quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A Liberdade do Cristão, de Martinho Lutero

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O livro “A Liberdade do Cristão” foi escrito por Martinho Lutero, em 1520, com o objetivo de apresentar a doutrina bíblica da “justificação pela fé” ao papa. Lutero faz isso de forma clara e magistral, tornando esse livro um clássico que todo cristão deveria ler.

Os trechos publicados aqui demonstram porque as boas obras não podem ser a causa da justificação, sendo, muito pelo contrário, sua conseqüência natural e espontânea. Desejo que, através dessa rápida leitura, muitos possam ser esclarecidos quanto a esse tema fundamental para nossa fé, podendo também sentir o “gostinho” dessa maravilhosa obra.

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23º. – É por isso que as duas fórmulas são verdadeiras: “Obras boas e justas jamais fazem um homem bom e justo, mas um homem bom e justo faz boas obras. – Obras más não fazem um homem mau, mas um homem mau faz más obras.” Desse modo, o homem deve ser sempre bom e justo previamente, antes de realizar qualquer boa obra e as boas obras são subseqüentes e provêm de um homem justo e bom. É exatamente como Cristo diz (Evangelho de Mateus, VII, 18): “Uma árvore má não dá bons frutos. Uma árvore boa nunca dá maus frutos.” Ora, é evidente que não são os frutos que dão a árvore e as árvores não crescem sobre os frutos, ao contrário, são as árvores que dão os frutos e os frutos crescem nas árvores. Ora, da mesma forma, que as árvores devem existir antes dos frutos e que os frutos não fazem as árvores, nem as boas nem as más, mas que são as árvores que fazem os frutos, de igual modo o homem, como pessoa, deve antes ser bom ou mau, antes de fazer obras boas ou más. E não são suas obras que o tornam bom ou mau, mas é ele que faz boas ou más obras. Observamos a mesma coisa em todas as tarefas. Uma casa boa ou má não faz um bom ou mau carpinteiro, mas um bom ou um mau carpinteiro faz uma casa boa ou má; não é a obra que faz o mestre, tal como ela é, pelo contrário, tal mestre tal obra. Ocorre o mesmo com as obras humanas: se o homem vive na fé ou na incredulidade, suas obras serão boas ou más, e não inversamente; segundo suas obras, na mesma medida será justo ou crente; as obras, da mesma forma que não dão a fé, de igual modo não justificam; mas a fé, da mesma forma que justifica, de igual modo faz boas obras. Como as obras não justificam ninguém e como o homem deve ser justo antes de realizar as obras, é evidente que é unicamente a fé que, por puro favor, graças a Cristo e à sua palavra, basta para justificar a pessoa, para assegurar sua salvação e que nenhuma obra, nenhum mandamento é necessário ao cristão para sua salvação, mas está liberado de todos os mandamentos e faz tudo gratuitamente, por um ato de pura liberdade, sem procurar com isso, de modo algum, seu interesse ou sua felicidade – pois atingiu um grau suficiente de felicidade por meio de sua fé e da graça de Deus – mas para o único fim de agradar dessa forma a Deus.

