegada do método de Antioquia. Isso porque o método de Antioquia não foi uma invenção de Antioquia muitos anos depois de Jesus. É o método mais natural de interpretação de qualquer livro e já era utilizado nos tempos de Jesus (na verdade, centenas de anos antes). Então, a novidade não é o método de Antioquia, e sim o de Alexandria.

Eu acredito que a Bíblia foi escrita para ser entendida. Creio que o significado de um texto bíblico deve ser o mais natural e óbvio possível, para que até o simples possa entender (Sl.119.130). Não gosto de alegorizações, que tentam buscar um significado mais profundo para um texto bíblico, além do óbvio. Por isso, eu não aceito o método alegórico de interpretação e creio que você também não. Creio que o método que faz justiça ao significado original das passagens bíblicas é o histórico-gramatical, adotado por Antioquia, Lutero, Calvino e todos os protestantes.(Todos os protestantes como você sabe é um termo abrangente demais, principalmente nos últimos 2 seculos)(Concordo com sua escolha de método, mas até aí é uma preferência pessoal, que não pode ser corroborada "biblicamente", rsrsrsrs)

Concordo sobre a abragência do termo protestante, e isso é uma pena. Mas ao dizer "todos os protestantes" referia-me aos verdadeiros! ;-)

Sobre a escolha do método não é preferência pessoal, é a própria natureza da Bíblia que exige o método histórico-gramatical. Deus escreveu a Bíblia para ser entendido e compreendido, não para se ocultar atrás de significados alegóricos e espirituais que não estão no texto. Deus não se oculta na Bíblia, Ele se revela.

Além disso, eu aceito também o princípio de Lutero de que a Escritura é sua própria intérprete. Como eu creio que a Bíblia tem o mesmo autor divino, creio por dedução que ela não pode apresentar nenhuma contradição(Nenhuma contradição de sentido, mas existem palavras contraditórias como aquelas que eu te citei, aí entra o caratér humano)

Eu não posso concordar com isso, como já expliquei alguns comentários acima.

Ela é uma unidade, um todo harmonioso, de tal forma que passagens obscuras podem ser entendidas através de passagens mais claras. Acho importante mencionar aqui o valor de concordâncias bíblicas, que você pareceu desconsiderar no seu último e-mail. O valor delas está justamente em ajudar a encontrar passagens paralelas ou que tratam do mesmo assunto, permitindo a utilização deste princípio de que a Bíblia se auto-interpreta.(Eu não desconsidero as concordãncias bíblicas, considero as concordâncias inconsequentes, sem que sejam levados em conta o significado do contexto, e que são utilizadas, muitas vezes de forma inconsciente, para justificar uma idéia, como comentei anteriormente. Isso se deve ao fato de lermos a bíblia em versículos e capítulos. Embora sejam uma ferramenta preciosa para buscar referências, tendem a nos isolar a leitura, pinçando textos fora de contexto e do raciocínio do autor. Muitas vezes mutilam uma sequência de pensamento, quebrando o mesmo em capítulos e roubando sua continuidade. Acho que você não entendeu meu ponto de vista)

Se eu entendi corretamente, você não é contra concordâncias bíblicas, e sim contra o uso inadequado delas. Quanto a isso eu penso da mesma forma. Sobre a divisão da Bíblia em capítulos e versículos, foi algo que facilitou muito a nossa vida num certo sentido, mas também prejudicou a interpretação, por facilitar a mania de tirar o texto do seu contexto. E texto fora de contexto é pretexto! No entanto, é importante dizer que o problema não está nas concordâncias ou na divisão bíblica por capítulos e versículos, e sim no mal uso delas.

