segunda-feira, 12 de agosto de 2019

25 livros cristãos para ler antes de passar desta para melhor

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Esta é uma lista dos livros que foram mais importantes na minha vida (até 12/08/2019) e que creio podem também ser importantes na sua vida. Ela está dividida em categorias (em negrito), as primeiras das quais (de teologia reformada a pós-milenismo preterista) correspondem às grandes influências no meu pensamento teológico. Os 25 livros estão numerados. Outros livros que também considero muito importantes aparecem em cada uma das categorias, não numerados. Para uma lista completa de livros recomendados, clique aqui.

1) Bíblia Sagrada

Teologia reformada

2) Institutas da Religião Cristã de 1536 (João Calvino)
3) Catecismo de Heidelberg
4) Os Cânones de Dort
5) Catecismo Maior de Westminster

Se possível, leia também: Institutas da Religião Cristã de 1559 (João Calvino), Teologia Sistemática (Herman Bavinck), Teologia Sistemática (Louis Berkhof).

Trindade

6) Deleitando-se na Trindade: uma introdução à fé cristã (Michael Reeves)

Se possível, leia também: Tratado sobre o Espírito Santo (Basílio de Cesaréia), A Trindade (Agostinho), Comunhão com o Deus Trino (John Owen), An Unpublished Essay on Trinity (Jonathan Edwards), The Holy Trinity: In Scripture, History, Theology and Worship (Robert Letham)

Hedonismo cristão

7) Em Busca de Deus (John Piper)
8) As coisas da terra (Joe Rigney)

Se possível, leia também: Carta sobre a Felicidade (Epicuro), A Paixão de Deus por Sua Glória (John Piper; Jonathan Edwards)

Neocalvinismo holandês

9) A Criação Restaurada (Albert M. Wolters)
10) Contornos da Filosofia Cristã (L. Kalsbeek)

Se possível, leia também: A morte da razão (Francis Schaeffer), O Deus que intervém (Francis Schaeffer), O Deus que se revela (Francis Schaeffer)

Teologia bíblica e pós-milenismo preterista

11) He Shall Have Dominion (Kenneth Gentry)

Se possível, leia também: Teologia Bíblica (Geerhardus Vos), Teologia Bíblica do Novo Testamento (Beale), Messiah the Prince (William Symington), Paradise Restored (David Chilton)

História da Igreja

12) Uma História Ilustrada do Cristianismo (Justo L. González)

Se possível, leia também: História Eclesiástica (Eusébio de Cesaréia), A História das Doutrinas Cristãs (Louis Berkhof)

Espiritualidade

13) Imitação de Cristo (Tomás de Kempis)
14) Prefácio à Carta de São Paulo aos Romanos (Martinho Lutero)
15) A Verdadeira Vida Cristã (João Calvino)
16) A Prática da Piedade (Lewis Bayly)
17) Verdadeira Espiritualidade (Francis Schaeffer)

Se possível, leia também: A Liberdade do Cristão (Martinho Lutero), Um Guia Seguro para o Céu (Joseph Alleine), Como irei a Deus? (Horatius Bonar), Santidade (J.C. Ryle), O Dom Supremo (Henry Drummond), Estudos no Sermão do Monte (D.M. Lloyd-Jones), Disciplinas Espirituais (Donald S. Whitney), Vivendo para a Glória de Deus (Joel R. Beeke), O Verdadeiro Evangelho (Paul Washer)

Clássicos

18) Carta a Diogneto
19) A encarnação do Verbo (Atanásio)
20) A Cidade de Deus (Agostinho)
21) Cristianismo puro e simples (C.S. Lewis)

Se possível, leia também: Cartas de Inácio (Inácio), Martírio de Policarpo, Didaquê, Contra as heresias (Ireneu), A predestinação dos santos (Agostinho), Monológio (Anselmo), Proslógio (Anselmo), Por que Deus se fez Homem? (Alselmo), Ortodoxia (G. K. Chesterton)

Biografias

22) Confissões (Agostinho)
23) A Vida de David Brainerd (Jonathan Edwards)

Se possível, leia também: Confissão (Patrício), Graça abundante ao principal dos pecadores (John Bunyan)

Ficção

24) O Peregrino (John Bunyan)
25) As Crônicas de Nárnia (C.S. Lewis)

Se possível, leia também: O Senhor dos Anéis (J.R.R. Tolkien), O Mundo de Sofia (Jostein Gaarder), Uma Jornada na Graça (Richard Belcher)

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Introdução ao Credo

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Esta disciplina foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte do Curso de Liderança.

Ementa: Examina de forma geral as doutrinas fundamentais da fé cristã (teologia sistemática) a partir da estrutura do chamado Credo Apostólico.

Temas não abordados: Não será feito um tratamento detalhado de cada expressão do Credo Apostólico. Além disso, temas da teologia sistemática mais relacionados à teologia reformada não serão abordados, porque serão estudados no módulo Introdução à Teologia Reformada.

Conteúdo programático:

Aula 1: A Trindade (“Creio em Deus Pai... Creio em Jesus Cristo... Creio no Espírito Santo”)
Aula 2: Os atributos de Deus (“Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso”)
Aula 3: A criação e a queda (“Criador do céu e da terra”)
Aula 4: A pessoa de Cristo (“Creio em Jesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor”)
Aula 5: A obra de Cristo (“o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao céu; está assentado à mão direita de Deus Pai Todo-poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos”)
Aula 6: O Espírito Santo e a aplicação da redenção (“Creio no Espírito Santo... na remissão dos pecados”)
Aula 7: A Igreja (“Creio... na santa Igreja universal; na comunhão dos santos”)
Aula 8: As últimas coisas (“Creio... na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém”)

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da Costa. Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo: Parakletos, 2002.
FERREIRA, Franklin. O credo dos apóstolos: as doutrinas centrais da fé cristã. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015.
HORTON, Michael. Creio: redescobrindo o alicerce espiritual. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.
MCGRATH, Alister. Creio: um estudo sobre as verdades essências da fé cristã no Credo Apostólico. São Paulo: Vida Nova, 2013.

Aula 8: As últimas coisas (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança. Atualmente eu não tenho mais uma interpretação idealista do cumprimento de profecias bíblicas.

“Creio... na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém”.

Introdução

Ao aprendermos sobre a obra de Cristo, vimos que o último estágio do estado de exaltação é a vinda de Cristo para julgar os vivos e os mortos. Isso coincide temporalmente com a última bênção conquistada por Cristo a ser aplicada a nós pelo Espírito, que é a glorificação, expressa no Credo Apostólico como “ressurreição do corpo”. A glorificação, por sua vez, dá início ao estado eterno, chamado no Credo de “vida eterna”.

Nesta aula, vamos aprender sobre essas últimas coisas, incluindo entre elas não só o estado eterno, a ser iniciado depois da volta de Jesus, mas também o estado intermediário, que se inicia na hora da morte e termina na hora da ressurreição. Antes disso, porém, precisamos falar brevemente sobre algumas posições diferentes sobre as últimas coisas (escatologia).

Posições escatológicas divergentes

Há basicamente quatro posições sobre as últimas coisas, todas divergindo sobre o tempo e o significado do milênio (Ap 20.1-10), além de sua relação com a segunda vinda de Cristo: amilenismo, pós-milenismo, pré-milenismo histórico e pré-milenismo dispensacionalista.

O amilenismo entende que o milênio representa um período longo, não literalmente de mil anos, correspondendo ao período entre a primeira e a segunda vinda de Jesus, durante o qual Satanás está preso para não mais enganar as nações e Cristo reina no céu com os crentes que já morreram. Jesus voltará depois do milênio e, quando isso acontecer, haverá uma ressurreição geral de crentes e descrentes, os crentes vivos serão transformados, todos os crentes serão arrebatados para se encontrar com Jesus nos ares, acontecerá o juízo final de anjos e homens e depois se iniciará o estado eterno.

O pós-milenismo, às vezes, entende o milênio e a volta de Jesus exatamente como o amilenismo, com a única diferença de que acredita que antes da vinda de Jesus haverá um período de paz na terra, onde o evangelho alcançará todas as nações e a maioria das pessoas será crente. Alguns pós-milenistas entendem que o milênio ainda é futuro e se identifica com esse período de paz, seguido pela volta de Jesus.

O pré-milenismo histórico entende que, antes da vinda de Jesus, haverá um período de grande tribulação, do qual a Igreja participará. Depois, Jesus voltará, os crentes mortos ressuscitarão e os crentes vivos serão transformados e todos eles se encontrarão com Jesus nos ares. Satanás será preso e o milênio terá início na terra, um período de mil anos literais durante o qual Jesus reinará com os crentes glorificados sobre os descrentes que sobreviveram à vinda de Jesus. No final do milênio, Satanás será solto e haverá uma última apostasia, que será vencida por Cristo. Então, haverá a ressurreição dos descrentes e o juízo final apenas para os descrentes, depois do qual começará o estado eterno.

O pré-milenismo dispensacionalista é muito parecido com o histórico. A diferença é que eles acreditam em duas vindas de Jesus: primeiro, Jesus voltará de forma invisível antes da grande tribulação, para ressuscitar os crentes mortos, transformar os crentes vivos e arrebatar todos eles ao céu; segundo, depois de sete anos de grande tribulação, Jesus voltará de forma visível com os crentes para dar início ao milênio.