24º. – Em contrapartida, aquele que não tem fé não pode tirar proveito de nenhuma boa obra para se justificar e assegurar sua salvação. Em contrapartida, não é nenhuma de suas obras más que o tornam mau nem o condena, mas sua falta de fé que torna a pessoa e a árvore má e que faz obras más e malditas. Por isso, para se tornar justo ou mau, não se começa pelas obras, mas pela fé. Segundo a palavra do sábio (Livro de Ben Sirac, X, 12-13)*: “A infidelidade a Deus e a falta de fé são o começo de todo pecado.” Esta é também a doutrina de Cristo que ensina que não se deve começar pelas obras, mas pela fé, e que declara (Evangelho de Mateus, XII, 33): “Ou fazem com que a árvore seja boa e seus frutos serão bons, ou fazem com que a árvore seja má e seus frutos serão maus”, o que equivale a dizer: aquele que quer ter bons frutos deve começar primeiramente pela árvore e deixá-la em boas condições; assim, quem quer fazer boas obras não deve começar pelas obras, mas pela pessoa que deve fazer as obras. Mas nada tornará boa a pessoa, a não ser unicamente a fé; e nada a tornará má, a não ser unicamente a falta de fé. Isso é realmente verdade: as obras assinalam exteriormente quem é justo e quem é mau, como o próprio Cristo diz (Evangelho de Mateus, VII, 20): “É de acordo com seus frutos que vocês os reconhecerão.” Mas tudo isso não passa de aspecto exterior; essa aparência, contudo, induz em erro muitas pessoas que escrevem e ensinam que é necessário realizar boas obras para se justificar, sem nunca mencionar a fé; esses homens seguem seu caminho, como um cego conduzindo outro, se atormentam com uma multidão de boas obras, sem jamais conseguir se tornar verdadeiramente justos. É o que diz deles São Paulo (2ª Epístola a Timóteo, III, 5): “Eles têm a aparência da piedade sem a ter na realidade e estudam sem cessar, nunca chegando, contudo, a conhecer a verdadeira piedade.” Quem não quiser errar com esses cegos deve ver mais longe que as obras, os mandamentos ou a doutrina das obras. Deverá, antes de tudo, considerar a pessoa e ver como ela pode se justificar. Não se justificará e não se salvará pelos mandamentos e pelas obras, mas pela palavra de Deus (isto é, pela promessa de sua graça) e pela fé, a fim de que a honra de Deus permaneça intacta, porquanto ele não nos salva por nossas obras, mas gratuitamente pela graça de sua palavra e por um ato de pura misericórdia.

* O Livro de Ben Sirac, citado por Lutero, é o mesmo apócrifo Eclesiástico, incluído na Bíblia Católica. Nessa época Lutero ainda seguia a Bíblia Católica.

Fonte: A Liberdade do Cristão, Martinho Lutero, Editora Escala, págs.39-41

sábado, 8 de dezembro de 2007

Trechos da Carta a Diogneto

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Estou publicando abaixo trechos da Carta a Diogneto. Esta carta foi escrita no início do século II, provavelmente por Quadrato, um cristão apologista muito próximo da era apostólica, ao imperador romano Hélio Adriano. Esta carta é uma apologia (defesa) da fé cristã diante do imperador, refutando primeiramente a idolatria pagã e o culto judaico, e apresentando logo após as características desta nova religião, o cristianismo.

Os três capítulos publicados aqui contém uma descrição perfeita, de rara beleza, de como os cristãos daquele tempo eram, e de como deveriam ser nos nossos dias. Que essas palavras, tão antigas e tão atuais, possam servir para nossa edificação e nos levem a refletir sobre nossas próprias vidas espirituais.

Capítulo 5 - O mistério cristão

Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida social admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas tem sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, desse modo, lhes é dada a vida; são pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, e aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

Capítulo 6 - A alma do mundo

Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião e invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo, como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

Capítulo 7 - A origem divina do cristianismo

De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de mistérios humanos. Ao contrário, aquele que é verdadeiramente Senhor e criador de tudo, o Deus invisível, ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a colocou em seus corações. Fez isso, não mandando para os homens, como alguém poderia imaginar, algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo; aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites; aquele cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as medidas que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda luzir durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séqüito da lua em seu percurso; aquele que, finalmente, por meio do qual tudo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e as coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio. Foi esse que Deus enviou. Talvez como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou para infundir-nos medo ou prostração? De modo nenhum. Ao contrário, enviou-o com clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há violência. Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para julgar. Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar sua presença? Não vês como os cristãos são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer? Não vês como quanto mais são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam? Isso não parece obra humana. Isso pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.

Fonte: Padres Apologistas, Editora Paulus, pág. 22-25

 

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