Outro princípio que eu tenho para a interpretação é sobre a centralidade de Cristo. Mas aqui, como eu já disse, creio que pensamos diferente. Esse princípio eu baseio no que o autor da carta aos Hebreus escreveu: "Havendo Deus outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho" (Hb.1.1). Eu creio que Deus se revelou progressivamente ao homem no Velho Testamento, e tal revelação atingiu seu clímax e completude em Cristo Jesus, que é a plenitude da revelação de Deus. Logo, tudo o que aconteceu e está registrado no Velho Testamento é sombra da realidade da Nova Aliança, e tudo aquilo deve ser interpretado à luz dela.(Não vejo nenhuma diferença de pensamento aqui, apenas divergencia de nomenclaturas)

Melhor assim! rsrs

Agora, a coisa não funciona bem assim quando vamos interpretar o Novo Testamento, porque ele todo já é a plenitude da revelação de Deus. Ele é o nosso padrão para interpretação da Bíblia e não existem "sombras" no Novo Testamento. O máximo que você irá encontrar são algumas coisas circunstanciais, ou porque o Velho Testamento ainda não tinha terminado (como nos evangelhos) ou para não escandalizar cristãos judeus que ainda guardavam a lei (como nas epístolas), ou ainda por questões culturais de determinado povo (como o uso do véu em Corinto). Em todos esses casos, o segredo da correta interpretação é comparar um ensino específico com o ensino geral do Novo Testamento (que é o ensino de Jesus, tanto por Sua boca quanto pela boca dos apóstolos) para discernir o que é fundamental e o que é circunstancial. Essa comparação funciona em dois sentidos, tanto comparando o ensino das epístolas com o ensino dos evangelhos, quanto comparando o ensino dos evangelhos com o das epístolas, lembrando que é uma única e mesma doutrina ensinada em ambos.(Mais uma vez, onde você diz "Novo Testamento eu digo Evangelho, mas os significados são os mesmos, eo Evangelho está presente tanto nas epístolas quanto nos textos do evangelhos")

Então quanto a isso estamos de acordo.

Perceba como eu coloco em pé de igualdade o ensino de Jesus e o dos apóstolos(O Ensino dos apóstolos É O ensino de Jesus). Não estou colocando em pé de igualdade suas pessoas, mas seu ensino. O Caio disse certa vez que os apóstolos são relativizados quando comparados a Jesus, e eu concordo com isso. No entanto, suas pessoas é quem são relativizadas e não seu ensino(Concordo, o Caio sempre diz que a exceção de Cristo, o mensageiro é relativo, mas a mensagem é absoluta, coisa alias que não é usada hoje em dia), que é o mesmo ensino de Jesus. A doutrina dos apóstolos é a doutrina de Cristo. Por isso, eu posso e devo julgar certas atitudes dos apóstolos no livro de Atos à luz das atitudes e ensinos de Jesus. A briga de Paulo e Barnabé (At.15.39), por exemplo, não pode ser utilizada como pretexto para brigas ministeriais. Paulo e Barnabé eram humanos e sujeitos ao pecado, como todo ser humano, e se analisarmos essa atitude à luz da pessoa de Cristo veremos que eles estavam errados. No entanto, quando Paulo abria a boca para falar ou pegava sua pena para escrever, ele ensinava aquele evangelho que lhe foi confiado, o mesmo pregado por Jesus.(SIM)

Aqui também pensamos da mesma forma.

Com tudo isso em mente, algumas coisas que talvez você considere circunstanciais nas epístolas eu considero fundamentais(Então, não tivemos essa conversa, se seu raciocínio seguir em cima de especulação , todas as conclusões serão especulações também)

Neste ponto eu não entendi o que você quis dizer, sinceramente.

fundamentais no sentido de terem aplicação ainda hoje e serem válidas para todos os tempos. Ensinos referentes ao governo da igreja, à celebração dos sacramentos (ou ordenanças), aos ministérios e dons espirituais na igreja, ao casamento e divórcio, à liderança masculina na família e na igreja, e muitos outros são tão válidos hoje quanto as doutrinas da graça(Você trata as coisas como coisas diferentes, a Graça embarca todos esses ensinamentos), pois todos esses ensinos se baseiam nas grandes realidades espirituais do evangelho de Cristo.

Acho que aqui você não me entendeu. Por "doutrinas da graça" eu me referi a ensinos muito específicos pertencentes à soteriologia calvinista, quais sejam: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os outros assuntos que eu mencionei obviamente são diferentes das "doutrinas da graça" conforme a definição acima. Mas eu concordo que a graça embarca todos esses ensinamentos.