Os reformados em geral são amilenistas ou pós-milenistas. O pré-milenismo, especialmente o dispensacionalista, é bastante comum entre fundamentalistas e pentecostais.

Há também diferentes posições sobre o cumprimento de determinadas profecias, especialmente apocalípticas: preterismo, idealismo, historicismo e futurismo. O preterismo entende que a maior parte das profecias apocalípticas já se cumpriu antes e durante a destruição de Jerusalém em 70 d.C. O idealismo entende que as profecias apocalípticas expressam verdades sobre todo o período entre a primeira e a segunda vinda de Jesus e não têm cumprimentos únicos. O historicismo acredita que as profecias apocalípticas têm se cumprido em vários acontecimentos históricos entre a primeira e a segunda vinda de Jesus. O futurismo, por fim, entende que todas ou quase todas as profecias apocalípticas se cumprirão no futuro. Amilenistas e pós-milenistas normalmente são preteristas ou idealistas, enquanto pré-milenistas em geral são historicistas ou futuristas. Preteristas não creem em uma grande tribulação futura, mas idealistas, historicistas e futuristas sim.

Nesta aula, ao falarmos do estado eterno, não vamos tratar dos acontecimentos que antecedem a vinda de Jesus. Vamos nos concentrar apenas nos acontecimentos que terão lugar com a vinda de Jesus, assumindo uma interpretação comum tanto a amilenistas quanto a pós-milenistas. Mas ao tratarmos sobre certos textos, assumimos uma posição idealista ao invés de preterista.

Estado intermediário

No momento da morte física, o corpo volta ao pó e o espírito volta a Deus (Ec 12.7). Isso acontece tanto com o crente quanto com o descrente. A diferença é que, no caso do justo, seu espírito é aperfeiçoado em santidade na hora da morte (Hb 12.22,23) e o corpo continua unido a Cristo e descansa na sepultura até a ressurreição (1Ts 4.13; 5.10).

Tanto o espírito do crente quanto do descrente volta a Deus para comparecer diante dele para juízo (Hb 9.27). Esse juízo determina o lugar onde o espírito aguardará a ressurreição. Há apenas dois lugares possíveis: céu (ou paraíso) e inferno (Lc 16.19-26). O céu é para os justos (Lc 23.43; Fp 1.23; Ap 14.13), onde são consolados em sua alma, e o inferno é para os injustos (2Pe 2.9; Ap 14.9-11), onde experimentam tormentos em sua alma.

Estado eterno

Jesus voltará de forma pessoal, visível e gloriosa, de modo que todo olho o verá (Mt 24.29-31; Ap 1.7). A volta de Jesus coincidirá com um grande abalo tanto dos céus quanto da terra (2Pe 3.7-13; Ap 6.12-17), que será a preparação para os novos céus e a nova terra (2Pe 3.13; Ap 21.1).

Quando Jesus voltar, haverá uma ressurreição geral de mortos, tanto crentes quanto incrédulos (Dn 12.21; Jo 5.28,29). Porém, os crentes ressuscitarão com corpos glorificados (1Co 15.42-44). Depois da ressurreição dos crentes mortos, mas quase ao mesmo tempo, os crentes vivos terão seus corpos glorificados e não passarão pela morte (1Ts 4.15-17; 1Co 15.50-58). Finalmente, todos os crentes serão arrebatados para se encontrarem com Cristo nas nuvens (Mt 24.31; 1Ts 4.15-17), e então descerão com Ele à terra para o juízo final.

É possível que Jesus desça sobre o Monte das Oliveiras, na Palestina, o mesmo lugar de onde Ele subiu ao céu (At 1.9-12; cf. Zc 14.4) e diante do qual está o vale do Josafá, onde é dito que Deus reuniria as nações para juízo (Jl 3.1,2). Independentemente do lugar onde Jesus descer, ali Ele se assentará no trono da Sua glória e todas as nações serão reunidas em Sua presença (Mt 25.31,32).

No juízo final todos serão julgados, anjos e homens (Ap 20.11-13; Jd 6). Os justos serão postos à direita de Cristo, serão reconhecidos e justificados (Mt 25.31-40) e julgarão com Jesus os ímpios e os anjos caídos (1Co 6.2,3). Os ímpios serão postos à esquerda de Cristo, onde receberão a sentença de condenação (Mt 25.41-46).

Após, os ímpios serão lançados no inferno para serem punidos com tormentos do corpo e da alma para sempre, junto com o diabo e seus anjos (Mt 10.28; Mt 25.46; Ap 20.14,15; 21.8).

Os justos, por sua vez, habitarão na nova terra e na cidade celestial, onde serão plenamente e para sempre libertados do pecado e do sofrimento, na comunhão de inumeráveis santos e anjos (Ap 21.1-7,22-27; 22.1-5). A nova terra certamente terá continuidade com a terra atual e nela haverá não só flora como também fauna (Rm 8.19-23; Ap 22.1-5; Is 11.6-9). A cidade de Deus, a Nova Jerusalém, será a capital da nova terra, semelhante ao jardim do Éden no princípio, com pedras preciosas, rios e a árvore da vida (Ap 21.9-22.5). E a nova humanidade poderá cumprir perfeitamente os três mandatos criacionais, que expressam o que significa ser imagem de Deus: espiritual (Ap 22.1-5), social (Mt 8.11) e cultural (Ap 21.24,26).

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 611-679.
CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 84-90.
HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o futuro. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

Aula 7: A Igreja (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“Creio... na santa Igreja universal; na comunhão dos santos”.

Introdução

Vimos na última aula que o Espírito Santo nos une a Cristo e, assim, aplica-nos várias bênçãos conquistadas por Cristo, que nos livram da culpa, corrupção e miséria. Ser unido a Cristo, porém, é ser unido ao corpo de Cristo, que é a Igreja (1Co 12.12,13). Desse modo, a salvação não é individualista, mas acontece dentro de uma comunidade, a Igreja. É disso que o Credo Apostólico trata ao falar da “santa Igreja universal” e da “comunhão dos santos”, e é disso que iremos tratar nesta aula. Estudaremos resumidamente sobre a natureza, atributos, marcas e meios de graça da Igreja.

A natureza da Igreja

A natureza da Igreja é declarada na expressão “comunhão dos santos”. Sua natureza é melhor compreendida ao fazermos algumas distinções.

Igreja visível e invisível: A Igreja visível é a Igreja como nós a vemos, uma sociedade composta de todos quantos, em todos os tempos e lugares, professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos (1Co 1.2; At 2.39). Nessa Igreja pode haver algumas pessoas não regeneradas, que são o joio no meio do trigo (1Jo 2.19). Todos que pertencem a essa Igreja gozam da comunhão dos santos, dos meios ordinários de salvação e da oferta da graça no ministério do evangelho (At 2.42). Fora da Igreja visível não há possibilidade ordinária de salvação (Mt 10.32,33). A Igreja invisível, por outro lado, é a Igreja como Deus a vê, sendo formada somente pelo número completo dos eleitos que têm sido e que serão reunidos em um só corpo sob Cristo, o Cabeça (Ef 1.10,21,23). É a Igreja invisível que têm acesso a todas as bênçãos da salvação aprendidas na aula passada. Fora da Igreja invisível não há possibilidade alguma de salvação (Jo 15.5,6).

Igreja militante e triunfante: A Igreja militante é a Igreja que ainda está na terra e ainda luta contra o mundo, a carne e o diabo (Hb 12.1-3). A Igreja triunfante é a Igreja que já está no céu, onde os santos que morreram reinam com Cristo (Hb 12.23).

Igreja como organização e como organismo: A Igreja como organização é a “mãe dos fiéis, um meio de salvação, uma agência para a conversão dos pecadores e para o aperfeiçoamento dos santos” (Berkhof, p.521). Ela existe como uma instituição e funciona por meio dos ofícios que Deus instituiu (Mt 18.17; 1Tm 3.14,15). A Igreja como organismo é a comunhão dos fiéis e tem existência carismática, funcionando por meio dos dons que Deus concede aos diversos membros do corpo (1Co 12.12-31; cf. 1Co 13.8-13). Desse modo, a Igreja como organização é secundária em relação à Igreja como organismo e serve a ela.

É importante dizer que essas distinções não representam várias Igrejas, mas vários aspectos da única Igreja de Cristo. Além disso, todas as denominações verdadeiras são expressões da mesma Igreja de Cristo.

Os atributos da Igreja

A Igreja em todos os seus aspectos apresenta os seguintes atributos, conforme expressos no Credo Niceno: “Creio na Igreja una, santa, católica (universal) e apostólica”.

a. Unidade (1Co 12.12-31; Ef 4.4-16). Essa unidade significa que todos os membros da Igreja professam a mesma fé e vivem o mesmo amor.

b. Santidade (1Co 1.2). Isso significa que a Igreja invisível está sendo aperfeiçoada e livre do pecado e que a Igreja visível está separada do mundo e dos descrentes.

c. Universalidade (Ap 5.9; 7.9,10). A Igreja é universal ou católica porque é composta por pessoas de todos os tempos e lugares.

d. Apostolicidade (Ef 2.20). Isso significa que a Igreja está fundamentada no ensino dos apóstolos, que é o próprio Cristo Jesus.