Concordo com você, uma simples leitura da Bíblia não leva a uma compreensão do Verbo se ela não for acompanhada por uma obra sobrenatural do Espírito Santo no coração. Por outro lado, não há outro meio de eu compreender o Verbo, senão pela leitura (ou pregação) da Palavra de Deus, a Bíblia.(A compreensão vêm pela revelação do Espírito, como disse Calvino, a a bíblia me trás a informação, mas o conhecimento é revelado. Você trata como se eu estivesse excluindo o uso da bíblia, no meu paragrafo disse que é um exercício de reflexão, não existe reflexão sem leitura)

Então agora estamos entendidos irmão.

Eu acho que entendo sua preocupação em que o evangelho esteja no coração e não apenas nas páginas da Bíblia. No entanto, eu creio que a realidade evangélica hoje está longe de pessoas que idolatram a Bíblia ou são "Bibliólatras", como você disse. Na verdade, com o baixo conceito que a Bíblia tem no meio evangélico hoje, devido à ênfase exagerada em profetas e profetadas, eu creio que nosso mal é o exato oposto de uma idolatria da Bíblia: é um quase desprezo dela.(Na verdade não existe um desprezo, porque tudo o que se faz hoje foi tirado dela, em contexto muuuuuito equivocados é claro. Não é o fato de dar importãncia ou não, que nos torna "Bibliólatras", mas a maneira como você a lê)

Então você chama de "bibliólatras" aqueles que utilizam a Bíblia de forma incorreta. Nesse sentido existem muitos nas igrejas evangélicas atualmente. Mas eu continuo chamando isso de desprezo pela Bíblia, porque eles não lêem a Bíblia como ela é, mas como eles querem que ela seja.

É importante mencionar o alto conceito que Jesus tinha pelas Escrituras do Velho Testamento. Ele as citava com frequência como Palavra de Deus, sendo seguido por todos os apóstolos em suas epístolas. Se fazer isso é ser uma "religião do livro", então eu não me importo, porque é a mesma atitude que os primeiros cristãos tinham para com as Escrituras.(Mais uma vez você não entendeu o que eu disse, não tenho nada contra citar a Bíblia, só tenho contra quem faz isso inconsequentemente, que obviamente não é o caso de Jesus e dos apóstolos)

Certo, agora eu entendi. Também sou contra isso.

Eu acho difícil exagerar a importância da Bíblia para o Cristianismo, já que, como eu disse, ela é a nossa única fonte de informação sobre Jesus. Ela é o único lugar onde eu tenho acesso à revelação de Deus quanto aos assuntos pertinentes à salvação e à vida eterna. O único lugar onde eu posso encontrar o evangelho é na Bíblia. Ela é a Palavra de Deus para o mundo e como tal merece o devido respeito e atenção.(Não estou medindo a importância da Bíblia, mas minha preocupação é a mesma que Paulo teve com seus irmão judeus quando dizia que quando eles liam moisés tinham um véu sobre sua face, que os impedia de compreender o que moises realmente dizia. E quando ele cita móises como você deve saber, ele se refere ao pentateuco, que é o conceito de "Sagradas Escrituras que ele tinha". E ele não teve pudor de dizer que moisés é menor que a mensagem do evangelho. O que a gente não vê quando lê isso, é que essa mensagem serve para nós mesmos. Onde se ler judeus leia legalista, onde se lê moises, leia-se bíblia. Ou seja "até hoje quando lêem a Bíblia, um véu está sobre sua face". É disso que falo, de pessoas que ficam regorjitando versículos para si mesmas em debates de vaidade intelectual e acreditam que estão servido a Deus. É isso que eu chamo de "religião do livro", como os antigos fariseus e saduceus faziam.)

Entendo. Existe muito debate teológico infrutífero, de pessoas que debatem pelo simples prazer da polêmica e discussão. São pessoas que tem o evangelho na língua, mas não no coração. Conhecem a Bíblia, mas não conhecem o Deus da Bíblia, pois nunca tiveram um encontro pessoal com Ele, através de Jesus Cristo. Todos os grandes homens de Deus da história que eu conheço pregaram contra esse tipo de coisa. Já na era apostólica Tiago nos alertou contra esse perigo (Tg.1.22-27.). E eu também sou contra essa "religião do livro".