As marcas da Igreja

Quando o número de denominações aumentou no tempo da Reforma, os reformadores sentiram a necessidade de encontrar marcas pelas quais a verdadeira Igreja pudesse ser distinguida da falsa. Eles falaram de três marcas, que estão associadas com a Igreja institucional:

a. Fiel pregação do evangelho (1Jo 4.1-3; Jo 8.31,32,47). A fiel pregação do evangelho é uma marca da verdadeira Igreja porque é por meio da pregação da Palavra que a pureza de uma Igreja é preservada.

b. Correta administração dos sacramentos (Mt 28.19; 1Co 11.23-30). A correta administração dos sacramentos é uma marca da verdadeira Igreja porque os sacramentos estão intimamente conectados com a pregação da Palavra.

c. Fiel exercício da disciplina (Mt 18.18; 1Co 5.1-5,13; Ap 2.14,15,20). O fiel exercício da disciplina também é uma marca da verdadeira Igreja porque é a disciplina que minimiza o número de falsos crentes infiltrados na Igreja visível.

Os meios de graça da Igreja

Os meios de graça da Igreja são especialmente dois: a Palavra e os sacramentos.

Palavra: O Espírito Santo usa a leitura e especialmente a pregação da Palavra como um meio de graça tanto para converter pecadores quanto para edificar os santos (2Tm 3.15; Rm 10.14,15).

Sacramentos: O sacramento é um sinal e selo visível de uma graça invisível e por meio dele Cristo e as bênçãos da salvação são representados, selados e aplicados aos crentes. Há dois sacramentos no Novo Testamento: o batismo e a Ceia do Senhor.

Batismo: O batismo é um sacramento onde o lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19) é um sinal e selo da união com Cristo (Rm 6.3-7), representando tanto a remissão dos pecados pelo sangue de Jesus (bênção que nos livra da culpa: At 2.38) quanto a regeneração pelo Espírito Santo (bênção que nos livra da corrupção: Tt 3.4-7). Como o batismo é o sacramento da união com Cristo, e a união com Cristo acontece uma única vez, o batismo também é realizado uma única vez. Devem ser batizados tanto os que professam a fé em Cristo (At 8.36-38) quanto os seus filhos (Gn 17.7,9,10; Cl 2.11,12; At 2.38,39; 16.14,15; 16.31-34). A quantidade de água utilizada e a forma do batismo não é importante, de modo que aspersão, efusão e imersão todas são formas válidas. Não há base bíblica para dizer que apenas a imersão ou mergulho é a forma correta e, na verdade, a Bíblia parece indicar que em muitos batismos essa forma teria sido impossível de ser praticada (At 2.41; 9.18; 16.33).

Ceia do Senhor: A Ceia do Senhor é um sacramento onde, ao dar e receber pão e vinho, a morte de Cristo é anunciada (1Co 11.23-26), participa-se espiritualmente do seu corpo e do seu sangue (1Co 10.16,17), preanuncia-se a Ceia da eternidade (Mt 26.29) e manifesta-se a comunhão dos crentes uns com os outros (1Co 10,16,17). Desse modo, a Ceia é um sinal e selo da comunhão com Cristo. Como a comunhão do crente com Cristo é permanente, a Ceia do Senhor é realizada com frequência (At 2.42; 1Co 11.20).

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 511-607.
CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 62-65., 154-196.
CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 25-26.

Aula 6: O Espírito Santo e a aplicação da redenção (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“Creio no Espírito Santo... na remissão dos pecados”.

Introdução

Aprendemos até aqui que o ser humano, criado perfeito por Deus, pecou contra Ele, caindo num estado de pecado, que envolve tanto culpa (exterior) quanto corrupção (interior), e num estado de miséria. Cristo, que é Deus e homem em uma só pessoa, trouxe salvação e vida eterna ao homem por meio de Sua obra, que inclui tanto o Seu estado de humilhação quanto de exaltação.

Porém, como os resultados da obra de Cristo são aplicados na vida daqueles que foram representados por Ele? Para isso, precisamos ser unidos a Cristo, assim como estamos unidos a Adão. Pela união com Adão recebemos culpa, corrupção e miséria e é pela união com Cristo que temos o livramento dessas coisas. Segundo a Bíblia, é o Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, que nos une a Cristo (1Co 12.12,13) e, dessa forma, aplica a obra de Cristo a nós (Ef 1.13,14). Essa aplicação é resumida no Credo Apostólico como “remissão dos pecados” (perdão dos pecados), mas envolve bênçãos que nos livram não só da culpa, como também da corrupção e da miséria. Nesta aula, vamos analisar essas bênçãos conquistadas por Cristo e aplicadas a nós pelo Espírito Santo.

Bênçãos que nos livram da culpa

Justificação: Segundo o Breve Catecismo, a justificação “é um ato da livre graça de Deus, no qual ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé” (BC 33). Assim, a justificação tem tanto um elemento negativo, baseado na obediência passiva de Cristo (perdão dos pecados: Rm 4.7,8) quanto um elemento positivo, baseado na obediência ativa de Cristo (imputação da justiça de Cristo: Rm 4.6). Além disso, somente a justiça de Cristo é a base dessa justificação (2Co 5.21; Rm 5.18) e somente a fé é o instrumento pelo qual recebemos essa justificação (Rm 3.28; Gl 2.16).

Adoção: Segundo o Breve Catecismo, a adoção “é um ato da livre graça de Deus, pelo qual somos recebidos no número dos filhos de Deus, e temos direito a todos os seus privilégios” (BC 34). Assim, na adoção, Deus nos adota como filhos ao lado de Jesus, o Filho unigênito (Jo 1.12-14), e também nos faz herdeiros juntamente com Jesus (Rm 8.14-17).

Bênçãos que nos livram da corrupção

Regeneração: Segundo Berkhof, “Regeneração é o ato de Deus pelo qual o princípio da nova vida é implantado no homem, e a disposição dominante da alma se faz santa” (p.432). Ela também é chamada na Bíblia de ressurreição espiritual (Jo 5.25) e é identificada como o recebimento de um novo coração (Ez 36.25-27). Ela é instantânea e ocorre na vida subconsciente, uma vez que também pode acontecer em crianças (Lc 1.15).

Vocação eficaz: A vocação eficaz é a mesma coisa que o novo nascimento e envolve o primeiro exercício santo da nova disposição da alma provocada pela regeneração. Enquanto a regeneração é a implantação da vida, a vocação eficaz ou novo nascimento é a primeira manifestação da vida (Jo 3.3,5). Ela depende da pregação do evangelho e se dirige à vida consciente do homem (At 16.14). É o novo nascimento que torna possível a conversão (1Jo 5.1).

Conversão: Segundo Berkhof, conversão “é o ato de Deus pelo qual ele faz com que o pecador regenerado, em sua vida consciente, se volte para ele com arrependimento e fé” (p.445; cf. Lm 5.21). Fé e arrependimento são os dois lados da mesma moeda chamada conversão. A fé é uma confiança em Cristo como único e suficiente Salvador e Senhor (At 16.21), enquanto o arrependimento envolve tanto tristeza pelo pecado quanto mudança de vida (2Co 7.10).

Santificação: Berkhof a define como “a graciosa e contínua operação do Espírito Santo pela qual ele liberta o pecador justificado da corrupção do pecado, renova toda a sua natureza à imagem de Deus, e o capacita a praticar boas obras” (p.489). Ao contrário das bênçãos acima, que acontecem em um momento específico da vida, a santificação é um processo que dura a vida toda. Ela envolve tanto a morte do velho homem quanto a vivificação do novo homem (Ef 4.22-24). Ela é tanto uma obra da graça (Fp 2.13) quando uma responsabilidade humana (Fp 2.12).

Bênçãos que nos livram da miséria

Perseverança dos santos: É definida por Berkhof como “a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimento e se completa” (p.502). É, em outras palavras, a preservação que Deus faz dos crentes para que eles jamais percam a salvação e possam herdar a herança prometida, a glorificação, que consiste numa libertação completa das misérias desta vida (Jo 10.27-30; Fp 1.6; Ef 1.13,14).

Glorificação: A glorificação é a obra de Deus que aperfeiçoa a alma dos crentes libertando-a completamente do pecado (Hb 12.22,23) e que transforma o corpo dos crentes em um corpo glorioso, semelhante ao de Jesus, livre de todas as misérias desta vida (1Co 15.42-44,50-55). O aperfeiçoamento da alma dos crentes acontece na hora da morte e a glorificação do corpo ocorrerá quando Jesus voltar. A glorificação será melhor estudada na última aula deste módulo.

A ordem da salvação (Ordo salutis)

Se fôssemos organizar todas essas bênçãos em uma ordem lógica-cronológica, ela seria a seguinte: Regeneração, vocação eficaz, conversão (fé e arrependimento), justificação, adoção, santificação, perseverança dos santos e glorificação (cf. Rm 8.30; 1Co 1.30). Há bênçãos passadas (fomos regenerados, chamados, convertidos, justificados e adotados), presentes (estamos sendo santificados e preservados) e futuras (seremos glorificados). É impossível que alguém receba apenas algumas dessas bênçãos e não todas (Rm 8.30).

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 383-389, 413-505.
BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 29-36

Aula 5: A obra de Cristo (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao céu; está assentado à mão direita de Deus Pai Todo-poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos”.