O que não pode acontecer é nós jogarmos fora a criança com a água suja (não estou dizendo que você faz isso). O fato de existir "ortodoxia morta" não é motivo para desprezarmos a ortodoxia. Os homens mais usados por Deus na história foram cristãos com um conhecimento teológico muito profundo, que o aplicavam no seu dia-a-dia. Como já te disse uma vez, o nome do meu blog Teologia e Vida refere-se justamente a isso, uma vida cristã ortodoxa e piedosa ao mesmo tempo. Creio que esse é o ideal que todo cristão deve almejar.

Um exemplo de discussão teológica que não é apenas um "regorjitar de versículos" são estes e-mails que estamos trocando. Nem eu e nem você estamos discutindo pelo simples prazer de discutir. Nós dois acreditamos que esses assuntos têm importância para nossa vida e que uma compreensão mais clara deles nos leva a entender mais perfeitamente a graça que Deus demonstrou para conosco em Cristo, e que nós devemos demonstrar agora para com o nosso próximo. Inclusive uma coisa que estou achando muito legal e exemplar é o fato de estarmos discutindo sem ofensas pessoais, coisa que infelizmente é muito comum em fóruns cristãos pela internet.

Creio que já expliquei suficientemente qual a minha compreensão sobre Jesus ser a chave interpretativa da Bíblia. E de acordo com esse entendimento, eu posso também dizer que a Bíblia interpreta Jesus, seguindo a lógica e o óbvio, já que a Bíblia é o único lugar onde eu leio a respeito de Jesus, como eu já disse anteriormente. O Jesus que eu conheço é o Jesus que a Bíblia me apresenta.(Como eu já citei a Biblia me trás a informação acerca do Verbo, o Verbo revelado me faz reler a informação que me trouxe até ele. Se você não concorda, então devemos dizer isso a Paulo, pois foi o que ele fez quando conheceu ao Senhor. As Escrituras apontavam para o Verbo, e quando ele percebeu isso, ele "reinterpretou a escritura que o havia levado até o Verbo")

Quanto a isso eu não vou mais comentar, porque acho que nós não estamos entendendo um ao outro. Se nós acreditamos que a vida e o ensino de Jesus são o padrão pelo qual toda a Bíblia deve ser interpretada e isso nos leva ao mesmo resultado interpretativo, então acho desnecessário continuar a discutir essa relação entre "o Verbo interpretando a Escritura e a Escritura interpretando o Verbo".

Sobre os paradoxos, já deu pra perceber que você gosta bastante deles, rsrs. Eu particularmente não(Nossa única diferença é que eu identifico meu paradoxos, voce talvez os faça de forma inconsciente).

Conforme expliquei bem no início, não quis dizer com isso que eu não creio em paradoxos, apenas que não gosto deles. Quando creio em um eu reconheço.

Não acredito que todos os ensinos bíblicos possam ser compreendidos de uma forma cabal e total, mas creio que nós não podemos parar e afirmar um paradoxo antes de examinar tudo o que as Escrituras ensinam sobre um determinado assunto.(Concordo, mas até onde não usei isso na minha afirmação anterior?) A Bíblia é muito mais coerente e a fé é muito mais racional do que algumas pessoas imaginam (Concordo também, mas ser racional não significa não reconhecer os paradoxos, até porque o conceito de paradoxo foi criado pela lógica clássica).

O conceito de paradoxo pode ter sido criado pela lógica clássica, mas ele não é tão racional assim, porque quando se afirma um paradoxo faltam ligações entre conceitos aparentemente contrários, o que impede uma plena apreensão racional da informação.

Eu acredito que só existe uma lógica, tanto para Deus quanto para o homem(Ai você está entrando num erro lógico, se eu crio algo, significa que sou externo a esse algo e não estou sujeito ao comportamento desse algo, no caso a lógica. Deus não está sujeito a lógica, uma vez que Ele a criou, como não está sujeito ao tempo. Ele pode se sujeitar se assim quiser, mas isso não é garantia que Ele sempre esteja. Mas como você disse, isso é algo que você acredita, e se você crê assim, meu argumentos lógicos,rsrsrs, pouco importam)

Nós temos pensamentos diferentes a respeito deste assunto. Eu não acredito que a lógica foi criada por Deus como o tempo, porque, como eu digo logo adiante, eu acredito que Jesus é a Lógica (Logos) de Deus. Ele é eterno com o Pai e não foi criado, mas gerado, e isso na eternidade. Por isso, Deus é lógico por essência. Para dar um exemplo, para Deus 1 + 1 não pode ser igual a 3, porque isso seria ilógico. E apesar de Ele ser onipotente, não pode fazer que 1 + 1 seja igual a 3, pois não pode negar-se a si mesmo (Deus não pode fazer algo contrário à Sua própria natureza). O mesmo poderia ser dito sobre um círculo quadrado, ou um quadrado circular, que são coisas absurdas e ilógicas, inclusive para Deus. Esse assunto todo envolve muita filosofia e se quiser entender melhor meu pensamento recomendo que leia a obra Questões Últimas (Vincent Cheung), todas as demais obras do mesmo autor e as obras de Gordon Clark, que você pode encontrar no Monergismo (www.monergismo.com). Este conceito era seguido por muitos pais da igreja (inclusive Agostinho), escolásticos (inclusive Anselmo) e outros.

e a nossa razão é um dos aspectos em que somos a imagem e semelhança de Deus(Sim, mas isso não siginifica que nosso raciocínio seja igual ao dele, semelhante não é idêntico).

Nosso raciocínio é limitado e agora está afetado pelo pecado, mas a lógica é sempre a mesma, pelos motivos que eu afirmei acima.

Se não fosse assim, seria impossível acreditar que existe uma Verdade, e o conhecimento seria impossível. Dizer que Jesus é o Verbo (Logos) não é apenas dizer que Ele é a Palavra de Deus, mas que também é a Lógica de Deus. Tudo o que Deus faz e tudo o que a Bíblia diz é lógico e verdadeiro por essência. Quando não compreendemos algo totalmente isso não significa que Deus usa uma lógica diferente da nossa(Não disse que Deus usa uma lógica diferente, talvez Ele não use lógica nenhuma, para Paulo isso era perfeitamente plausível, mas ao invès disso ele usa a metáfora do espelho embaçado)

Deus usa uma lógica, pois Ele é lógico essencialmente, como já disse acima. Se a metáfora do espelho embaçado que você mencionou é aquela usada por Paulo em I Co.13, ela não fala nada sobre lógica, mas sobre nosso conhecimento limitado enquanto estamos neste mundo, sem termos experimentado ainda a vinda "do que é perfeito".

e sim que nós fomos de tal forma afetados pelo pecado, inclusive em nossa razão, que muitas vezes somos ilógicos em nossos raciocínios e não entendemos tudo o que a Bíblia ensina de forma lógica(Hmmm... aí vc me confundiu, que tipo de lógica você se refere? A lógica clássica? Se sacrificar por amor a alguém é completamente ilógico, mas plausível para a natureza de Deus, uma vez que ele se entregou e imputou sobre si mesmo a justiça que era destinada a nós. Amor não é lógico andré. Existem sim raciocínios lógicos na bíblia, mas existe um certo ponto, como você disse, que é impossível entender os propósitos de Deus, dái para frente nossa lógica não funciona e a gente tem que crêr. A Graça é paradoxal, isso qualquer bom teológo desses que você citou sabe. Não tenha medo disso).

Acho importante esclarecer aqui o que eu quero dizer quando falo de lógica. A lógica pra mim não foi criada por ninguém e nem é ensinada, mas já nasce conosco, sendo inata. Todo mundo sabe que uma coisa é sempre idêntica à ela mesma, que o não-falso é verdadeiro e o não-verdadeiro é falso, que proposições contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, etc. Esses conceitos lógicos são tão óbvios que ninguém os questiona, à menos que seja um louco completo. Questioná-los seria a porta para o ceticismo total. Isso é lógica pra mim e essa lógica é a mesma para Deus, do contrário, Ele não seria a Verdade absoluta e seria impossível discernir a verdade da falsidade. Se para Deus fosse possível que duas proposições contraditórias sejam ambas verdadeiras, por exemplo, então já não existiria mais verdade alguma e o conhecimento seria impossível.