Introdução

Na última aula, aprendemos que, para salvar o homem do estado de pecado e miséria, Deus Filho se encarnou, sendo agora Deus e homem em uma só pessoa para sempre. Mas é por meio de Sua obra como Deus-Homem que Ele nos salva desse estado de pecado e miséria. Por essa razão, o Credo Apostólico prossegue mencionando a obra de Cristo em termos dos Seus estados de humilhação e de exaltação, e de todos os estágios envolvidos em cada um desses estados. Nesta aula, aprenderemos sobre a obra de Cristo em favor da nossa salvação por meio de uma análise desses dois estados pelo qual o Redentor passou.

Estado de humilhação

O estado de humilhação é descrito em Fp 2.5-8. Cristo, subsistindo em forma de Deus, assumiu a forma de servo em Sua encarnação. O elemento mais importante do estado de humilhação é que Cristo se colocou sob a lei como condição do pacto das obras e como pena do pecado, oferecendo a Deus durante toda a Sua vida uma obediência tanto ativa quanto passiva.

A obediência ativa de Cristo consiste em tudo o que Ele fez para observar a lei em seu aspecto federal, como condição do pacto das obras para se obter a vida eterna (Mt 3.15; 5.17,18; Jo 15.10; Gl 4.4,5; Hb 10.7-9). Por meio dessa obediência, Cristo fez tudo aquilo que Adão deveria ter feito e não fez. A obediência ativa também permitiu que a obediência passiva de Cristo fosse aceita por Deus.

A obediência passiva de Cristo consiste em tudo o que Ele sofreu em sua relação penal com a lei, para cumprir a pena do pecado em nosso lugar (Is 53.6; Rm 4.25; 1Pe 2.24; 3.18; 1Jo 2.2). Como o pecado de Adão, que também é nosso, precisa ser punido, Cristo precisou sofrer a punição em nosso lugar, para que nós fôssemos livres dela.

Se Cristo tivesse apenas prestado obediência passiva, os pecadores representados por Cristo seriam deixados na mesma situação que Adão antes da queda. Porém, graças à Sua obediência ativa, Cristo merece para nós não apenas o perdão, mas também a vida eterna (Rm 5.18-21).

O estado de humilhação tem vário estágios, que são como vários degraus que Cristo teve que descer em sua humilhação. Cinco estágios podem ser enumerados de acordo com o ensino bíblico resumido no Credo Apostólico:

1. Encarnação e nascimento: Cristo se encarnou (Jo 1.14), assumindo uma natureza humana. A encarnação em Si não é uma humilhação, pois Cristo continua sendo um homem no Seu estado de exaltação. A humilhação consistiu em que Cristo assumiu a “carne”, uma natureza humana no estado de miséria resultante da queda, sujeita ao sofrimento e à morte, ainda que sem pecado (Rm 8.3; 2Co 8.9; Fp 2.6,7). A natureza humana de Jesus foi gerada miraculosamente no ventre de Maria por meio do Espírito Santo (Mt 1.18-20; Lc 1.34,35) e foi dela que Ele nasceu, em uma situação simples e de uma família pobre (Lc 2.6,7,24).

2. Sofrimento: Jesus sofreu durante toda a Sua vida, ainda que esses sofrimentos tenham se intensificado no final de Sua vida. Além disso, os seus sofrimentos foram tanto no corpo quanto na alma (Mt 26 e 27).

3. Morte: Cristo morreu numa cruz por causa dos pecados do Seu povo e em lugar do Seu povo (Gl 3.13). Sua morte foi tanto física quanto espiritual, pois Ele experimentou na cruz a ira de Deus e o próprio inferno, ao ponto de clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

4. Sepultamento: Jesus foi sepultado porque voltar ao pó também é punição do pecado (Gn 3.19) e porque ser sepultado, indo para baixo, também é uma humilhação.

5. Descida ao Hades: A descida de Cristo ao Hades tem sido entendida de formas incorretas, como uma descida de Cristo ao lugar onde os santos do Antigo Testamento aguardavam a aplicação da obra de Cristo (Igreja Católica), ou como uma descida de Cristo ao inferno para declarar Sua vitória sobre Satanás (Igreja Luterana), ou como uma descida de Cristo ao lugar do mundo dos mortos onde estavam as almas dos justos para lhes expor mais completamente a verdade (Igreja Anglicana). Ideias como essas são baseadas em interpretações incorretas de passagens como Ef 4.9, 1Pe 3.18,19 e 1Pe 4.4-6. Porém, a descida às regiões inferiores de Ef 4.9 é uma referência à encarnação, que é o oposto da ascensão mencionada na passagem. 1Pe 3.18,19 significa que Cristo, no Espírito, pregou através de Noé aos seus contemporâneos que não foram salvos, e que no tempo de Pedro eram espíritos em prisão, no inferno. 1Pe 4.4-6 não significa que o evangelho foi pregado a pessoas mortas, mas que pessoas mortas ouviram o evangelho enquanto estavam vivas, para que, mesmo julgadas na carne segundo os homens, vivam no espírito segundo Deus. A melhor passagem para entender o uso dessa expressão no Credo Apostólico é Sl 16.8-10, com as explicações em At 2.25-27,30,31 e 13.34,35. De acordo com essas passagens, o sentido da descida de Cristo ao Hades é que Ele esteve no estado dos mortos e sob o poder da morte até Sua ressurreição.

Estado de exaltação

O estado de exaltação é descrito em Fp 2.9-11. Ele é o resultado judicial do estado de humilhação. Cristo satisfez as exigências da lei, tanto cumprindo a pena do pecado por sua obediência passiva quanto merecendo a vida eterna por sua obediência ativa. Assim, como resultado disso, Ele retirou-se de sob a lei como um pacto das obras e recebeu a recompensa prometida, para Si e para Seu povo: a vida eterna.

O estado de exaltação consiste em quatro estágios ou degraus que Cristo subiu, de acordo com o ensino bíblico expresso no Credo:

1. Ressurreição: Em Sua ressurreição, Jesus não apenas voltou à vida, como também recebeu a vida eterna e teve Seu corpo glorificado, sendo as primícias da ressurreição (1Co 15.20,42-44; cf. Lc 24.31,36; Jo 20.13,19; 21.7). Na ressurreição, Deus Pai declarou que a obra realizada por Cristo foi aceita e a condição para a vida eterna foi satisfeita (Rm 4.25).

2. Ascensão: A ascensão consiste na subida de Jesus aos céus, para apresentar o Seu sacrifício a Deus Pai (Hb 9.24), para prenunciar a ascensão dos crentes ao céu (Ef 2.6) e para preparar lugar aos crentes (Jo 14.2,3).

3. Sessão: A sessão é o ato de Jesus estar assentado à direita de Deus Pai, para reinar sobre a Igreja e o mundo (Ef 1.20-23), para interceder por nós (Rm 8.34) e para enviar o Espírito Santo (At 2.33).

4. Volta: A volta de Jesus será o Seu retorno físico a este mundo, da mesma forma como subiu (At 1.11), para completar a salvação do Seu povo e julgar os vivos e os mortos (Mt 25.31-46). Veremos isso com mais detalhes na última aula deste módulo.

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 305-326, 343-359.
CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 46-56.

Aula 4: A pessoa de Cristo (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“Creio em Jesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor”.

Introdução

Vimos na última aula que o homem caiu do estado em que foi criado, pecando contra Deus, o que levou todos os seres humanos a um estado de pecado e miséria.

Porém, Deus não deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e miséria. Deus, unicamente pela Sua boa vontade, desde toda a eternidade, escolheu muitos seres humanos para a vida eterna (Rm 8.28-30; Ef 1.3-6), o que será estudado no módulo Introdução à Teologia Reformada. Com esses eleitos, Deus entrou em um pacto de graça, para os livrar do estado de pecado e miséria e os levar a um estado de salvação, por meio de um Redentor (Gn 3.15; 12.1-3; Jr 31.31-34; Lc 22.20). E esse Redentor é Jesus.

Isso nos conduz à segunda parte do Credo Apostólico, que trata de Deus Filho e da nossa salvação: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor”. Essa frase chama a atenção tanto para a humanidade de Jesus, evidente no seu nome humano “Jesus”, quanto para a Sua divindade, expressa nos termos “seu único Filho” (Filho de Deus) e “nosso Senhor”. Portanto, nesta aula, aprenderemos sobre a pessoa de Cristo, que é Deus e homem. Jesus, sendo o eterno Filho de Deus, se fez homem e, assim, foi e continua a ser Deus e homem em duas naturezas distintas, e uma só pessoa, para sempre.

A natureza divina de Cristo

A pessoa do Senhor Jesus Cristo é a mesma segunda pessoa da Santíssima Trindade, o eterno Filho de Deus, que já aprendemos ser o próprio Deus (Jo 1.1; 20.28; Fp 2.6; 1Jo 5.20). Assim, Jesus tem uma natureza divina.

Jesus, como Redentor dos eleitos, precisava ser verdadeiro Deus pelos seguintes motivos:

a. Porque, como a salvação vem do Senhor (Jn 2.9), só Deus poderia salvar o homem;

b. Porque só o próprio Deus poderia suportar a ira de Deus na cruz.

A natureza humana de Cristo

Mas Jesus, sendo o eterno Filho de Deus, se fez homem, e assim assumiu também uma natureza humana (Jo 1.14). Isso aconteceu quando Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo em Maria (Mt 1.18; Lc 1.35).

Como homem, Jesus possui um corpo humano (Lc 24.39) e uma alma humana (Lc 23.46), com mente (Mc 13.32), vontade (Mt 26.39) e emoções humanas (Jo 11.35). Nesse sentido, ele é um homem semelhante a nós em todos os aspectos.

A única diferença entre Jesus e nós é que Ele não tem o pecado original, pois foi concebido por obra do Espírito Santo, não cometeu pecados durante sua vida e nem era sujeito a pecar, por ser Deus (Hb 4.15; 7.26; 1Pe 1.16; 2.22; 1Jo 3.5).

Jesus, como Redentor dos eleitos, precisava ser verdadeiro homem pelas seguintes razões:

a. Para obedecer a lei em nosso lugar (Rm 5.18-19);

b. Para se oferecer como sacrifício por nós (Hb 2.16-17);

c. Para compadecer-se como sumo sacerdote (Hb 2.18).

Jesus não deixou de ser Deus ao se tornar homem. E uma vez que se tornou homem, Jesus será um homem para sempre (Jo 20.25-27; At 1.11; 7.56; Hb 13.8).

A união das duas naturezas na pessoa única de Cristo (união hipostática)

Visões erradas sobre a união hipostática: Há alguns ensinos errados sobre como Jesus pode ser, ao mesmo tempo, Deus e homem em uma única pessoa para sempre:

a. O apolinarismo (heresia de Apolinário, do século IV) ensina que Jesus possui apenas um corpo humano, mas não um espírito humano, pois o lugar do espírito foi ocupado pela natureza divina de Cristo.

b. O nestorianismo (heresia de Nestório, do século IV) ensina que Cristo é duas pessoas, uma pessoa humana e outra divina.

c. O monofisismo (única natureza) ou eutiquianismo (heresia de Êutico, do século V) ensina que Cristo possui uma só natureza, originada de uma mistura das naturezas divina e humana.

Visão bíblica definida em Calcedônia sobre a união hipostática: O ensino bíblico é que Jesus assumiu uma natureza humana em sua encarnação, e desde então possui uma perfeita humanidade (corpo e alma) e uma perfeita divindade, duas naturezas completas que, apesar de unidas, preservam suas propriedades, formando uma única pessoa, Jesus Cristo. Esse ensino foi definido na Declaração de Calcedônia (451 d.C.) da seguinte forma: "Todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [hommousios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; “em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado”, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [Theotókos]; um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, conseparáveis e indivisíveis;[1] a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência [hypóstasis]; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu".

Consequências da união hipostática:

a. Uma natureza faz coisas que a outra não faz (Jo 16.28; Mt 28.20);

b. Tudo o que uma das naturezas faz, a pessoa de Cristo faz (1Co 15.3);

c. Títulos que nos lembram de uma natureza podem ser empregados em referência à pessoa, mesmo quando a ação é realizada pela outra natureza (Lc 1.43; 1Co 2.8).

Necessidade da união hipostática: Jesus precisava ser Deus e homem ao mesmo tempo porque só alguém que fosse verdadeiro Deus e verdadeiro homem poderia ser Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5).

Conclusão

Portanto, enquanto Deus é uma natureza (essência), a natureza divina, e três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Jesus é uma única pessoa (o Filho, segunda pessoa da Trindade), com duas naturezas, a divina e a humana.

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 281-303.
BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 20-22.

Aula 3: A criação e a queda (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“Criador do céu e da terra”.

Introdução

Ao estudarmos o Credo Apostólico, vimos nas duas primeiras aulas quem Deus é (a Trindade) e o que Deus é (os atributos de Deus). A sequência do Credo Apostólico afirma que esse Deus é o “criador do céu e da terra”. Portanto, nesta aula vamos estudar o que Deus faz, particularmente na obra da criação. Além disso, aprenderemos que, ainda que tudo que Deus tenha criado seja bom, a queda no pecado corrompeu essa boa criação de Deus.

A obra da criação

A obra da criação envolve a criação do mundo em geral e a criação do homem em particular.

Criação do mundo

De acordo com a Bíblia, Deus criou o mundo da seguinte forma:

1. Deus fez tudo do nada (Gn 1.1). Isso significa que Deus não criou usando um material pré-existente, como nós fazemos. Pelo contrário, Deus criou tudo quando nada havia, senão Deus. Apenas Deus é eterno.

2. Deus criou pela Sua palavra e Seu Espírito (Sl 33.6). Ele falou e as coisas vieram a existir (Gn 1.3; Sl 33.9). De acordo com o Novo Testamento, a palavra pela qual Deus criou tudo é o próprio Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade (Jo 1.1-3). E além do Filho, o Espírito Santo também esteve envolvido na criação, sendo a pessoa responsável pela completação da obra da criação, agindo imediatamente na criatura e gerando vida (Gn 1.2; Sl 104.30).

3. Deus criou em seis dias (Gn 1.1-31). Os dias da criação são dias normais, de aproximadamente vinte e quatro horas, pelas seguintes razões: a. O sentido primário da palavra “dia” no hebraico é um dia de vinte e quatro horas; b. Isso é comprovado pela expressão “houve tarde e manhã”, indicando o período de trevas (noite) e de luz (dia) de um dia de vinte e quatro horas; c. A semana da criação com seis dias de trabalho e um de descanso é o fundamento da semana humana (Êx 20.9-11), o que leva à conclusão natural de que “dia” tenha o mesmo significado nos dois casos; d. Os três últimos dias sem dúvida foram dias comuns, pois foram determinados pelo sol, o que leva à conclusão de que os três primeiros dias também eram dias comuns. Apesar dessa interpretação ser contrária a algumas teorias científicas a respeito da idade do universo, ela não é contrária a nenhuma lei científica. Teorias não são verdades absolutas e podem ser alteradas e revistas. Por isso, não seria sábio abandonar a exegese natural de Gn 1.1-2.3 por causa de uma teoria científica que não tem um fundamento sólido.

Ao criar o mundo, Deus, primeiro, criou os céus (o mundo espiritual, que é a morada de Deus e dos anjos) e a terra (o mundo material, que é a morada do homem e dos demais seres). Isso é chamado de “criação primária”. Mas a terra ainda não tinha forma e ainda estava vazia. Então, nos três primeiros dias da criação, Deus deu forma à terra. No primeiro dia, Ele criou o dia e a noite. No segundo dia, Ele criou os céus, que são a atmosfera, e as águas, que são chamadas os mares. No terceiro dia, Ele criou a terra seca e o mundo vegetal. Então, nos três últimos dias, Deus preencheu a terra. No quarto dia, Ele preencheu o dia com o sol e a noite com a lua e as estrelas. No quinto dia, Ele preencheu os céus com as aves e as águas com os peixes. E no sexto dia, Ele preencheu a terra seca com os animais e com o homem. Todo esse processo de formação e preenchimento da terra é chamado de “criação secundária”. Finalmente, no sétimo dia, Deus descansou de toda a Sua obra de criação (Gn 2.1-3).

4. Deus criou tudo muito bom (Gn 1.31). Em vários momentos da criação, Deus viu que o que estava criando era bom, e quando concluiu, viu que tudo era muito bom. Não havia o mal quando Deus criou o mundo.

5. Deus não se ausentou do mundo. Ao terminar a obra da criação, Deus não se ausentou do mundo, nem o deixou existir por si mesmo. Pelo contrário, Deus continua cuidando da Sua criação, o que é chamado de providência (Hb 1.3; Mt 10.29,30).

Criação do homem

No sexto dia, como vimos acima, Deus criou o homem (ser humano). A criação do homem foi assim:

1. Deus criou tanto o macho quanto a fêmea (Gn 1.26,27). O macho (Adão) foi criado do pó da terra (o seu corpo) e recebeu de Deus, em suas narinas, o fôlego da vida (a sua alma; cf. Gn 2.7). A fêmea (Eva) foi criada a partir de uma costela do macho (Gn 2.18,21-23). Por isso, no casamento, macho e fêmea tornam-se uma só carne (Gn 2.24). O macho e a fêmea receberam papeis diferentes na criação. Ao homem foi dada por Deus a liderança sobre a mulher (1Co 11.3,8,9; Ef 5.22-24; 1Tm 2.11-15) enquanto a mulher foi feita como uma auxiliadora para o homem (Gn 2.18).

2. Deus criou o homem, macho e fêmea, à Sua própria imagem (Gn 1.26-28). Apesar de homem e mulher terem papeis diferentes, ambos foram criados por Deus à Sua própria imagem e são, por isso, essencialmente iguais. Ser imagem de Deus significa que o homem foi criado com conhecimento, retidão e santidade (Cl 3.10; Ef 4.24; Rm 2.14,15). Porém, o contexto imediato da passagem da criação mostra que o fato de o ser humano ser a imagem de Deus também significa outras três coisas:

a. O ser humano foi criado para se relacionar com o próximo (mandato social). Em Gn 1.26,27, vemos que Deus é singular (“Também disse Deus”), mas fala no plural (“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”). Isso porque, como vimos na primeira aula, há um só Deus, mas esse Deus é três pessoas distintas que se relacionam umas com as outras. Desse modo, quando Deus cria o ser humano, Ele também o cria como um ser singular (“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem”), mas que também é plural (“homem e mulher os criou”). O relacionamento entre o macho e a fêmea, e todos os relacionamentos humanos, são uma imagem do relacionamento entre as três pessoas da Trindade. Através desse relacionamento, o ser humano imitaria a Deus ao se multiplicar e encher a terra (Gn 1.28), como Deus fez nos três últimos dias.

b. O ser humano foi criado para se relacionar com a criação (mandato cultural). Em Gn 1.26,28, Deus cria o homem à Sua imagem, para que o homem tenha domínio sobre a criação (Sl 8.3-8), por meio do trabalho (Gn 2.15). Através desse relacionamento, o ser humano imitaria a Deus ao dar forma à terra, como Deus fez nos três primeiros dias. O ato de Deus dar forma e encher a terra através da Sua imagem, o ser humano, é chamado de “criação terciária”.

c. O ser humano foi criado para se relacionar com Deus (mandato espiritual). Deus descansou um dia em sete dando ao ser humano um exemplo a ser seguido. Homem e mulher também descansariam em um dia da semana para que pudessem se dedicar exclusivamente ao relacionamento com Deus (Êx 20.8-11; Lv 23.3).