Você diz que sacrificar-se por alguém em nome do amor é ilógico, mas eu não entendo o porquê. Em que ponto esse fato contraria as leis da lógica? Se você me apresentar quais afirmações lógicas a morte de Cristo contraria, então eu concordarei que ela é ilógica. Mas acho que isso não será possível, porque provavelmente você está chamando o sacrifício de Cristo e o próprio amor de ilógicos num sentido diferente do meu.

A cruz é loucura para os que perecem (I Co.1.18), porque eles são obscurecidos de entendimento (Ef.4.18). Mas para nós, que fomos salvos, é poder de Deus e sabedoria de Deus. Nós sabemos porque a morte de Cristo nos salva do pecado e da morte, conhecemos a relação entre a justiça e o amor de Deus, que se manifestaram conjuntamente no sacrifício de Cristo, possibilitando a justificação de todo aquele que crê. Eu não vejo nada de ilógico nisso, e falo isso com humildade e sinceridade. E se existe alguma coisa que a gente ainda não entende, não se deve à falta de lógica na coisa em si, mas à nossa razão limitada e ainda afetada pelo pecado.

Como você, mesmo viu, não pensamos diferente, nossas diferenças são meramente sobre nomenclaturas. Você acha importante as definições teológicas, eu não, e isso não me prejudicou.

Eu confesso que ainda tenho dúvidas sobre nossas semelhanças e diferenças. Fazendo uma análise geral de tudo o que foi discutido até aqui parece que realmente algumas coisas são apenas nomenclatura, como o que foi falado sobre a interpretação da Bíblia. Outras parecem ser diferenças mesmo, como nosso entendimento sobre a inspiração e infalibilidade das Escrituras. Os últimos assuntos discutidos, como a lógica e os paradoxos, fugiram um pouco do tema principal e são um assunto bastante complexo e filosófico, que talvez exija uma discussão separada e mais estudo das idéias um do outro, para entendermos melhor o que cada um pensa.

Sobre as definições teológicas, continuo achando elas importantes, de tal forma que nem você escapou delas, rsrs. Basta reler toda a discussão até aqui.

Como estou achando toda essa discussão muito proveitosa estava pensando em publicá-la no blog Teologia e Vida. O que você acha? Você me autoriza?

Que a graça seja contigo!

Abraços,

André Aloísio

De: Vitor Hugo Queiroz
Para: André Aloísio Oliveira da Silva
Data: 17/04/2008, 14:09

André pode publicar sim, aproveitando a deixa, vou publica-lo no nosso site da estação em Campinas, blz?

Agora que definimos onde discordamos e onde concordamos a discussão passa a ser mais específica, de modo que na minha próxima resposta vou excluir os temas concordantes e me concentrar nos temas discordantes.
Ok?
Mas só vou fazer isso no fim de semana, que é quando eu tenho tempo para ler e reler o que você escreveu e o que eu escrevi.

Vitor

Comentários

2 comentários em "Debate Sobre a Natureza e Interpretação da Bíblia (Parte 2)"

Anônimo disse...
28 de abril de 2008 10:44

O apóstolo Paulo falou a respeito de 'debates sobre palavras.'
É isso o que está acontecendo aqui pois não leva a nada conforme disse o apóstolo cristão.

André Aloísio disse...
28 de abril de 2008 23:13

Olá irmão, graça e paz!
Agradeço o comentário, mas não posso concordar com ele. A Bíblia é o único fundamento das doutrinas do Cristianismo. Logo, discutir sua natureza e interpretação é de importância fundamental, pois nossa visão sobre a Bíblia determinará nossa teologia e, conseqüentemente, como vivemos nossa vida cristã. Citando um trecho do meu e-mail ao Vitor: "Nós dois acreditamos que esses assuntos têm importância para nossa vida e que uma compreensão mais clara deles nos leva a entender mais perfeitamente a graça que Deus demonstrou para conosco em Cristo, e que nós devemos demonstrar agora para com o nosso próximo."
Que Deus te abençoe!

 

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