A queda

O pacto das obras

Ao criar o homem, Deus fez com ele um pacto de obras (Gn 2.16,17). Um pacto é um acordo entre duas partes, onde promessas são feitas sob certas condições. Deus proibiu o homem de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Se o homem desobedecesse, ele morreria, mas se obedecesse, viveria. Assim, nesse pacto, Deus prometeu a vida eterna a Adão e aos seus descendentes sob a condição da perfeita obediência de Adão. Pelo fato de a vida eterna ser oferecida com base nas obras de Adão, esse pacto é chamado de pacto das obras. Infelizmente, Adão não cumpriu esse primeiro pacto, o que é chamado de pecado (1Jo 3.4; Tg 4.17), e assim caiu do estado em que foi criado, trazendo sérias consequências para si e para seus descendentes.

A natureza da queda

A queda do ser humano é descrita em Gn 3.1-6. Eva foi tentada por uma serpente usada pelo próprio Satanás (Ap 12.9). Satanás distorceu as palavras de Deus para enganá-la. Enquanto Deus havia dito para Adão que, se ele comesse do fruto, certamente morreria, Satanás disse que, se ela comesse do fruto, certamente não morreria. Ele ainda mente que, ao invés de morrer, Adão e Eva seriam como Deus se comessem do fruto. Desse modo, Eva decide comer do fruto proibido e Adão faz o mesmo. Sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, eles caem do estado em que foram criados, pecando contra Deus. Ao comer do fruto, o homem estava dizendo que queria ser o seu próprio deus.

As consequências da queda

Como o pacto das obras foi feito com Adão, não só para ele, mas para todos os seus descendentes, pois foi feito com ele na condição de representante de toda a raça humana, todos os seres humanos, que descendem de Adão por geração ordinária, pecaram em Adão e caíram com ele na sua primeira transgressão (1Co 15.21,22; Rm 5.12-14). Assim, todos os seres humanos são pecadores (Rm 3.23).

A queda trouxe sérias consequências, reduzindo toda raça humana a um estado de pecado e de miséria.

1. Estado de pecado: O estado de pecado consiste no pecado original e nos pecados atuais.

a. O pecado original nos acompanha desde a nossa concepção (Sl 51.5). Ele envolve tanto a culpa do primeiro pecado de Adão (externa) quanto a corrupção de toda a natureza humana (interna). Em outras palavras, todos os seres humanos são culpados de pecado diante do tribunal de Deus, antes mesmo de cometerem qualquer pecado pessoal, porque recebem a culpa pelo primeiro pecado de Adão (Rm 5.18,19; 3.10-18). Além disso, todos os seres humanos também nascem com toda a sua natureza afetada pelo pecado, de modo que não conseguem fazer nada de bom aos olhos de Deus e pecam frequentemente (Ef 2.1-3; Rm 8.7,8). Isso também é chamado de depravação total.

b. Os pecados atuais são os pecados que os seres humanos praticam no seu dia-a-dia, e todos procedem do pecado original (Sl 51.4). Não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores.

2. Estado de miséria: O estado de miséria envolve várias coisas:

a. Perda da comunhão com Deus (Gn 3.8,10,24). É chamada de morte espiritual. Afeta a relação do homem com Deus (mandato espiritual).

b. Estar debaixo da ira e maldição de Deus (Ef 2.3; Jo 3.36). Deus odeia o pecado e sua ira e maldição permanecem sobre aqueles que são pecadores.

c. Misérias desta vida (Gn 3.7-19). Isso envolve todos os problemas que vivemos neste mundo. Inclui problemas no casamento (mandato social), como falta de transparência entre os cônjuges (Gn 3.7), transferência de responsabilidades (Gn 3.11-13), feminismo e machismo (Gn 3.16) e sofrimentos na gravidez (Gn 3.16). Inclui também problemas no trabalho (mandato cultural), como o cansaço, porque toda a criação foi amaldiçoada por causa do pecado do homem (Gn 3.17-19).

d. Morte física (Gn 3.19; Rm 6.23). É o retorno do corpo ao pó e do espírito a Deus para ser julgado (Ec 12.7).

e. Penas do inferno para sempre (Mt 25.41-46). É a pena final de Deus contra o pecado, a manifestação da ira de Deus de forma terrível e eterna.

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 139-151.
BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 9-19.

Aula 2: Os atributos de Deus (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“Creio em Deus Pai, Todo-poderoso”.

Introdução

Na aula passada vimos quem Deus é: Pai, Filho e Espírito Santo. Nesta aula veremos o que Deus é, o que envolve estudar os atributos de Deus, um dos quais é mencionado na primeira parte do Credo: “Todo-poderoso”.

O que são os atributos de Deus

Os atributos divinos são as características de Deus, que refletem diversos aspectos da mesma essência divina. A pergunta 4 do Breve Catecismo de Westminster responde à pergunta “O que Deus é?” apresentando vários atributos de Deus: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.

Pode-se perceber nessa resposta do Breve Catecismo que os atributos de Deus estão divididos em duas partes: os primeiros atributos mencionados (espírito, infinito, eterno e imutável) qualificam os demais: ele é infinito em sabedoria, em poder, etc.; eterno em sabedoria, em poder, etc.; imutável em sabedoria, em poder, etc. Os primeiros atributos são chamados de “atributos incomunicáveis”, porque eles não podem ser comunicados às criaturas e apenas Deus os possui. Os demais atributos são conhecidos como “atributos comunicáveis”, pois as criaturas também os possuem em alguma medida.

Outra divisão possível para os atributos de Deus é aquela que os divide de uma forma trinitária: atributos de poder (associados ao Pai Todo-poderoso), como espiritualidade, infinitude, eternidade, imutabilidade e o próprio poder; atributos de conhecimento (associados ao Filho, a sabedoria do Pai), como sabedoria e verdade; e atributos de bondade (associados ao Espírito Santo, o amor do Pai e do Filho), como a própria bondade, a santidade e a justiça. Isso não significa que apenas o Pai seja Todo-poderoso, apenas o Filho seja sábio e apenas o Espírito Santo seja amoroso, pois todas as pessoas divinas possuem a essência divina completa e todos os seus atributos. Isso apenas significa que alguns atributos na Escritura estão mais associados a uma pessoa divina, assim como certas obras (criação ao Pai, redenção ao Filho e santificação ao Espírito Santo). É essa divisão trinitária que seguiremos aqui.

Atributos de poder

Poder. Deus tem onipotência (é Todo-Poderoso) e pode fazer tudo aquilo que deseja (Gn 17.1; Jó 42.2; Sl 115.3; Is 43.11-13; Mc 10.27). Ele não pode pecar ou agir contra Sua própria natureza (Tg 1.13).

Espiritualidade. Deus é espírito (Jo 4.24). Isso significa que Deus não tem corpo e nem partes (Lc 24.39) e que Ele é invisível (Jo 1.18; Rm 1.20; Cl 1.15; 1Tm 1.17; 6.16). As aparições de Deus na história foram “teofanias”, manifestações de Deus em uma forma visível assumida temporariamente (Gn 18.1,2; Ex 33.17-23). As passagens bíblicas que atribuem a Deus formas e partes corporais, o que é chamado de antropomorfismo, são poéticas e devem ser interpretadas em sentido figurado (2Cr 16.9; Sl 91.1-4).

Infinitude. Deus é infinito, o que significa que ele está livre de toda e qualquer limitação. Em relação ao ser de Deus, isso significa que Deus é perfeito (Sl 145.3). Em relação ao tempo, isso significa que Deus é eterno, que é o próximo atributo que veremos. E em relação ao espaço, isso significa que Deus é imenso e onipresente, ou seja, que Deus supera todas as limitações espaciais e está presente em todos os lugares com todo o Seu Ser (1Rs 8.27; Sl 139.7-10).

Eternidade. Deus não tem princípio nem fim nem sucessão de momentos no Seu próprio ser, e percebe todo o tempo com igual realismo. Ele criou o próprio tempo e, portanto, é independente dele (Ex 3.14; Sl 90.2; 2Pe 3.8).

Imutabilidade. Deus é imutável no Seu ser, nos Seus atributos, nos Seus propósitos e nas Suas promessas. Deus não pode mudar porque é eterno e perfeito (Sl 102.25-27; Ml 3.6; Tg 1.17; Sl 33.11; Nm 23.19).

Atributos de conhecimento

Sabedoria. Deus tem onisciência e possui todo o conhecimento, o que significa que Ele conhece inclusive o futuro e os nossos pensamentos (Jó 37.16; Sl 139.1-4; Is 46.10; Rm 11.33; Hb 4.13).

Verdade. Deus corresponde perfeitamente à ideia de Divindade (Jr 10.8-11), é perfeitamente confiável em Sua revelação (Jo 17.17), fiel em todas as Suas promessas (Nm 23.19; 2Tm 2.13) e vê as coisas como realmente são (Hb 4.13).

Atributos de bondade

Bondade. Deus é bom para com todas as Suas criaturas (Sl 145.9,15,16), demonstra amor a todos (Mt 5.44,45), mas especialmente ao Seu povo (Rm 5.8; 1Jo 3.1), demonstra graça aos indignos (Ef 2.7-9), misericórdia aos miseráveis (Sl 136) e paciência para com os pecadores (2Pe 3.15).

Santidade. Deus é santo (1Sm 2.2; Sl 99; Is 40.25; Ap 15.4) em dois aspectos: transcendência e pureza moral. A transcendência mostra como Deus está separado e é independente do espaço e do tempo, não sendo limitado por eles (Is 57.15). A pureza moral mostra como Deus está separado de tudo o que é pecaminoso (Hc 1.13; 1Pe 1.15,16).

Justiça. Deus sempre age segundo o que é justo, Ele mesmo é o parâmetro de justiça e dá a cada um o que cada um merece (Dt 34.4; Gn 18.25; Is 30.18; Jr 9.24; At 17.31).

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 57-77.
BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 4.
FRAME, John M. The doctrine of God. Phillipsburg: P&R, 2002, cap. 19.

Aula 1: A Trindade (Introdução ao Credo)

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2017, como parte da disciplina Introdução ao Credo, do Curso de Liderança.

“Creio em Deus Pai... Creio em Jesus Cristo... Creio no Espírito Santo”.

Introdução

O Credo Apostólico tem sua origem no Credo Romano Antigo, do século II, que passou por alguns acréscimos e modificações no decorrer dos séculos, chegando à forma atual aproximadamente no século VII. Ele contém um resumo das principais doutrinas bíblicas. Foi usado desde o início para o treinamento dos catecúmenos e para a profissão de fé durante o batismo. Posteriormente passou a ser professado por todos os cristãos durante os cultos. No século IX, foi sancionado pelo Imperador Carlos Magno para uso na Igreja e foi incorporado na liturgia romana pelo papa. A Reforma Protestante continuou a utilizar este Credo no ensino, na profissão de fé e na liturgia.

Ao falar sobre Deus, o Credo Apostólico, seguindo o próprio ensino bíblico, apresenta uma estrutura trinitária: “Creio em Deus Pai... Creio em Jesus Cristo... Creio no Espírito Santo”. Assim, no Credo temos uma afirmação de fé na Trindade, que é a doutrina a ser estudada nesta aula.

De acordo com o Breve Catecismo de Westminster, perguntas 5 e 6, a doutrina da Trindade pode ser definida da seguinte forma: “Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro. Há três pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estas três pessoas são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”. Em outras palavras, a doutrina da Trindade consiste em três afirmações: 1) Há um só Deus; 2) O Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, totalmente Deus; 3) O Pai, o Filho e o Espírito Santo são pessoas distintas que se relacionam umas com as outras. Vamos examinar cada uma dessas afirmações.

1. Há um só Deus

A Bíblia como um todo deixa muito claro que só há um Deus: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). Essa passagem é citada em Mc 12.28-34, onde ela é explicada no sentido de que Deus “é o único, e não há outro senão ele”.

Isso significa que não há vários deuses, não há três deuses, há apenas um Deus.

2. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, totalmente Deus

Ao mesmo tempo em que a Bíblia afirma que só há um Deus, ela também declara que o Pai é Deus, que o Filho é Deus e que o Espírito Santo é Deus.

Que o Pai é Deus está declarado em toda a Bíblia. Um exemplo é Jo 17.3, onde Jesus, orando ao Pai, diz o seguinte: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.

O Filho também é Deus. Ele é identificado com Deus (Jo 1.1-3; 20.28; Rm 9.5; Fp 2.6; Tt 2.13; 1Jo 5.20), recebe nomes divinos (Is 9.6; Is 6.1-3,9-10 e Jo 12.39-41; Jl 2.32 e Rm 10.9-15), tem atributos divinos (Jo 1.1; Mt 28.20; Jo 2.24; Is 9.6; Hb 13.8), realiza obras divinas (Jo 1.3; Hb 1.3; Mt 2.7-10; Jo 5.19-29) e recebe adoração (Jo 5.22,23; Hb 1.6).

O Espírito Santo também é Deus. Ele é identificado com Deus (At 5.3,4), recebe nomes divinos (Ex 17.7 e Hb 3.7-9; 1Co 3.16; 2Tm 3.16 e 1Pe 1.21), tem atributos divinos (Sl 139.7-10; Is 40.13,14 e Rm 11.34; 1Co 2.10,11; 1Co 12.11; Rm 15.19; Hb 9.14) e realiza obras divinas (Gn 1.2; Jó 33.4; Sl 104.30; Jo 3.5,6; Tt 3.5; Rm 8.11).

Assim, o Filho e o Espírito Santo não são criaturas, mas são o Criador, o próprio Deus. O Filho e o Espírito Santo são iguais ao Pai em Sua essência, em Seus atributos.

Ao falar que os três são Deus, não devemos pensar que cada um deles é a terça parte de Deus, como se Deus pudesse ser dividido em três partes. Não. Cada um deles é totalmente Deus, cem por cento Deus. Ao aprendermos sobre os atributos de Deus, veremos que Deus é espírito, o que significa, entre outras coisas, que Deus não tem partes e não pode ser dividido. Portanto, o Pai é totalmente Deus, o Filho é totalmente Deus e o Espírito Santo é totalmente Deus.

3. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são pessoas distintas que se relacionam umas com as outras

Ao dizermos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, totalmente Deus, alguém poderia pensar que esses nomes representam apenas papeis que uma mesma pessoa desempenha em momentos diferentes. Às vezes Deus atua como Pai, às vezes como Filho, às vezes como Espírito Santo, como um ator que faz vários filmes. Porém, isso é um erro.

A Bíblia declara que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são pessoas distintas. Isso fica muito claro no batismo de Jesus (Mc 1.9-11). Quando Jesus sai da água, o Espírito Santo desce sobre Jesus como pomba, e o Pai fala dos céus. Os três aparecem ao mesmo tempo como pessoas distintas.

Alguém poderia dizer que o Espírito Santo não é uma pessoa, mas uma força. Porém, a Bíblia o identifica com uma pessoa, ao lhe dar pronomes e termos pessoais (Jo 16.14; 14.26; 15.26; 16.7), ao lhe atribuir características pessoais (Rm 8.16; At 16.7; Ef 4.30; At 8.29) e ao colocá-lo lado a lado com o Pai e o Filho, que são pessoas, na fórmula batismal e na bênção apostólica (Mt 28.19; 2Co 13.13).

O que distingue o Pai, o Filho e o Espírito Santo são justamente as relações que eles mantêm uns com os outros. O Pai é o Pai do Filho (Ef 1.3), o Filho é o Filho do Pai (2Jo 3) e o Espírito Santo é o Espírito do Pai (Mt 10.20) e do Filho (Gl 4.6). Essas relações são eternas, mas um reflexo delas pode ser visto no batismo de Jesus. A relação mútua do Pai e do Filho é caracterizada por amor: o Pai ama ao Filho e o Filho é amado pelo Pai: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Mc 1.11). No Sl 2.7, essa relação é descrita como uma geração: “Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”. Em outras palavras, o Pai gera o Filho e o Filho é gerado do Pai. Por isso o Filho é chamado de “unigênito” (único gerado) em Jo 1.14,18; 3.16; 1Jo 4.9. A relação do Espírito com o Pai e com o Filho é caracterizada como um vínculo de amor entre ambos. O Pai envia do céu o Espírito Santo sobre o Filho, como uma demonstração do Seu amor pelo Filho (Mc 1.10). O Espírito Santo, então, repousa sobre Jesus e O unge como Cristo (Mc 1.10), para que o Filho também possa enviar o Espírito (Jo 14.16,26; 15.26; 16.7), como uma demonstração de amor em resposta ao amor do Pai (Lc 10.21; Jo 14.31). Desse modo, o Espírito Santo procede ou sai eternamente tanto do Pai quanto do Filho (Ap 22.1), o que é chamado de procedência.

Mas as relações entre as três pessoas não chamam a atenção apenas para a diversidade existente entre elas, mas também para a Sua unidade. O amor do Pai pelo Filho é infinito e os aproxima ao ponto de eles habitarem um no outro: “O Pai está em mim, e eu estou no Pai” (Jo 10.37; cf. Jo 14.8-11). E o Espírito Santo também participa dessa habitação mútua, pois onde o Espírito está, aí também estão o Pai e o Filho (Jo 14.16-18,20,23). Desse modo, Pai, Filho e Espírito Santo se relacionam tão intimamente que eles habitam uns nos outros.

Uma analogia foi usada por Agostinho para explicar a Trindade, e depois apropriada por Tomás de Aquino e Jonathan Edwards. Segundo essa analogia, o Pai se conhece perfeitamente, e por se conhecer perfeitamente, a imagem “mental” que o Pai tem de Si mesmo é exatamente igual a Ele mesmo. Essa imagem é o Filho, que na Bíblia é chamado de imagem (Cl 1.15) e é associado com a sabedoria e o conhecimento (1Co 1.30; Cl 2.3). Mas o Pai não só conhece a Si mesmo, como também ama a Si mesmo na imagem “mental” que tem de Si mesmo, e essa imagem do Pai, que é o Filho, também ama ao Pai. Esse amor que os une é o Espírito Santo, que na Bíblia é associado ao amor (Rm 5.5). Assim, os três são um.

Conclusão

Portanto, há um só Deus, mas esse Deus é três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, cada uma das quais é Deus. Ainda que não possamos compreender perfeitamente essa doutrina, esse é o ensino da Escritura e esse é o verdadeiro Deus a quem devemos glorificar e desfrutar para sempre (Ap 22.1-5).

Bibliografia:

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 79-93.
BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. In: SÍMBOLOS DE FÉ. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, 5-6.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da Costa. Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo: Parakletos, 2002, p. 29-30.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O cristão e a tecnologia

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Palestra ministrada por mim por ocasião do lançamento do site da Igreja Presbiteriana da Piçarra, em Teresina-PI, no dia 06/07/2019.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A Santíssima Trindade: em defesa da fé

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Estudo ministrado por mim na União de Mocidade Presbiteriana da Igreja Presbiteriana da Piçarra, em Teresina-PI, no dia 13/04/2019.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Como ler livros

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Esta aula foi ministrada por mim no Seminário Teológico do Nordeste, em 2019, como parte da disciplina de Metodologia da Pesquisa Científica.

Introdução

A analogia da leitura com o beisebol (ADLER, 2010, p. 27-28): “a arte de ler é a técnica de apanhar qualquer tipo de comunicação” (ADLER, 2010, p. 27).

Dois tipos de leitura:

1. Ler para se informar é o que acontece quando lemos qualquer coisa imediatamente inteligível, como jornais e revistas.

2. Ler para entender é o que ocorre quando lemos algo que em princípio não entendemos completamente. Para que esse segundo tipo de leitura ocorra, duas condições são necessárias: desigualdade inicial de entendimento entre o autor e o leitor, e a capacidade do leitor de superar parcial ou totalmente essa desigualdade.

Leitura ativa “é o processo por meio do qual a mente se eleva por conta própria, isto é, sem mais nada com o que operar a não ser os símbolos contidos no livro” (ADLER, 2010, p. 29).

Há quatro níveis cumulativos de leitura, onde os superiores englobam os inferiores, que serão estudados nesta aula.

Nível 1: A leitura elementar

Nesse nível, a pergunta que o leitor faz é: o que diz a frase? Seu objetivo é decodificar as palavras escritas, antes de procurar entendê-las. Esse nível tem quatro estágios:

1. A prontidão para a leitura (maternal e pré-escola): prontidão física (boa visão e audição), intelectual (percepção visual, lembrar-se de uma palavra inteira), linguística (falar com clareza e fazer uso de frases de maneira ordenada) e pessoal (habilidade de interagir com outras pessoas, manter-se atento, seguir ordens etc.)

2. O domínio vocabular (primeiro e segundo anos do Fundamental): a pessoa consegue decodificar os símbolos e entender o seu sentido. “De fato, a descoberta de sentido em símbolos é talvez o feito intelectual mais impressionante que qualquer ser humano é capaz de desempenhar – e a maioria das pessoas o faz antes dos sete anos de idade!” (ADLER, 2010, p. 44).

3. O desenvolvimento vocabular e a utilização de contextos (até o quarto ano do Fundamental): a pessoa adquire a habilidade de achar o sentido de palavras novas por meio de sinais contextuais.

4. O desenvolvimento e aperfeiçoamento das habilidades anteriormente adquiridas (novo ano do Fundamental): a pessoa consegue transportar conceitos de um texto a outro e comparar opiniões de diferentes autores sobre o mesmo assunto.

Nível 2: A leitura inspecional

Nesse nível, as perguntas que o leitor faz são: Que tipo de livro é esse? O que ele diz de modo geral? Qual a estrutura do livro? Há dois subníveis de leitura inspecional:

1. Pré-leitura ou sondagem sistemática: seu objetivo é descobrir se o livro exigirá uma leitura mais dedicada.

a. Examine a folha de rosto e o prefácio.

b. Examine o sumário.

c. Consulte o índice remissivo.

d. Leia a contracapa e a sobrecapa.

e. Examine os capítulos que lhe pareçam centrais ao argumento do autor.

f. Folheie o livro, e não deixe de ler as três páginas finais ou o epílogo, se o livro tiver um.

2. Leitura superficial. Regra de ouro: “Ao encarar um livro difícil pela primeira vez, leia-o sem parar, isto é, leia-o sem se deter nos trechos mais espinhosos e sem refletir nos pontos que ainda permanecem incompreensíveis para você” (ADLER, 2010, p. 55).

Sobre a velocidade da leitura: “Nenhum livro deve ser lido mais lentamente do que merece, e nenhum livro deve ser lido mais rapidamente do que seu aproveitamento e compreensão exigirem” (ADLER, 2010, p. 61).

Nível 3: A leitura analítica

“Se a leitura inspecional pode ser considerada a melhor e mais completa leitura possível em um período limitado de tempo, a leitura analítica é a melhor e mais completa leitura possível em um período ilimitado de tempo” (ADLER, 2010, p. 39).

A leitura analítica formula, de modo organizado, muitas perguntas, de acordo com o livro que está sendo lido.

Primeiro estágio (Regras para descobrir sobre o que é o livro). Responde à pergunta: O livro, como um todo, é sobre o quê?

1. Classifique o livro de acordo com título e assunto.

2. Expresse a unidade do livro da maneira mais breve possível.

3. Enumere suas partes principais em ordem e relação, e esboce essas partes assim como esboçou a unidade.

4. Defina o problema ou os problemas que o autor busca resolver.

Segundo estágio (Regras para descobrir o que diz o livro). Responde à pergunta: O que exatamente está sendo dito, e como?

5. Chegue a um acordo com o autor, interpretando suas palavras-chave.

6. Capte as proposições principais, encontrando as frases mais importantes.

7. Entenda os argumentos do autor, encontrando-os ou compondo-os com base em conjunto de frases.

8. Determine quais problemas o autor conseguiu resolver e quais ele não conseguiu resolver; neste caso, decida se o autor sabe que fracassou ao não resolvê-los.

Terceiro estágio (Regras para criticar o conteúdo). Responde às perguntas: O livro é verdadeiro? E daí?

A. Preceitos da etiqueta intelectual

9. Não critique até que tenha completado o delineamento e a interpretação do livro.

10. Não discorde de maneira competitiva.

11. Demonstre que reconhece a diferença entre conhecimento e opinião pessoal apresentando boas razões para qualquer julgamento crítico que venha a fazer.

B. Critérios especiais para o exercício da crítica

12. Mostre onde o autor está desinformado.

13. Mostre onde o autor está mal informado.

14. Mostre onde o autor foi ilógico.

15. Mostre onde a análise ou a explicação do autor está incompleta.

Nível 4: A leitura sintópica

Esse nível poderia ser chamado de “leitura comparativa”. É o nível mais difícil e exigente, onde o leitor compara vários livros sobre um determinado assunto e desenvolve uma análise que talvez não esteja em nenhum dos livros.

Inspeção de campo preparatória para a leitura sintópica (esses passos não são cronologicamente distintos):

1. Prepare uma bibliografia provisória de seu assunto lançando mão de catálogos de bibliotecas, orientadores e bibliografias de livros.

2. Inspecione todos os livros da bibliografia provisória a fim de averiguar quais têm a ver com o assunto que lhe interessa e para formar uma ideia mais clara do assunto.

Leitura sintópica da bibliografia reunida na inspeção:

1. Inspecione os livros que já foram identificados como relevantes para o assunto a fim de encontrar as passagens mais importantes.

2. Forje um consenso entre os autores por meio da construção de uma terminologia neutra do assunto que, segundo a sua interpretação, todos, ou a grande maioria, pudesse empregar, quer eles efetivamente empreguem tais palavras, quer não.

3. Estabeleça uma série de proposições neutras para todos os autores por meio de uma série de perguntas que, segundo a sua interpretação, os autores respondem, quer eles tratem explicitamente dessas questões, quer não.

4. Delimite as divergências, grandes e pequenas, demarcando as respostas contrárias dos autores às diversas perguntas, estando eles de um lado ou de outro na divergência. Deve-se lembrar que nem sempre há uma divergência explícita entre dois ou mais autores e que às vezes é preciso construí-la por meio da interpretação das opiniões dos autores sobre assuntos que podem ter figurado entre seus interesses básicos ou não.

5. Analise a discussão ordenando as perguntas e divergências de modo a esclarecer ao máximo o assunto. As divergências mais gerais devem vir antes das menos gerais, e as relações entre as divergências têm de ser indicadas com clareza.

Bibliografia:

ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como ler livros. São Paulo: É Realizações, 2010.

Observação: Esta aula é um resumo do livro acima. A redação das regras da leitura analítica e dos passos da leitura sintópica é normalmente exatamente igual à de Adler, ainda que as aspas não tenham sido utilizadas.
 

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